Novo x velho: que pneu usar

Nos pneus dos tratores agrícolas a pressão de inflação e lastragem incorreta são os fatores que mais contribuem para o desenvolvimento de avarias e desgaste prematuro. Dentre as características dos pneus que afetam o desempenho operacional do trator, estão o tipo de construção, a configuração da banda de rodagem, a largura, o diâmetro dos rodados e a carga normal aplicada sobre as rodas motrizes. Além disso, as propriedades do solo como textura, umidade e as condições de superfície.

Duas importantes regulagens que o agricultor pode fazer para obter um rendimento maior e um prolongamento da vida útil do pneu, além de minimizar os problemas de perda de tração, aumento de patinagem e consumo de combustível, são ajustar corretamente a lastragem e acertar a pressão de inflação dos pneus.

A pressão de inflação, também chamada de pressão interna, deve ser ajustada em função das variações de carga aplicada sobre o pneu. Considera-se carga aplicada sobre o rodado, o próprio peso do veículo, tendo em vista a distribuição de pesos entre os eixos e a adição de lastro, seja metálico ou água nos pneus.

A sobrecarga, que é o peso além do especificado pelo fabricante para cada pneu e a pressão de inflação abaixo da recomendada, ocasiona uma flexão maior nas laterais, fazendo com que a banda de rodagem (parte externa do pneu, onde localizam-se as garras) tenha um desgaste prematuro e não uniforme. Já a inflação acima da recomendada causa um aumento do desgaste na parte central da banda de rodagem, o que diminui o contato do pneu com o solo, aumentando a patinagem e o consumo de combustível. A Figura 1 mostra o comportamento do pneu conforme o nível de pressão interna.

Na prática é possível verificar visualmente no campo já com o trator trabalhando se a lastragem utilizada está correta, basta observar as marcas deixadas pelos pneus no solo. Marcas pouco definidas e superficiais indicam pouco lastro para a atividade que está sendo executada, enquanto marcas bem definidas com aprofundamento da superfície significam excesso de lastro. O peso do trator está correto quando as marcas dos pneus estiverem bem definidas nas bordas e superfície do solo pouco aprofundada, conforme mostra a Figura 2.

Não basta trabalhar com pressão e lastragem adequadas deve-se ter atenção com a vida útil dos pneus, pois a altura das garras influencia em patinagem, esforço de tração e consumo de combustível do trator.

Com o intuito de avaliar o consumo de combustível de um trator em função do desgaste, da lastragem e da pressão de inflação dos pneus, foi realizado um ensaio na área experimental da Universidade Federal de Lavras (Ufla).

EXPERIMENTO DE CAMPO

No experimento foi testado um trator agrícola marca Valtra, modelo BL 88, 4x2 com tração dianteira auxiliar acionada, de 65,62kW (88cv) de potência nominal no motor, peso total com lastro de 45,24kN (4.613kgf), distribuído em 38% no eixo dianteiro e 62% no eixo traseiro. O trator apresentava pneus do tipo R1, diagonal (dianteiros: 12,4-24; traseiros: 18,4-30), sendo que a altura média das garras dos pneus novos foi de 30 e 35mm para os pneus dianteiros e traseiros, respectivamente, e nos pneus desgastados, 18 e 4,5mm para os pneus dianteiros e traseiros simultaneamente. Para obtenção do esforço de tração e patinagem foi utilizado um trator de frenagem, da marca Massey Fergunson, modelo 290, 4x2 com tração dianteira auxiliar (TDA) acionada, com 63,38kW (85cv) de potência nominal no motor. A massa total deste trator foi de 38,25kN (3.900kgf). Foram utilizados três níveis de pressão, conforme mostra a Tabela 1 e três níveis de lastragem conforme se observa na Tabela 2.

RESULTADOS

Os resultados comparando o consumo horário de combustível mostraram desempenho superior no trator equipado com pneus desgastados em relação ao trator equipado com pneus novos. Este fato ocorreu porque o pneu novo apresentou um desenvolvimento maior de força na barra de tração, o que ocasionou maior patinagem e consequente aumento no consumo volumétrico de combustível. O aumento na força e potência na barra de tração, quando utilizados pneus novos, refletiu em menor consumo específico de combustível.

O Gráfico 1, mostra que, de maneira geral, os pneus novos proporcionaram maior consumo horário de combustível quando comparado com a utilização de pneus desgastados. No entanto, a forma técnica de expressar o consumo de combustível é através da unidade de massa por unidade de potência (g/kWh), conhecida como consumo específico. Esta forma técnica pode ser usada para comparar motores, tratores e equipamentos de tamanhos e formas diferentes.

Gráfico 1 - Comparação dos resultados do consumo horário de combustível do pneu novo e do pneu desgastado

Ao analisar o consumo específico de combustível pode-se observar que este foi maior com o uso de pneu desgastado. Nota-se no Gráfico 2 também que o menor consumo específico de combustível foi de 423,35g/kWh e ocorreu no tratamento (L1P2), estando o trator lastrado, pneus novos com água ocupando 75% de seu volume e pressão interna de 138 e 125kPa nos pneus traseiros e dianteiros, respectivamente. No mesmo tratamento, ocorreu o maior valor de potência na barra de tração, que foi de 21,05kW.

Ao analisar a pressão de inflação dos pneus desgastados, diante dos diferentes níveis de lastragem, nota-se que a utilização de maior pressão (P1) não provocou muita variação no consumo específico de combustível para os diferentes níveis de lastragem, fato semelhante ao que ocorreu com o uso de pneus novos. A utilização da menor pressão, estando o trator sem lastros e sem água nos pneus (L3P3), causou aumento de aproximadamente 37% no consumo específico de combustível com relação à utilização de pneus com lastros metálicos e de água (L1P3).

Gráfico 2 - Comparação dos resultados do consumo específico de combustível do pneu novo e do pneu desgastado

CONCLUSÃO

A utilização de pneus desgastados é uma alternativa desde que as operações a serem realizadas não exijam muita força de tração. Além disso, as melhores condições de trabalho para tratores equipados com pneus desgastados são alcançadas com a utilização de lastro e pressões de inflação alta. Entretanto os resultados evidenciaram vantagens para o trator quando equipado com pneus novos, no que diz respeito ao consumo de combustível por unidade de potência.

TABELA 1 - Diferentes níveis de pressão de inflação empregados aos pneus

Pressão

Pressão nos pneus Traseiros (kPa)

Pressão nos Pneus Dianteiros (kPa)

P1

180kPa (26 PSI)

165kPa (24 PSI)

P2

138kPa (20 PSI)

125kPa (18 PSI)

P3

110kPa (16 PSI)

83kPa (12 PSI)

TABELA 2 - Diferentes níveis de lastragem empregados ao trator

Lastagem

Designação

Peso do trator (kN)

Peso do trator (%)

L1

Pneus com água e com lastro metálico

45,24

100

L2

Pneus com água e sem lastros metálicos

41,87

92,55

L3

Pneus sem água e sem lastros metálicos

33,56

74,18



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Roger Toscan Spagnolo, Marcos Antonio Zambillo Palma, Carlos Eduardo Silva Volpato, Jackson Antônio Barbosa e Murilo Machado De Barros​

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