O bicho assusta, mas os danos são controláveis

Esse inseto tanto é chamado de broca das axilas, como de broca dos ponteiros. E entre os vetustos cientistas, pesquisadores e outros colegas que gostam de nomes latinos, ela é solenemente chamada de Epinotia aporema. Com um detalhe: em latim, o “ti” se lê “ci”, então o nome lido é “epinócia”. Quem for buscar informações nos textos antigos, pode encontrar outros nomes científicos como Epinotia opposita, e se forem bem antigos, achará Eucosma aporema. O responsável pela denominação atual foi o cientista Walsingham, em 1914. E já que estamos falando latim, a broca pertence à família Torthricidae, onde são encontradas diversas brocas de plantas, e à ordem Lepidoptera, que é nossa velha conhecida, pois é composta de mariposas e borboletas.

A broca das axilas não é muito comum nos locais de produção de soja. Ela já foi encontrada no sul dos Estados Unidos, no Chile, no Uruguai e no Brasil, mas raramente em altas populações. Aqui no Brasil, nós a consideramos uma praga secundária, porque ela não é encontrada em todos os locais de produção de soja, e seu ataque é muito inconstante de ano para ano. Parece que ela prefere plantios de soja em maior altitude, onde as temperaturas são mais baixas, especialmente as noturnas.

Biologia

Vamos começar o ciclo da broca das axilas pelos ovos. Cerca de dois dias depois da cópula das mariposas, inicia a oviposição. A postura é feita em forma isolada. Os ovos são depositados nas folhas da soja, especialmente nas brotações novas. Os ovos medem 0,5 x 0,3mm, formando uma elipse. Quem examinar os ovos com lupa, perceberá a cor amarela pálida. A fase de ovo dura 5 dias.

As lagartinhas novas são muito pequenas (1-2 mm), ágeis, com uma atração muito grande pela luz. Já nessa fase pode ser observada a tendência de broquear a planta. Conforme se desenvolve, essa característica é mais marcante. Ela sofre 5 mudas de pele, durante a fase de larva. Nas primeiras quatro, a cor é verde claro, mas a cabeça é de cor preta brilhante. Já na última muda, a lagarta chega a medir 10 mm, tem o corpo cor rosa ou bege, e a cabeça marrom.

O tempo entre as mudas de pele depende de diversos fatores, mas no primeiro estádio, a lagarta permanece 3-5 dias, no segundo entre 2-4 dias, e no terceiro de 2-3 dias. O quarto é o mais curto, com apenas 2 dias, enquanto o quinto é o mais longo, de 5 e 6 dias. Da postura até eclodir a mariposa decorrem entre 30 e 40 dias.

Completada a fase de lagarta, vem a etapa de crisálida ou pupa, que é o período intermediário entre a lagarta e a mariposa, que dura 12 a 16 dias. Ao aproximar-se a transformação, a broca sai das galerias e se dirige ao solo, onde passa a fase de crisálida. Essa tem cor castanha rosada, medindo 7mm de comprimento e 2mm de diâmetro. Ela é fácil de identificar, não só pelas características anteriores, mas porque olhando a pupa, percebe-se que a parte anterior do corpo é cilíndrica, enquanto a posterior é bem afilada. Ao longo do corpo encontram-se faixas de pilosidade, que são mais espessas na parte anterior do corpo, e mais raras no final do abdômen.

Se você quer saber como os cientistas separam machos de fêmeas, na fase de pupa, vai precisar de uma lupa de uns 5 aumentos. Observe o abdômen, e verá que é composto por segmentos transversais (mal comparando, parece uma minhoca), que permite movimentos em todas as direções. Vá olhando até o fim do abdômen, e você vai encontrar duas situações: ou o último segmento (o sétimo) está solto, livre, e então você está observando um macho; ou ele está soldado aos anteriores, e aí se trata de uma fêmea. Simples, não?

Nascem as mariposas. Aí também nós temos diferenças entre machos e fêmeas, e já que você se interessou vamos contar a história em detalhes. Se for macho, a cor da cabeça, antenas, tórax e patas (ou seja, o corpo) são cinza. As asas também são cinzentas, mas as bordas são mais escuras, e ao sol, aparecem reflexos castanhos ou cor de cobre. Tem outros detalhes: A) Na ponta do primeiro par de asas, aparece uma mancha escura com o centro de cor preta; B) Saindo da altura da cabeça, e percorrendo toda a asa, há uma faixa curva, de cor preta; C) Depois desta, alternam-se faixas escuras e mais claras, que vão diminuindo de largura, até chegar na borda da asa; e D) O segundo par de asas é mais claro que o primeiro, com a borda bem acinzentada.

Se for fêmea, a maior diferença é a presença de escamas sobre as asas. O primeiro par de asas apresenta coloração castanho acinzentado, com reflexos cor de cobre. Bem, diferenciar sexo de mariposas não é tão fácil, mas você não vai pensar que está vendo espécies diferentes.

Danos

A broca das axilas mais assusta do que causa danos. O primeiro ponto a considerar é que, normalmente, ela só ataca a planta enquanto houver brotações novas. Na prática, quando a planta entra na fase crítica, com vagens anta, a broca das axilas tende a desaparecer, porque não existem brotações novas.

Os danos são de dois tipos:

A) As lagartas, especialmente as menores, atacam as brotações novas, especialmente a apical (daí o nome broca dos ponteiros). Tece uma teia que unindo os folíolos, retardando a abertura do broto, e se alimenta dos folíolos. A lagarta tem uma capacidade de consumo muito baixo. Mas o estrago que ela causa assusta, porque come 1-2 cm2 do broto, quando este tem 3-4cm2. Quando a folha abre totalmente, fica encarquilhada, rugosa, com contornos irregulares, faltando 50% ou mais de sua área folhar. Algumas brotações danificadas podem morrer. Como os brotos, normalmente, são apicais, olhando a lavoura, a impressão é de que o estrago é maior do que realmente ocorreu.

B) A lagarta broqueia diversos pontos da planta, como pecíolos, ramos ou o caule. Nesse caso, a lagarta cava uma galeria descendente, onde permanece até sair para empupar, alimentando-se do interior da planta. Em geral, a galeria começa numa axila, e aí você entendeu porque é chamada de broca das axilas.

O perigo maior está na fragilização da planta, por causa da galeria, porque o ramo pode romper-se com chuva ou vento forte. Também a entrada da galeria, nas axilas, se torna uma porta para orvalho e chuva, criando ambiente propício para proliferação de enfermidades, ou mesmo para a morte do tecido por excesso de água.

Um pesquisador do Paraná, Dr. Edson Iede (Embrapa Florestas), estudou a reação da planta de soja a um ataque de até 30% dos ponteiros, em 6 épocas de plantio, entre 15 de outubro e 30 de dezembro. Em todos os plantios, havia uma testemunha sem ataque, e não houve diferença de produtividade entre a soja atacada e a não atacada, em qualquer das épocas. Mesmo assim, para garantia do agricultor, os pesquisadores recomendam efetuar o controle somente quando forem encontrados mais de 30% dos ponteiros da soja atacados. Para saber quais inseticidas controlam a praga, consulte o seu agrônomo.

Décio Luiz Gazzoni
Embrapa Soja

* Este artigo foi publicado na edição número 12 da revista Cultivar Grandes Culturas, de janeiro de 2000. ver mais artigos