O inimigo está no solo

A rotação de culturas e de cultivares significa o cultivo sucessivo de diferentes culturas e cultivares no mesmo campo. Trata-se de uma iniciativa de moderada a altamente efetiva no controle de 60% das doenças do feijoeiro, incluindo todas aquelas originadas por nematóides e bactérias, a maioria das causadas por fungos e algumas que têm vírus como agente causal. Contudo, deve-se considerar fatores que determinam a eficiência da rotação como meio de controle.

Existem patógenos que habitam o solo e que podem resistir aos períodos de ausência do hospedeiro através de estruturas de resistência como escleródios. Um exemplo é Sclerotinia sclerotiorum, fungo causador do mofo branco do feijoeiro que pode permanecer no solo por até oito anos.

Clamidosporos são outros tipos de estruturas de resistência muito comuns nos fungos do gênero Fusarium (F. oxysporum e F. solani). Embora não possuam duração muito longa, alguns clamidosporos têm capacidade de germinarem estimulados por exudatos ou resíduos, tanto de hospedeiros como de não hospedeiros, dando origem a novos clamidosporos, incrementando assim a população de propágulos. Esses patógenos, além de perpetuarem-se no solo livre do hospedeiro, aumentam o número de seus propágulos nas rizosferas de plantas como tomateiro e milho, entre outras.

Hospedeiros alternativos

Outros problemas são os hospedeiros alternativos. Doenças como mela (Thanatephorus cucumeris), podridão cinzenta do caule (Macrophomina phaseolina), podridões do colo (Sclerotium holfsii), podridões radiculares (Rhizoctonia solani e Fusarium solani) e o já citado mofo branco (Sclerotinia sclerotiorum) são difíceis de serem controlados principalmente por apresentarem um grande número de hospedeiros e grande capacidade saprofítica.

Sclerotinia sclerotiorum infecta mais de 300 espécies diferentes de plantas, pertencentes a aproximadamente 200 gêneros botânicos. Patógenos especializados como Fusarium solani f. sp. phaseoli e F. oxysporum f. sp. phaseoli podem resistir na forma de clamidosporos, infectando hospedeiros nativos ou saprofiticamente no solo. Rhizoctonia solani também perdura saprofiticamente no solo, contaminando plantas nativas ou na forma de escleródios.

Thanatephorus cucumeris é o agente causal da mela, uma doença igualmente difícil de ser controlada, justamente por apresentar um grande número de hospedeiros e grande capacidade saprofítica. Sobrevive como saprófita nos restos de cultura ou parasitando hospedeiros alternativos ou ainda na forma de escleródios. Macrophomina phaseolina é também um fungo tão polífago quanto S. sclerotiorum, podendo infectar inúmeras espécies vegetais, incluindo gramíneas.

A bactéria Xanthomonas campestris pv. phaseoli causadora do crestamento bacteriano comum pode sobreviver em restos de culturas infectados, servindo como fonte de inóculo de um ano para outro. Esta bactéria é mais eficiente como fonte de inóculo, quando os restos permanecem na superfície do solo que quando enterrados a 10-20cm de profundidade.

Controle

A sobrevivência dos patógenos é totalmente dependente da presença do hospedeiro vivo ou de seus resíduos. Quanto mais prolongada e repetida a presença destes hospedeiros, maiores as chances de uma epidemia. Rotação com plantas não hospedeiras reduzem a seleção de patógenos específicos e desta maneira dificultam o desenvolvimento de altas populações dos mesmos. Em muitas situações, a ausência do hospedeiro diminui a população do patógeno em conseqüência da mortalidade natural. Plantas diversas podem deixar resíduos com variáveis dificuldades de decomposição, seja pela diferença nas relações C/N, de teores de N e de lignina ou de preferência de determinados organismos habitantes do solo.

O cultivo que antecede, o volume e a localização do resíduo mantido sobre o solo bem como as condições de clima prevalecentes podem determinar a sobrevivência de patógenos e o aparecimento e desenvolvimento de doenças.

Por exemplo, em trabalhos conduzidos na Embrapa Arroz e Feijão, foi encontrado menor número de plantas de feijoeiro infectadas por Rhizoctonia solani no sistema de rotação no qual o plantio de feijoeiro foi precedido de milho ou de arroz. A redução foi ainda maior quando a rotação do feijoeiro com uma das gramíneas foi realizada em solo preparado com arado aiveca (aração profunda).

Certamente a rotação de culturas e de cultivares deve ser vista como um dos melhores recursos para controle de doenças, principalmente, aquelas devidas a patógenos habitantes do solo que dependem de resíduos para sobreviverem na ausência do hospedeiro vivo. A rotação constitui-se em uma das práticas mais freqüentes identificadas com a agricultura chamada alternativa.

Gerson Pereira Rios,
Embrapa Arroz e Feijão

* Este artigo foi publicado na edição número 28 da revista Cultivar Grandes Culturas, de maio de 2001. ver mais artigos
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