O momento certo de defender o algodão

O algodoeiro possui numerosas glândulas, denominadas nectários, que produzem uma secreção líquida resinosa, açucarada. Talvez seja por essa razão que sua cultura é uma das mais perseguidas por insetos para nela estabelecerem a sua colônia. Mas a atividade dessas glândulas varia conforme a idade da planta e as condições do meio ambiente.

O grande número de pragas que procura essa cultura para dela se alimentarem faz com que um terço dos defensivos sejam despendidos para a sua produção e na medida que se economizam tais insumos aumenta a relação custo/benefício.

O Manejo das pragas, Manejo integrado ou Manejo ecológico das pragas, em que são estabelecidos certos procedimentos com o intuito de reduzir os inseticidas, além de reduzir o uso de defensivos visa também a preservação do meio ambiente. Uma das ferramentas utilizadas no controle das pragas é a aplicação dos inseticidas quando o seu nível populacional for igual ao custo do tratamento, pois não tem sentido controlar uma praga que cause um dano inferior ao custo do seu controle.

Por exemplo, se deixarmos a praga atingir o nível de dano equivalente a R$ 30,00/ha e aplicarmos um inseticida de R$ 30,00 o prejuízo total seria de R$ 60,00. Ocorre que muitas vezes a população da praga começa a crescer e antes de atingir o nível equivalente ao custo de tratamento desaparece, permitindo economizar a aplicação. Isso acontece porque podem ocorrer condições adversas às pragas, como chuvas ou inimigos naturais, reduzindo-as; nesse caso, dizemos que as pragas estão no nível de equilíbrio (NE).

O nível populacional da praga que causa o dano em dinheiro deve ser conhecido e está em função da produtividade de área. Quanto maior a produção e o valor dela por unidade de área, mais significativo é o dano causado pela praga. Do mesmo modo ocorre com os inseticidas. Quanto maior o preço do inseticida, maior é a tolerância das pragas.

Embora teoricamente o raciocínio seja esse, na cultura do algodão dificilmente o produto obtido perde o seu valor comercial e se o controle não é realizado a perda pode ser elevada. Algumas pragas, como o pulgão que transmite viroses em certas variedade como ITA 90, o controle precisa ser preventivo, pois a tolerância é praticamente zero. Os pulgões alados que chegam às lavouras novas podem vir contaminados com a virose e infectar as plantas, desencadeando um surto da doença.

Um resumo dos níveis de tolerância é aqui apresentado, considerando as principais pragas que atacam essa cultura.

Amostragens - áreas grandes. Dividi-las em talhões de 100 ha e tomar amostras de 100 plantas de cada talhão, tomando-se 20 pontos contendo 5 plantas cada. Examinar as plantas, anotando as pragas existentes. Desses 20 pontos, tomar 4 pontos na periferia e os restantes no interior do talhão. A freqüência dessas amostragens será de 3 a 5 dias, dependendo sempre da amostragem anterior; se está próxima do nível tolerado, aumentar a freqüência.

Pulgão - nas variedades sensíveis à “enfermidade azul” o controle deve ser praticamente preventivo, através do tratamento das sementes com inseticidas que possuem um efeito residual de pelo menos 20 dias. Em seguida devem ser pulverizados com sistêmicos foliares alternando-se o grupo do inseticida utilizado no tratamento das sementes. Essa alternância visa evitar a resistência da praga ao grupo.

Em se tratando de variedades tolerantes à virose, o nível populacional tolerado do pulgão é de 1 por cm2 de folha em média, avaliando-se a quarta folha, a contar de cima para baixo; valores acima deste estimado exigem a pulverização do inseticida.

Em geral o controle deve ser feito até 60 dias de idade das plantas, tendo em vista que a cultura se desenvolve em períodos chuvosos. Se por acaso ocorrer um período de estiagem após essa idade, o controle do pulgão deve continuar. Muitas vezes, no final do ciclo da cultura, o pulgão também precisa ser controlado, pois uma população elevada, em época de seca, pode prejudicar as fibras expostas, devido à excreção de um líquido açucarado sobre elas.

Bicudo - Deve ser contado o número de maçãs/planta, na média; cada maçã em formação ou formada/planta corresponde a % infestação tolerada; assim 2 maçãs = 2% de infestação de botões florais é tolerado e acima disso deve se fazer a pulverização. Com 8 maçãs existentes deve-se tolerar até 8% de botões infestados e assim por diante. A proteção é feita em função das maçãs obtidas; quanto maior o número de maçãs existentes, significa que a produção já está garantida e portanto a tolerância à praga é maior.

Curuquerê ou insetos desfolhadores: a tolerância é de 25% de desfolhamento, em média, para qualquer fase de desenvolvimento das plantas; acima desse valor deve-se pulverizar a lavoura.

Lagarta da maçã - avaliar as lagartinhas existentes nos ponteiros de cada planta; quando for constatada 10% de ponteiros ou mais com essa praga, iniciar a pulverização.

Lagarta rosada - amostrar 100 maçãs em formação, ou seja, ainda não amadurecidas, e abri-las para exame de conteúdo. Caso forem encontradas 5% delas com lagartas, iniciar a pulverização. Havendo armadilha para monitoramento, quando forem capturados 10 adultos/armadilha.

Percevejo rajado - ou manchador: constatação de 20% de plantas infestadas exige o controle dos mesmos.

Lagarta Spodoptera - quando forem encontradas 5% de plantas com massas de ovos e eclosão de lagartinhas.

Octávio Nakano
ESALQ / USP

* Este artigo foi publicado na edição número 08 da revista Cultivar Grandes Culturas, de setembro de 1999. ver mais artigos
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