​Como escolher a variedade adequada para a realidade da lavoura de trigo


As atuais e potenciais regiões tritícolas brasileiras são região Sul, região Centro-Sul e região Central, representada pelo Cerrado brasileiro. As regiões Sul e Centro-Sul, abrangendo aproximadamente dois milhões de hectares (ha), são consideradas áreas tradicionais de cultivo de trigo e representam, aproximadamente, 95% da área atualmente cultivada e, por consequência, da produção brasileira de trigo. Nessa região ocorrem solos com e sem alumínio, sendo o clima classificado como temperado a subtropical, com chuvas menos frequentes e menos uniformes no Paraná e com precipitações mais abundantes no Rio Grande do Sul, durante a época de cultivo de trigo. Em geral, pelas condições de ambiente mais seco no Paraná, os genótipos de trigo cultivados nesse Estado têm apresentado melhor aptidão tecnológica para panificação, quando comparadas com as mesmas cultivares produzidas na região tritícola Sul.

Como o Paraná e o Rio Grande do Sul respondem, tradicionalmente, por mais de 90% da produção nacional de trigo, uma boa produção nesses estados é importante para o Brasil reduzir a sua dependência de importações. O Paraná, até 2011, representava mais de 50% da área e da produção de trigo no Brasil. Com o aumento da área com milho de segunda safra, chamada de milho safrinha, que atingiu, aproximadamente, dois milhões de hectares no Paraná, esse Estado teve uma redução de área em torno de 26%, em 2012, perdendo a condição de maior produtor do país (dados da Companhia Nacional de Abastecimento, a Conab). Essa redução de área se deu, principalmente, devido ao aumento do milho safrinha na região oeste do Estado.

Em 2014 a área plantada no Paraná deve alcançar 1,2 milhão de hectares, um aumento de aproximadamente 20% em relação ao ano passado. As informações são do relatório da safra de grãos 2013/2014 do Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria da Agricultura e Abastecimento. Se confirmada a área, em condição climática normal, a safra poderá atingir um recorde de 3,5 milhões de toneladas, o que daria ao Paraná a condição de maior produtor nacional, título perdido em 2013 para o Rio Grande do Sul, quando a safra paranaense somou 1,8 milhão de toneladas devastadas pelas geadas.

No Rio Grande do Sul, a área plantada em 2013 foi de 1.059.232 hectares, com rendimento médio de 3.060kg/ha, resultando na produção de 3.351.655 toneladas, a maior safra da história do trigo gaúcho, voltando a ser o “celeiro nacional" para a cultura do trigo. Para 2014, as estimativas apontam incremento de 10% na área a ser semeada, o que representa a projeção de 1.160.000 de hectares de trigo para 2014. Considerando a mesma produtividade de 2013, o Rio Grande do Sul poderá manter-se como maior produtor de trigo com a produção de 3.550.000 toneladas.

Cultivares com registro

Para que uma cultivar de trigo possa ser comercializada, cobrar royalties, e ser semeada em solo brasileiro, é necessário que esteja inscrita no Registro Nacional de Cultivares do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (RNC-Mapa) e no Sistema Nacional de Proteção de Cultivares do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (SNPC-Mapa). Informações mais detalhadas sobre o registro e proteção de cultivares podem ser encontradas em: http://www.agricultura.gov.br/vegetal/registros-autorizacoes/registro/registro-nacional-cultivares e em

http://www.agricultura.gov.br/vegetal/registros-autorizacoes/protecao-cultivares/formularios-protecao-cultivares.

Na Figura 1 estão apresentadas as regiões homogêneas de adaptação de cultivares de trigo, utilizadas para fins de indicação de cultivares no Zoneamento Agrícola de Risco Climático do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento e para realização de ensaios de Valor de Cultivo e Uso (VCU) de trigo para os estados considerados.

Figura 1 - Regiões homogêneas de adaptação de cultivares de trigo no Brasil

CLASSIFICAÇÃO TECNOLÓGICA

Para a comercialização do trigo há necessidade do enquadramento das cultivares indicadas para cultivo no Brasil em classes comerciais conforme a Tabela 1.

Tabela 1 - Classes do trigo do Grupo II destinado à moagem e outras finalidades

Classes

Força do Glúten

(Valor mínimo expresso em 10-4 J)

Estabilidade

(Tempo expresso em minutos)

Número de Queda

(Valor mínimo expresso em segundos)

Melhorador

300

e

14

250

Pão

220

ou

10

220

Doméstico

160

ou

6

220

Básico

100

ou

3

200

Outros Usos

Qualquer

Qualquer

Qualquer

Fonte: Instrução Normativa No 38, de 30 de novembro de 2010, do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, publicada no Diário Oficial da União de 1º de dezembro de 2010.

CULTIVARES DE TRIGO EM USO NO BRASIL

Se as cultivares conhecidas como “antigas" tinham a rusticidade (adaptação e resistência geral a estresses bióticos e abióticos) como característica de destaque associada à boa resistência ao crestamento, também apresentavam como pontos negativos o porte alto e o baixo potencial de rendimento de grãos. Por outro lado, as cultivares de trigo conhecidas como “modernas" têm, em geral, porte mais baixo e, por isso, têm mostrado grande redução na incidência de acamamento quando cultivadas em solos mais férteis com maiores doses de adubos nitrogenados. A adição de novos genes de resistência às doenças, às pragas e aos estresses causados pelo ambiente adverso tem proporcionado substancial aumento no potencial de rendimento de grãos, que atualmente ultrapassa em muito os 2.000kg/ha, que eram alcançados nas melhores lavouras de 20 anos atrás. Nos últimos anos, foram comuns os relatos de lavouras ultrapassando os 5.000kg/ha, principalmente em lavouras do Sul e Centro-Sul do Brasil, mesmo sem irrigação.

Assim, as diversas empresas de melhoramento de trigo estão presentes na criação destas cultivares em todo o Brasil, com o objetivo de atender às diversas regiões de adaptação apresentadas no mapa das regiões de adaptação de trigo no Brasil (Figura 1) e conforme as diferentes demandas dos mercados consumidores. Na Tabela 2 são apresentadas as cultivares de trigo indicadas para comercialização de sementes nas três regiões de adaptação do Brasil no ano de 2014 (Reunião da Comissão Brasileira de Pesquisa de Trigo e Triticale 2013). São apresentadas, também, as informações sobre o obtentor (empresa que registrou a cultivar no Mapa), o ano de lançamento da cultivar, o estado e a região para onde a cultivar foi indicada ao cultivo, além da classe comercial da cultivar.

Na Tabela 3 são apresentadas algumas das principais características das cultivares que poderão influenciar por ocasião da escolha da cultivar a ser semeada. São apresentadas as informações sobre: estatura de planta, reação ao crestamento, à germinação na espiga em pré-colheita, ao oídio, à ferrugem da folha, à ferrugem do colmo, à giberela, à brusone, à mancha da gluma, à mancha marrom, à mancha bronzeada, ao vírus do mosaico e ao vírus do nanismo amarelo da cevada (Vnac).

Novas cultivares de trigo são desenvolvidas pelas empresas de melhoramento, anualmente, para todas as regiões produtoras. A melhoria da resistência, do potencial de rendimento e da qualidade, associada a novos “ideotipos" de planta, adaptados às condições brasileiras, é buscada continuamente pela pesquisa. Como nova recomendação de cultivo da Embrapa, merece destaque a cultivar BRS Parrudo (Figura 2), que foi indicada para semeadura nas regiões tritícolas 1 e 2, dos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Região 1 do Paraná. BRS Parrudo possui ciclo precoce a médio (85 dias até o espigamento e 135 dias até a maturação de colheita) e tem arquitetura de planta diferenciada em relação às demais cultivares de trigo disponíveis no mercado. Apresenta, em sua genética, um conjunto de características agronômicas importantes, como, por exemplo, porte médio, vigoroso sistema radicular permitindo melhor “ancoramento" da planta ao solo e colmo cheio nos entrenós da base, resultando em boa resistência ao acamamento. BRS Parrudo apresenta ainda vigoroso crescimento inicial e folhas curtas e eretas, permitindo melhor penetração e distribuição da luminosidade, bem como melhor difusão gasosa também para as folhas inferiores da planta, tornando o microclima no interior da cultura menos favorável às doenças e permitindo, ainda, melhor penetração dos tratamentos aplicados. A resistência ao crestamento e moderada resistência à geada em fase vegetativa (com pouca “queima de folhas") também merecem destaque. Mostrou, ainda, espiga longa, com até 20 espiguetas, e com excelente fertilidade, podendo formar de três a quatro grãos por espigueta em lavouras de elevado potencial de rendimento de grãos. Na colheita, chamam atenção os grãos duros, vermelhos e vítreos, com ausência de grãos mosqueados (chamados de “pança blanca" na Argentina e responsáveis pela posterior redução na força de glúten da farinha).

Os primeiros lotes do trigo BRS Parrudo, produzidos em 2013, chegaram aos moinhos em 2014 quando a indústria já testou e os resultados foram promissores. Foram enviadas 38 amostras de BRS Parrudo cultivadas em lavouras de diversos municípios do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e sul do Paraná, a um moinho paranaense para análise dos grãos e da farinha. Como resultado foram obtidos valores de força de glúten (W) entre 279 e 495, com média de 351. No teste de Farinografia, que também mede a capacidade de amassamento, BRS Parrudo teve média de 31 minutos, com variação entre 15 e 62 minutos. Sendo classificado como Trigo Melhorador, sugere-se que esta cultivar seja empregada na produção de massas alimentícias secas, biscoitos tipo cracker, panificação industrial, podendo ser mesclada com trigo de glúten mais fraco, para panificação em geral.

Seguindo as recomendações de manejo para uma boa lavoura de BRS Parrudo, o produtor pode alcançar a produtividade de grãos desejada e a qualidade que o mercado exige. As principais recomendações de manejo são: aplicar boa adubação de base, seguindo análise de solo; empregar tratamento de sementes; na semeadura usar, aproximadamente, 150kg de sementes por ha, com o objetivo de estabelecimento de uma população de, no mínimo, 300 plantas por m2; usar adubação de cobertura com até 120kg/ha de nitrogênio, somando base + cobertura, para a Região 1 (Planalto, Serra e Serra do Sudeste), e até 100kg/ha de nitrogênio, somando base + cobertura, para a Região 2 (Missões, Campanha e Depressão Central).

Também as demandas das indústrias moageiras e do mercado consumidor de farinhas estão em constante ajuste, exigindo da pesquisa, em geral, novos investimentos para fazer frente aos desafios que vêm sendo apresentados. Espera-se que, no futuro, a pesquisa, os produtores de grãos e as indústrias de moagem e de transformação consigam atender às demandas dos consumidores finais, consumidores de pão, de massas, de bolos, de biscoitos e demais produtos derivados de trigo.

Figura 2 - BRS Parrudo: nova cultivar de trigo da Embrapa para RS, SC e sul do Paraná


Confira o artigo na edição 181 da Grandes Culturas.



ver mais artigos

Pedro Luiz Scheeren; Manoel Bassoi

CADASTRO DE NEWS
  • Receba por e-mail as últimas notícias sobre agricultura