O rei das hortaliças

Do grupo das hortaliças, o tomate é a espécie mais importante, tanto sob o ponto de vista econômico quanto social, pelo volume da produção e geração de empregos. São quase quatro milhões de hortas cultivadas com a espécie, o que gera uma produção de cerca de 110 milhões de toneladas. É também uma espécie cosmopolita, pois é cultivada no mundo todo, sendo China, Estados Unidos da América e Índia os principais produtores.

O Brasil é o oitavo maior produtor com cerca de 63 mil hectares cultivados e produção que atinge a 3,5 milhões de toneladas, o que significa uma média de 56 t/ha ou seja, o dobro da média da produtividade mundial, que chega a 27 t/ha. Embora cultivado em todos os estados em maior ou menor escala, os principais produtores são Goiás, Minas Gerais, São Paulo, Bahia e Rio de Janeiro.

Da produção total, 70% são destinados ao mercado para consumo ao natural e o restante são matéria-prima para industrialização, com os quais são elaborados diversos produtos, tais como estratos, pastas, molhos, sucos e outros derivados. É necessário ressaltar que as cultivares de tomate para mercado são diferentes daquelas para industrialização, tanto no que se refere à planta quanto ao fruto e sistemas de cultivo.

O cultivo do tomateiro é feito pelo sistema tutorado, quando a produção é destinada ao comércio do natural, ou seja, mercado para mesa, e o não tutorado, para a produção de tomates para industrialização.

Cultivo tutorado: por este sistema são cultivadas as plantas de crescimento indeterminado ou semi-determinado, para evitar que elas se desenvolvam em contato com a terra e, assim, minimizar os problemas com doenças nas folhas e frutos.

Nos cultivos a céu aberto, as plantas crescem apoiadas em estacas de madeira ou bambu ou insoladas em cordões ou fitas. As estacas de duas linhas ficam apoiadas em um arame colocado a 1,8 m de altura e portanto com leve inclinação. Quando são utilizados o cordão ou o fitilho, uma das extremidades é amarrada na própria haste da planta e a outra presa em um arame colocado entre 2,00 e 2,20 m de altura. As hastes vão sendo insoladas no cordão à medidas que vão crescendo.

No cultivo tutorado as plantas podem ser conduzidas com uma ou duas hastes e todas as brotações laterais são eliminadas e quando atingem o arame, o broto terminal ou apical é também eliminado para possibilitar maior desenvolvimento dos frutos das pecas superiores. Com esta operação o período de produção fica limitado a 50 a 60 dias.

Em caso de cultivo com o solo com coberta de plástico ou em casa de vegetação, também com o solo coberto com o filme de plástico, ou plantio sem solo, e as plantas tutoradas com cordão, não se faz a eliminação do broto apical permitindo o crescimento das hastes após alcançarem o arame. Neste caso faz-se o seguinte manejo das hastes: elimina-se as folhas abaixo da penca sem frutos e o racimo da penca, solta-se o cordão do arame e coloca-se a parte inferior da haste na horizontal, mantendo-se a parte superior na vertical, prendendo-se novamente o cordão no arame. Esta operação é repetida sempre que o ápice da hastes atingir o arame. Assim, as hastes vão crescendo e o período de colheita mantido por mais de seis meses, o que aumenta a produtividade por planta.

Este sistema de cultivo é utilizado para as cultivares cujos frutos são destinados para consumo ao natural. Também são chamados de tomates para mesa.

Cultivo não tutorado: é utilizado para as cultivares de crescimento determinado e a produção é destinado para industrialização. As plantas destas cultivares param de crescer com a frutificação e com o peso da haste se apoiam no solo, daí ser chamado de cultivo rasteiro.

Cultivares

As cultivares de tomate estão agrupadas em:

a) para mesa ou mercado
b) para industrialização

No grupo das cultivares para mercado há os sub-grupos Santa Cruz, Salada, Cereja e Italiano. Os frutos do sub-grupo Santa Cruz são oblongos, com dois lóculos e peso médio de 120 a 150 gramas, enquanto os do grupo Salada são redondos e achatados no ápice e na base, multilóculos e com peso médio de 220 a 250 gramas. Já os frutos do grupo Cereja são redondos, com peso de 20 a 25 gramas, enquanto os do grupo Italiano são alongados, binoculares e peso de 100 a 150 gramas. No comércio são encontrados inúmeras cultivares de cada um dos sub-grupos e anualmente são lançados novos materiais pelas diversas empresas de sementes, com características diferenciadas nas plantas, tais como resistência a doenças e frutos com maior capacidade de conservação pós-colheita, chamados longa vida, ou com qualidades nutracêuticas.

Exigências climáticas

O tomateiro é uma planta com ampla capacidade de adaptação às diferentes condições de clima. Embora as condições mais favoráveis de temperatura estejam na faixa de 18 a 25ºC, tolera de 13 a 30ºC. É indiferente ao fotoperíodo, daí ser cultivado em todos os estados em maior ou menor escala. Temperatura inferiores a 13ºC retardam o crescimento, enquanto que acima de 35ºC afetam a frutificação e o desenvolvimento dos frutos. As chuvas, a variação das temperaturas e a umidade relativa do ar interferem na fitossanidade, por facilitar o desenvolvimento de doenças fúngicas e bactericinas.

Assim, são inúmeras as doenças causadas por fungos, bactérias, viroses, nematoídes, que podem provocar até a morte da planta. Dentre as doenças mais importantes destacam-se a causada pela Erwinia, que provoca o murchamento e morte da planta, e a murcha bacteriana, causada pela Ralstonia, que também causa o murchamento e morte. As viroses, por seu lado, afetam o desenvolvimento vegetativo e atacam a produção na fase inicial do cultivo. Os nematóides também afetam o crescimento por atacarem o sistema radicular.

Em parte, o problema de doenças é minimizado pela existência de cultivares geneticamente resistentes a certos fungos de solo, viroses e nematóides.

Quanto aos insetos-pragas, além dos danos diretos, podem ser vetores de viroses. Ultimamente, tem se destacado a mosca-branca (Bemisia sp), pela sua disseminação geral de diversas espécies de germinivirus, a traça do tomateiro, o pulgão, o Tripes e as brocas.

Outros problemas na cultura são as deficiências tanto fisiológicas quanto nutricionais, causadas pelas variações climáticas, fertilidade e umidade do solo. A deficiência de cálcio é outro problema que afeta diretamente a qualidade dos frutos ao provocar o conhecido “fundo preto”. Outras deficiências mais comuns são as de nitrogênio e magnésio.

A adoção do manejo integrado é o processo mais eficiente para se minimizar os problemas fitossanitários e fisiológicos.

A seguir, serão apresentados os aspectos importantes na produção de tomate para mesa.

(Veja no final do texto como visualizar este artigo, com fotos e tabelas, em PDF).

Escolha do local

Para a implantação da cultura deve-se dar preferência a solos leves de textura média, bem drenados, ricos em matéria orgânica e planos ou ligeiramente inclinados. Devem ser evitados locais de baixada, onde há possibilidade de encharcamento.

Preparo do terreno

No preparo do solo deve-se proporcionar condições para que o sistema radicular do tomateiro tenha um desenvolvimento vigoroso, de modo a conseguir suprir a planta em água e nutrientes durante todo o ciclo. A aração deve ser profunda, seguida de uma ou duas gradagens para destorroar e nivelar o terreno, depois, dependendo do tipo de cultivo, são feitos os canteiros, sulcos ou o próprio plantio.

Calagem e adubação

A calagem deve ser realizada três meses antes do plantio, calculada segundo os resultados da análise de solo, de modo a elevar a saturação por bases do solo a 70-80%, e pH entre 6,0 e 6,5.

A adubação deve ser rica e equilibrada, seguindo as recomendações da análise de solo, além de parcelada, de modo a fornecer os nutrientes nos diferentes momentos do desenvolvimento da planta.

Produção de mudas

A produção de mudas é uma etapa muito importante do cultivo de tomateiros. A obtenção de mudas sadias é determinante para o sucesso da cultura no campo. Alguns produtores ainda produzem suas mudas em sementeiras ou copinhos de jornal em campo aberto e sem proteção, mas a tendência é de se utilizar mudas produzidas em bandejas em casa de vegetação, de modo a se obter mudas sadias, com alto vigor. Existem produtores que estão terceirizando a produção de mudas, dada sua importância no sistema de produção de tomate.

Para a produção de mudas em recipientes pode-se utilizar substratos comerciais, ou fazer o seu próprio. Neste caso, deve-se tomar muito cuidado para não se utilizar matéria-prima contaminada.

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Transplante

O transplante deve ser feito quando as plantas estiverem com quatro a cinco folhas definitivas, com aproximadamente 25 dias após o semeio. O espaçamento pode variar de 0,5 a 0,7m entre plantas e 1,0 a 1,2m entre linhas, sendo que os espaçamentos maiores são utilizados no período chuvoso.

Tratos culturais

Os tratos culturais são um conjunto de medidas que devem ser tomadas para favorecer o perfeito desenvolvimento da cultura.

Condução

A planta pode ser conduzida com mais de uma haste por planta, principalmente quando se trabalha com cultivares de crescimento semi-determinado e determinado. Em cultivares de crescimento indeterminado geralmente faz-se a condução com uma ou duas hastes.

Irrigação

Existem vários sistemas de irrigação que podem ser utilizados na cultura de tomate, todos possuem eficiência satisfatória, desde que bem dimensionados

Desbrota

Após decidir com quantas hastes será feita a condução da planta, todos os demais brotos laterais deverão ser retirados quando ainda pequenos, pois neste momento ainda não terão retirado muitas reservas das plantas, além da operação ser mais fácil e rápida neste estágio.

Desbastes

Algumas cultivares possuem um número muito grande de frutos e, se mantidos todos na penca, o tamanho dos frutos ficará reduzido, por isso nestas cultivares deverá ser feito o desbaste de frutos. Mesmo em cultivares que não têm um número muito grande de frutos, o desbaste é recomendado. Ele deve ser feito nos cachos do ponteiro da planta, para aumentar o tamanho dos frutos, que normalmente ficam menores.

Tutoramento

Por meio do turotamento mantém-se os tomateiros em posição ereta, reduzindo o contato das folhas e frutos com o solo. Assim, a planta desenvolve-se em melhores condições fitossanitárias, o que prolonga o período de produção, aumenta a quantidade de frutos e melhora sua qualidade. Existem diferentes maneiras de se tutorar as plantas: pode-se utilizar varas de bambu na vertical ou inclinadas (neste caso também é chamado de cerca cruzada); fios paralelos de arame (como uma cerca); e através de fitilho fixado no pé da planta. A escolha da forma de tutoramento vai depender da disponibilidade de materiais e do custo para cada produtor.

Colheita

O tomate é um fruto climático, isto é, ele é capaz de completar a maturação mesmo depois de colhido. Assim, o tomate para o mercado deve ser colhido logo que iniciar o processo da maturação, mesmo que esteja com a coloração esverdeada, principalmente se o produto será destinado a mercados distantes do local de produção. Entretanto, o tomate para a indústria deve ser colhido quando tiver completado a maturação, pois deve ser transportado diretamente para a fábrica e no menor tempo possível.

Após colhidos, os tomates para mercado passam pelo processo de seleção, quando os impróprios para comercialização ou industrialização são descartados e os demais são limpos, classificados e acondicionados em caixas de madeira, papelão ou plásticos para transporte e comercialização no atacado.

Embora a clarificação do tomate para mercado seja de adesão voluntária, praticamente todos os produtores a fazem para facilitar a comercialização e conseguir preços mais justos. O tomate para industrialização também passa pela seleção e a clarificação, é feita quando ele chega na indústria, que leva em conta o estágio de maturação e qualidade intrínseca, integridade e sanidade. O transporte é feito em caixas ou a granel.

Custo de produção

O custo de produção do tomateiro é muito variável dependendo da época do ano, local e sistema de produção utilizado, mas de forma geral o custo de produção gira entre R$ 1,70 e 2,00 por planta, totalizando um custo médio próximo a R$ 30 mil/ha. Os insumos básicos para a produção de um hectare estão na tabela ao lado, podendo sofrer alterações de acordo com o sistema de produção adotado.

Nozomu Makishima e Werito Fernandes de Melo,
Embrapa Hortaliças

* Este artigo foi publicado na edição número 29 da revista Cultivar Hortaliças e Frutas, de dezembro/2004 - janeiro/2005.

* Confira este artigo, com fotos e tabelas, em formato PDF. Basta clicar no link abaixo:

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