Oculto e abundante: manejo do bicudo do algodoeiro

O bicudo-do-algodoeiro, Anthonomus grandis Boheman, 1843 (Coleoptera: Curculionidae), é a principal praga da cultura do algodoeiro no Brasil, responsável por perdas de produtividade de até 75%, quando não manejado. Este inseto permanece a maior parte de seu ciclo (fase de ovo, larva e pupa) no interior dos botões florais e maçãs do algodoeiro, o que dificulta o controle da praga. De fato, esta característica protege as fases de desenvolvimento do bicudo-do-algodoeiro da ação dos inimigos naturais e, principalmente, das aplicações de inseticidas. Assim, os adultos do bicudo-do-algodoeiro são praticamente os alvos das aplicações.

O bicudo-do-algodoeiro coloniza as lavouras de algodão, assim que a cultura emite os primeiros botões florais, estruturas preferidas para alimentação e oviposição. Esta colonização ocorre através de migrações da praga a partir de áreas de refúgios (matas, beira de açudes, rios, etc). A colonização pode ser resultante ainda dos bicudos mantidos em plantas remanescentes na entressafra da cultura, em beira de estradas e vicinais, plantas tigueras de algodão e rebrota de algodoeiro nos talhões, devido à destruição incorreta. Em épocas de pressão elevada da praga, é observada colonização das lavouras ainda em fase vegetativa.

Os altos níveis populacionais da praga nas lavouras têm sido influenciados pelo manejo da praga na safra anterior. Isto porque o bicudo-do-algodoeiro que está colonizando a área é aquele residual da safra passada. Assim, espera-se que ao realizar um bom manejo da praga na safra anterior – especialmente no final do ciclo do algodoeiro – e uma destruição bem feita de soqueira, a população que irá colonizar a lavoura subsequente seja reduzida.

Infelizmente, em todos os locais que se cultiva algodão no Brasil, o bicudo-do-algodoeiro está presente, causando prejuízos. A última região em que esta praga foi relatada no País foi Sapezal, no Noroeste de Mato Grosso, em 2007. Atualmente, o bicudo-do-algodoeiro já está completamente disseminado na região, demostrando seu potencial em colonizar novas áreas.

Desde 2006, a equipe do Instituto Mato-grossense do Algodão (IMAmt) vem executando um projeto de monitoramento e controle do bicudo-do-algodoeiro em Mato Grosso. Este trabalho tem sido financiado pelo Instituto Brasileiro do Algodão (IBA) e permite que o monitoramento seja realizado em todas as regiões produtoras de Mato Grosso, com início na entressafra e sendo mantido até o mês de janeiro. O resultado tem sido o estabelecimento de estratégias que permitem um bom manejo da praga no Estado, reduzindo a população em anos de pressão elevada.

Através do monitoramento foi observado um aumento populacional do bicudo-do-algodoeiro nesta última safra, sendo constatado acréscimo na captura da praga nas armadilhas. Os resultados apontam uma média acima de 10 BAS (bicudos/ armadilha/semana) nos núcleos regionais Sul (Rondonópolis e região), Centro (Campo Verde e região) e Centro Leste (Primavera do Leste e região), sendo que o índice acima de 2,0 indivíduos/armadilha já coloca a lavoura em alerta vermelho.

Um exemplo reside no Núcleo Regional Centro Leste, que após reduzir os índices na safra 2013/2014 (média de 1,9 BAS), registrou percentual médio de 10,35 BAS no monitoramento em pré-safra 2014/15, o que corresponde a um aumento de 541% (Figura 1). Estes números têm preocupado toda cadeia produtiva do algodão, já que o período de entressafra, pré-safra e início de cultivo seriam épocas de menor ocorrência da praga.

Fatores agravantes

 Diversos fatores têm contribuído para um ambiente favorável ao bicudo-do-algodoeiro e sua manutenção nas áreas, e até mesmo favorecido sua multiplicação e consequente crescimento nesta safra. Um deles reside na destruição mal feita da soqueira do algodoeiro, que resulta na rebrota das plantas nas áreas, ou ainda a presença de plantas tigueras nas lavouras de soja e/ou outras áreas.

 Outro aspecto é a introdução de variedades com eventos transgênicos resistentes ao herbicida glifosato, que tem dificultado a destruição química dos restos culturais, visto que este herbicida era uma ferramenta utilizada na eliminação das soqueiras, juntamente com o herbicida 2,4D.

O período chuvoso nas épocas de colheita e vazio sanitário, encurtando a janela para destruição química ou mecânica é fato que também dificultou a destruição dos restos culturais na safra passada. Da mesma forma o enlonamento e o transporte de algodão em caroço de forma indevida, tem gerado plantas hospedeiras na entressafra, à beira de estradas vicinais e rodovias.

Mais uma circunstância que tem contribuído para a presença do bicudo é a utilização de variedades de algodão transgênicos resistente a lagartas (algodão Bt). Como estes materiais apresentam controle satisfatório de algumas lagartas, especialmente na fase inicial do algodoeiro, houve uma redução do monitoramento de pragas. Consequentemente, a falta deste monitoramento inicial tem permitido o escape de algumas pragas. Além disso, o uso destes transgênicos também resultou em redução do número de aplicações de inseticidas no início da safra. Indiretamente, as aplicações em fase inicial para o controle de lagartas, controlavam o bicudo-do-algodoeiro e ajudavam a manter a população em níveis inferiores.

O sistema de cultivo atual, com algodão de 1a e 2a safra, tem aumentado a janela de plantio e, portanto, um maior tempo da cultura no campo. Isto resulta em oferta de alimentos para o bicudo-do-algodoeiro por maior período do ano, favorecendo sua multiplicação. O maior período de plantas no campo também reduz a janela de vazio sanitário, desfavorecendo a destruição dos restos culturais.

A redução das opções para realização do controle químico também agrava a situação, tendo em vista a proibição do uso de inseticidas sintéticos considerados eficientes no controle do bicudo-do-algodoeiro, tais como o endosulfan e o metamidofós. A adoção de medidas de manejo, de forma descoordenada e independente entre os agricultores, resulta em diferentes formas de condução da lavoura e favorece a praga.

Devido à pressão do bicudo-do-algodoeiro neste início de safra do algodão, os produtores devem ficar atentos à importância das ações iniciais de controle da praga. Caso neste primeiro momento, em fase vegetativa, o monitoramento e controle nos talhões não sejam rigorosos e efetivos, o produtor tem alto risco de sofrer falhas de controle do bicudo, ocasionando prejuízos severos à sua lavoura.

A adoção de medidas de manejo na fase inicial da cultura (desde antes do pré-plantio até o florescimento) é fundamental para o monitoramento, conhecimento da situação da praga nos talhões e controle na infestação inicial. A equipe do IMAmt está implementando em Mato Grosso um projeto de controle efetivo do bicudo-do-algodoeiro, com o objetivo principal de apoiar, organizar e conduzir os produtores para o uso de medidas de manejo, para a redução populacional da praga. Várias ações de manejo, que envolvem todo o processo produtivo, vêm sendo recomendadas.

Dez ações importantes na fase inicial do cultivo (Box)

1- Levantamento do histórico de infestação nos talhões, mapeando os focos conhecidos do bicudo (portas de entrada e saída), identificando possíveis áreas de refúgio. Com a identificação destes focos, planejar, antecipar e executar medidas de controle diferenciadas.

2- Monitoramento de áreas de soja que sucedem algodão, verificando a presença e intensidade de soqueira ou tiguera de algodoeiro, e, em áreas com alta intensidade, realizar a inclusão de inseticida na dessecação da soja.

3- Instalação de armadilhas com feromônio (Grandlure) 30 dias antes do plantio e mantê-las até emissão dos primeiros botões florais. A instalação deve ser feita no perímetro dos talhões, numa distância de 150 metros entre si, com troca de feromônio a cada 15 dias. Estas armadilhas devem ser monitoradas semanalmente e os dados organizados para acompanhamento da flutuação populacional da praga.

4- Os plantios devem ser realizados com calendário de semeadura concentrados, principalmente em talhões vizinhos.

5- Treinar os monitores de pragas para realização do monitoramento das armadilhas e inspeção visual.

6- Realizar aplicações dos inseticidas com equipamentos ideais e regulados, em horários adequados, priorizando as técnicas recomendadas pela Tecnologia de Aplicação.

7- As aplicações em bordadura devem ser iniciadas a partir do aparecimento da terceira folha, sendo conduzidas até o final da safra. A aplicação deve ser realizada de forma sequencial, a cada cinco dias, devendo evitar o uso de inseticidas piretroides, para não causar surtos de ácaros, mosca-branca e pulgões. Após o florescimento, atenção especial no monitoramento, para início das aplicações em área total.             

8- Aplicações nas áreas em fase vegetativa devem ocorrer de acordo com o monitoramento (dados obtidos em armadilhas). Como sugestão: tendo até duas armadilhas com bicudo, aplicar nos raios de ação da armadilha e das armadilhas vizinhas; acima de duas armadilhas com bicudo, aplicar em todo o talhão.

Vale ressaltar que o histórico de captura de bicudo/armadilha/semana (número BAS) determina a definição das zonas de infestação, auxiliando nas aplicações a partir do surgimento do primeiro botão floral (B1). A classificação das zonas de infestação segue os seguintes parâmetros:

Zona verde – 0 BAS, sem necessidade de aplicação;

Zona azul – 0 a 1 BAS, fazer uma aplicação;

Zona amarela – 1 a 2 BAS, fazer duas aplicações sequenciais, com intervalo de cinco dias;

Zona vermelha – acima de 2 BAS, fazer três aplicações sequenciais, com intervalo de cinco dias.

 9- O monitoramento no interior dos talhões, através da inspeção visual das plantas, deve ser realizada desde a fase inicial.

10- Realização de ações conjuntas e troca de informações entre os produtores. Isso contribuirá para um melhor entendimento do ataque do bicudo-do-algodoeiro e seu manejo em cada propriedade, bem como ter a padronização de boas ações.

 

As medidas de manejo, desde o monitoramento até o controle da praga, devem ser adotadas por toda cadeia produtiva do algodão. Para ter sucesso no controle do bicudo-do-algodoeiro, as ações devem ser operadas de forma coordenada e aplicadas de maneira coletiva por região. Estas ações irão contribuir para a convivência com a praga, facilitando o manejo, resultando em menores custos de produção e maiores produtividades.  

 O artigo está presente na edição 191 da Cultivar Grandes Culturas. 



 

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Eduardo Moreira Barros; Jacob Casoriol Netto

Instituto Mato-grossense do Algodão (IMAmt)

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