Nitrogênio em milho: oferta harmônica

O nitrogênio é o nutriente mais acumulado pelas plantas e exportado nos grãos na cultura do milho. Manejá-lo é bastante complexo pela dificuldade em avaliar sua oferta no solo, devido às múltiplas reações a que está sujeito, mediadas por microrganismos e afetadas por fatores climáticos de difícil previsão. A grande frequência e magnitude das perdas do nitrogênio por lixiviação no perfil do solo requer que as adubações nitrogenadas sejam parceladas em épocas que coincidam com a maior demanda pelas plantas.

A exigência de cada cultura por nutrientes pode ser inferida a partir da extração total e da marcha de absorção dos nutrientes (Figura 1). Para a maioria das cultivares de milho a taxa de absorção do N é mais acentuada em período anterior ao florescimento e, para alguns genótipos modernos, podem ocorrer dois picos de absorção, um antes do florescimento, no estádio de 12 a 18 folhas, e outro durante o enchimento dos grãos.

A concentração média de nitrogênio nos grãos é de 1,5%, variando de acordo com a cultivar e o tipo de manejo da cultura (Tabela 1). Considerando o índice de colheita dos grãos na massa seca total da parte aérea de, no mínimo, 45%, mais da metade do nitrogênio é exportado nos grãos, em proporção muito superior ao potássio (26%) e inferior ao fósforo (80%).

Doses de nitrogênio

A maioria das recomendações de adubação nitrogenada no Brasil leva em conta principalmente a produtividade esperada, o que está diretamente relacionado com a extração pela planta e a exportação de N pelos grãos (Figura 2), o histórico de uso e o tipo de solo da área. O histórico de uso auxilia a previsão da resposta do milho ao nitrogênio, mas quando ocorrem excessos hídricos (maiores perdas por lixiviação) a resposta ao N pode ser acentuada independentemente da(s) espécie(s) já cultivada(s) na área. Por outro lado, quando a produtividade for inferior à esperada devido à deficiência de água no solo, a dose recomendada continua proporcionando retorno econômico próximo ao máximo (Duarte et al, 2005), provavelmente, devido à menor mineralização da matéria orgânica.

A análise do solo, especificamente da matéria orgânica, é utilizada em poucas regiões como um dos fatores para recomendar a dose de fertilizantes nitrogenados, com destaque para o Rio Grande do Sul e Santa Catarina (Tabela 2). O uso do teor de matéria orgânica ou, indiretamente, o teor de N total do solo, pressupõe a liberação de uma porcentagem mais ou menos constante do N do solo para as culturas, o que na maioria das vezes não ocorre. Mais de 95% do N do solo se encontra na forma orgânica, mas é o N mineral que é absorvido pelas plantas, na forma de amônio e nitrato. No sistema plantio direto (SPD) ocorre um gradiente de acúmulo de matéria orgânica e nutrientes nas camadas mais superficiais. No entanto, isso não implica necessariamente em maior oferta porque o fator determinante da oferta de N após a adoção do SPD é o balanço entre imobilização e mineralização. Durante os primeiros anos de implantação do SPD há relativamente maior imobilização de N, que tende a ser reduzida com o tempo de adoção do sistema, concomitantemente, ao aumento da mineralização. Áreas com plantio direto já estabilizado, exceto em algumas regiões de baixa altitude e/ou inverno seco, geralmente apresentam solos com valores altos de matéria orgânica e cobertura com palha e, consequentemente, maior oferta de N para as culturas.

As doses recomendadas nas tabelas de adubação devem ser ajustadas de acordo com a época de semeadura, a cultivar e a população de plantas. Considerando que, dentro de certos limites, populações mais elevadas de milho extraem mais nutrientes, é necessário aumentar a adubação nitrogenada para tornar possíveis os efeitos positivos da população de plantas. Algumas cultivares (cerca de ¼ das disponíveis no mercado) apresentam magnitude de resposta à adubação nitrogenada diferente das demais, independentemente da origem do germoplasma (Duarte et al, 1998). Mas esta informação é escassa devido, principalmente, à substituição rápida dos híbridos no mercado. Duarte et al (2012) verificaram que o híbrido 30F35H responde mais à adubação nitrogenada de cobertura que DKB 390YG (Figura 3). Considerando que são necessários 8kg de milho para comprar um 1kg de N, as doses máximas econômicas para os híbridos 30F35H e DKB 390YG foram 127kg/ha e 83kg/ha de N, respectivamente.

A produtividade do milho aumentou acentuadamente nos últimos anos e, por consequência, a necessidade do uso de fertilizantes. Considerando que a maioria do cultivo de milho de verão ocorre sob plantio direto em rotação com a cultura da soja (verão) e plantas de cobertura (outono-inverno), pode ser mais rentável economicamente recomendar o nitrogênio utilizando a classe de média resposta. Tomando como referência que a extração e a exportação dos nutrientes são proporcionais à produtividade de grãos, o Boletim 100 IAC (Tabela 3) recomenda cerca de 1kg/ha de N por saco de milho produzido por hectare, em ambientes de alta resposta ao nitrogênio (solo arenoso e/ou histórico de gramíneas nos dois cultivos anteriores). Para uma produtividade de grãos de 12 toneladas por hectare são extraídos pela planta mais de 300kg/ha de N do solo (Duarte, 2003) e recomendados próximo de 200kg/ha de N. Já para condições de menor resposta (SPD consolidado e histórico de leguminosas), a quantidade de N recomendada pode ser reduzida em mais de 40%.

Parcelamento da aplicação

Parte do nitrogênio precisa ser aplicado obrigatoriamente por ocasião da semeadura, em doses de 30kg/ha a 40kg/ha de N, pois a absorção de nutrientes ocorre rapidamente durante as primeiras fases do ciclo das plantas de milho. Esta dose pode ser um pouco maior quando a aplicação é feita a lanço ou no próprio sulco em espaçamentos reduzidos. O restante do N é aplicado em cobertura, evitando excesso de sais no sulco de semeadura e, principalmente, perdas de N por lixiviação de nitrato.

A cobertura não pode ser feita tardiamente porque a diferenciação floral tem início quando a planta está com a 5a folha expandida; no estádio de sete a oito folhas ocorre a definição do número de linhas de grãos na espiga e, por volta da 12a folha, o tamanho da espiga é determinado (Fancelli & Dourado Neto, 2000). Pode ser feita mais uma adubação de cobertura, além daquela recomendada no estádio de quatro a seis folhas, dependendo do tipo do solo (textura arenosa), da dose a ser aplicada em cobertura (valores superiores a 110kg/ha), do manejo da cultura (sob irrigação, por exemplo) e do tipo da cultivar.

Na maioria dos estudos, não se verificou vantagem em parcelar a cobertura nitrogenada para aplicação de uma parte próximo do estádio de florescimento, especialmente em solos argilosos, devido ao sistema radicular estar bem desenvolvido, permitindo a absorção de N em grande volume de solo, que pode ser oriundo do fertilizante ou não. Mas, alguns híbridos que mantêm as folhas verdes até próximo da maturidade dos grãos (stay green) tem maior capacidade de produzir fotoassimilados durante o enchimento dos grãos e absorver N do solo tardiamente, que são qualidades ligadas à alta eficiência de absorção de N. A maior capacidade de absorver N em estádios tardios pode ser levada em conta no manejo da adubação para a obtenção de altos rendimentos, especialmente em culturas irrigadas.

Modos de aplicação da ureia

A ureia é preferida para aplicação em cobertura devido à maior disponibilidade, ao menor preço e à facilidade de aplicação, mas o nitrato de amônio e o sulfato de amônio também têm sido utilizados por não apresentarem perdas de N quando aplicados na superfície do solo sem enterrar.

Com a adoção do espaçamento reduzido a maioria das aplicações de nitrogênio tem sido realizada a lanço, na superfície do solo. Mas, a ureia aplicada sobre a superfície está sujeita a perdas de N por volatilização de amônia, que podem atingir valores próximos de 40% do N aplicado, especialmente no sistema plantio direto, devido à maior atividade da urease nos resíduos vegetais. Como a incorporação da ureia é uma operação difícil em espaçamentos reduzidos, torna-se necessário aumentar a dose ou misturá-la com inibidores químicos para compensar ou minimizar as perdas, respectivamente.

O sulfato fornece concomitantemente nitrogênio e enxofre, mas não é indicado para aplicação a lanço em área total por queimar as folhas do milho, assim como o nitrato de baixa qualidade física, com pó no meio dos grânulos, que também pode causar injúrias nas folhas, principalmente quando úmidas.

Figura 2 - Exportação de nutrientes na cultura do milho em função da produtividade


Figura 3 - Resposta de híbridos de milho ao nitrogênio aplicado em cobertura em Capão Bonito (SP), 2010/11. Fonte: Duarte et al, 2012


Tabela 1 - Extração na planta inteira e exportação nos grãos de macronutrientes na cultura do milho, em kg por tonelada de grãos. Fonte: Adaptado de Duarte et al (2003) e Cantarella e Duarte (2004)


Tabela 2 - Recomendação de adubação nitrogenada para sistema plantio direto conforme cultura de cobertura, teor de matéria orgânica do solo e produtividade esperada. Recomendação para 6 a 9t/ha (1)

Produção de MS da cultura de cobertura antecedente

N recomendado para teor de MO no solo, g/kg

< 25

25 a 50

> 50

t/ha

---------------- kg/ha de N ------------------

Leguminosas

< 2

120

90

70

2 a 3

100

60

40

> 3

90

50

30

Gramínea

< 2

160

100

70

2 a 4

160

110

80

> 4

170

130

90

Pousio de Inverno

160

120

80

1 Milho em rotação anual com soja no verão: reduzir 20% da recomendação de N

Fonte: Comissão de Fertilidade do Solo – RS/SC, 2004

Tabela 3 - Recomendação de adubação nitrogenada para milho (total) no estado de São Paulo (1). Fonte: Raij & Cantarella (1997) atualizado


(1) Probabilidade de resposta a N:

Alta: solos corrigidos, cultivo intensivo de gramíneas ou milho contínuo; primeiros anos de plantio direto; solos arenosos sujeitos a altas perdas por lixiviação

Média: solos ácidos que serão calcareados antes do cultivo do milho; sucessão com leguminosas e gramíneas; solos em pousio por dois anos; cultivo após pastagens (exceto solos arenosos), uso moderado de adubos orgânicos.

Baixa: solos em pousio por longo tempo; cultivo intensivo de leguminosas ou adubo verde; quantidades elevadas de adubos orgânicos.

Clique aqui para ler o artigo na Revista Cultivar Grandes Culturas, edição 177.

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Aildson Pereira Duarte e Heitor Cantarella

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