Os riscos da comercialização do café

Por Robinson Cannaval, diretor e sócio fundador da Innovatech Consultoria.

Como é sabido por muitos, o Brasil é o maior produtor mundial de café, sendo responsável por 30% da produção mundial, o maior exportador e o segundo maior consumidor do grão no mundo. Contudo, a comercialização do café exige conhecimentos específicos da região de atuação para as tomadas de decisões frente às diferentes características das praças, assim como das épocas de colheita e da adaptabilidade das espécies cafeeiras.

O mercado de cafés no Brasil está diretamente associado ao contexto global e apresenta tendências de crescimento. Mas o que se vê nos últimos cinco anos no mercado, apesar do volume de exportação, é uma tendência de queda no preço de aparentemente 30%, apresentando desvalorização do grão. Os motivos para tal achatamento dos preços na exportação podem ser justificados, entre outros fatores, pelo volume crescente na produção e a alta do câmbio. E essa alta volatilidade e a constante oscilação dos preços do café dificultam as decisões de compra e venda da commodity.

A comparação dos preços de café entre os mercados à vista e futuro não evidencia a estratégia clara de comercialização do grão que proporcione ganhos certeiros ao produtor. Vários são os fatores que podem impactar na qualidade e no preço da comercialização de cafés, seja no mercado interno quanto no externo, como tipo do grão, volume produzido, a praça de produção e época da colheita.

Falando em produção propriamente dita, o estado de Minas Gerais é o principal produtor do grão, com cerca de 31 milhões de sacas de 60 Kg de café beneficiado (safra 2020). Os estados com predominância do café robusta concentram a colheita no primeiro semestre do ano, enquanto o café arábica é colhido, predominantemente, nos segundo e terceiro trimestres e tem o preço 35% superior ao robusta, em média.

Em se tratando de exportação, este é um mercado que aumenta ao longo dos anos e tem o grão tipo arábica como o mais comercializado. Em 2019, 74% do café verde produzido em nosso país foi exportado, principalmente para Estados Unidos, Itália e Japão que, juntos, foram o destino de 50% da exportação do grão.  O café do tipo arábica compõe quase que a totalidade do volume de exportação brasileira de cafés e o volume de robusta exportado pelo Brasil está aumentando ao longo dos anos.

De nada adianta ter um mercado promissor se não houver planejamento e estudo. A volatilidade dos preços de café no mercado futuro é superior a de outras commodities, como milho e soja, associando maior risco em sua comercialização e sugerindo melhor planejamento estratégico de atuação. A comparação entre os preços do mercado à vista de café e o futuro não evidencia diretrizes na atuação de compra ou venda, e isso aumenta ainda mais o risco de comercialização da commodity.

Não há estratégia única e definida para comercialização de cafés em mercado futuro, levando em consideração apenas o preço da commodity. Sem planejamento e estratégia, a comercialização de cafés no mercado futuro pode tornar-se um “jogo de azar” e o preço no mercado à vista pode ser superior ao do mercado futuro no vencimento do contrato.

Histórico dos preços das exportações do café no Brasil.

Histórico dos preços das exportações do café no Brasil.

 Com a alta volatilidade e as frequentes oscilações dos preços do café, as tomadas de decisão na comercialização do grão tornam-se um desafio de excelência operacional. Envolve as gestões financeira e comercial associadas ao constante controle do risco e estruturadas pelo planejamento estratégico de longo prazo. É preciso que corretoras e exportadoras de café, produtores e cooperativas busquem no mercado alternativas e soluções para tornar o mercado mais atrativo. Perguntas básicas desde a cadeia de produção até a ponta final, a exportação, precisam ser feitas e mudanças adotadas, se preciso.

A comercialização do café deve ser vista como um risco, mas não é impossível minimizá-los, mas é essencial o planejamento estratégico. 


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