Influência dos restos culturais na incidência de antracnose no feijoeiro

Apesar da importância para o país, a produtividade média de feijão comum (Phaseolus vulgaris) é ainda baixa, devido, principalmente, às doenças que ocorrem na cultura e entre as quais destacam-se aquelas causadas por fungos. Entre os fungos potencialmente transmitidos por sementes do feijoeiro, encontra-se Colletotrichum lindemuthianum (Sacc. & Mag.), agente etiológico da antracnose, doença capaz de causar perdas de até 100% no campo, quando sementes contaminadas são plantadas e ocorrem condições favoráveis ao progresso da doença durante o ciclo da cultura. As condições favoráveis para a doença ocorrer e elevar rapidamente a taxa de progresso são alta umidade (92% a 100%) e temperaturas entre 18ºC e 22ºC.

A doença tem início na lavoura devido ao inóculo inicial presente nos restos culturais ou nas sementes contaminadas, que podem introduzir o patógeno em áreas isentas da doença, bem como incrementar o inóculo em outras já contaminadas, por meio da utilização consecutiva de sementes portadoras do patógeno. Geralmente, a incidência da antracnose do feijoeiro em campo é diretamente proporcional ao inóculo primário fornecido pelas sementes contaminadas.

Em função da capacidade de C. lindemuthianum, um fungo necrotrófico, sobreviver de uma estação para outra ou de um cultivo ao outro, como micélio dormente dentro do tegumento da semente e também a capacidade de sobreviver em restos culturais de seis meses a aproximadamente dois anos em função das condições climáticas, estes podem constituir e/ou incrementar o inóculo primário. Patógenos de sementes têm evoluído de acordo com os diferentes tipos de associações com o hospedeiro. Tais associações abrangem relações que variam de superficiais nos tegumentos à infecção dos tecidos do embrião. A infecção de sementes por C. lindemuthianum em feijão afeta o embrião e assim esses fungos podem permanecer nas sementes enquanto estas permanecerem viáveis, o que pode garantir ao patógeno longa sobrevivência.

A disseminação da doença ocorre por meio de respingos de chuvas, ventos, implementos agrícolas, homem, insetos e vários outros agentes. A maior fonte de inóculo, do ponto de vista epidemiológico, é representada pelas sementes infectadas, responsáveis pela disseminação da doença a longas distâncias. A curta distância, as transmissões podem ser realizadas por respingos da água da chuva ao disseminarem os esporos que se encontram embebidos em uma substância gelatinosa, solúvel em água. Esta presença de água é essencial para dissolver a massa gelatinosa característica produzida por fungos do gênero Colletotrichum. Quando estas condições ocorrem, a disseminação é mais rápida e eficiente. O homem, ao caminhar entre as plantas úmidas, colabora na disseminação do patógeno. Outros agentes disseminadores são os insetos, implementos agrícolas e animais.

Um aspecto importante das espécies do gênero Colletotrichum associadas às sementes é serem transmitidas para a parte aérea da plântula, onde ocorre a esporulação em lesões características. Os esporos são disseminados e inoculados em tecidos da mesma planta e de plantas vizinhas. A partir daí, o progresso da doença pode ser rápido se o ambiente for favorável à epidemia, e quanto maior a incidência do patógeno nas sementes, maior será a porcentagem de focos no campo de cultivo.

O fungo é capaz de causar sintomas em toda a planta. Nas folhas, caracterizam-se por necrose ao longo das nervuras e manchas escuras no limbo foliar. No pecíolo e no caule as lesões são ovaladas, deprimidas e de coloração escura, nas vagens as lesões são arredondadas, deprimidas e apresentam o centro claro, delimitado por um anel negro levemente protuberante, rodeado por um bordo de coloração laranja-avermelhada e nas sementes as lesões são escuras e, quando infectadas, apresentam-se descoloradas.

Trabalhos conduzidos pela Universidade Federal de Lavras, em fazenda da região, avaliaram duas áreas distintas de cultivo, uma onde a cultura do feijoeiro já havia sido plantada, portanto com restos culturais, e outra sem restos culturais, onde não havia sido plantado feijão (área de plantio de milho). Na área com restos de cultura, a incidência da antracnose na época da colheita foi de 100% nas plantas e de 72% nas vagens. A colheita mecânica foi realizada e os restos culturais permaneceram na área. Após intervalo de 42 dias, esses restos foram incorporados por meio de gradagem. A semeadura foi realizada em ambas as áreas (com e sem restos de cultura) e quando a doença começou na lavoura (aproximadamente aos 40 dias após semeadura), realizaram-se avaliações de incidência e de severidade. De acordo com os resultados, os restos de cultura (palhada) deixados na área após a colheita, contribuíram para o aumento da doença no plantio seguinte. Analisando a produção em ambas as áreas de plantio, observou-se redução de produção na área com restos em relação à área sem restos culturais. A produção na área com restos culturais foi cerca de 32% menor em relação à área sem restos culturais, ou seja, os restos culturais interferem no progresso da doença, acarretando em redução de produção.

Na região sul de Minas, em determinadas épocas do ano ocorrem temperaturas entre 15ºC e 22°C e alta umidade relativa do ar. Essas condições, aliadas ao uso de cultivares suscetíveis, favorecem o progresso da antracnose. Assim, esta doença não tem importância, quando o tempo está seco, mesmo quando as sementes estão infectadas.

O controle da antracnose do feijoeiro é dificultado devido à eficiente transmissão do patógeno pela semente, da capacidade de sobrevivência durante vários meses a anos no solo e em restos culturais. As principais estratégias recomendadas para o controle desta doença são o uso de sementes sadias, cultivares resistentes e a rotação de culturas, principalmente com plantas não hospedeiras, como o milho, por dois a três anos. Estas técnicas evitam a utilização de defensivos químicos, além de praticamente não onerarem o custo de produção, embora a pulverização de fungicidas, ainda, seja bastante empregada.

O feijoeiro (Box)

O feijoeiro, Phaseolus vulgaris, entre as fabáceas de grãos alimentícios, é a espécie mais importante para consumo in natura desse gênero, além de ser um alimento típico na mesa dos brasileiros no dia a dia, sendo de importância econômica e social para o Brasil, que é o maior produtor e consumidor mundial. Segundo a estimativa da Conab para a 1ª safra 2013/2014, a área de feijão plantada foi de 1,17 milhão de hectares, o que significa um aumento de 4,1% em relação à safra anterior, em que a Região Sul foi responsável por 48,2% da produção, representada principalmente por Paraná, o maior produtor. A Região Sudeste foi responsável por 29,2% da produção, destacando-se Minas Gerais e São Paulo. Já na Região Centro-Oeste, 12,7%, com destaque para Goiás e os 9,9% restantes foram produzidos nas Regiões Norte/Nordeste, com destaque para os estados da Bahia e do Piauí.


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Marília Goulart da Silva e Edson Ampélio Pozza

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