Para evitar a degradação

Segundo o IBGE, 1998, em todo o Brasil as pastagens superam a marca dos 180 milhões de hectares, correspondendo à cerca de 20% do território nacional. Somente nos cerrados brasileiros, área de maior concentração de bovinos do país, as pastagens ocupam mais de 80 milhões de hectares, com predomínio das gramíneas do gênero brachiaria que sozinhas representam mais de 80% dos pastos cultivados implantados nos cerrados.

Além de ter a maior área de pastagens e o maior rebanho comercial de bovinos de corte do planeta, o Brasil ainda contém uma área agriculturável virgem equivalente a 90 milhões de hectares, conforme publicado no Noticiário Tortuga N° 427, em 2002. Dentro desse cenário onde o sistema predominante de criação de bovinos de corte é o extensivo, o manejo das pastagens assume uma importância vital para o aumento da disponibilidade de forragem e conseqüentemente aumento da produção animal por unidade de área.

Manejar corretamente as pastagens é, sem dúvida nenhuma, o maior desafio a ser enfrentado pelo produtor rural. O que torna o manejo de pasto um assunto extremamente complexo são os diferentes fatores que interferem diretamente na qualidade das pastagens. Como exemplo podemos citar o tipo de solo, o clima da região, a época do ano, as características genéticas da planta, a taxa de lotação, o uso de insumos, como fertilizante e calcário e a estratégia de manejo de pastagem adotada na fazenda.

A degradação de uma enorme área de pastagem vem ocorrendo em função de uma série de fatores já bem conhecidos e definidos que incluem a adoção de sistemas extrativistas de exploração dos solos e das pastagens, baixo nível de gerenciamento e erros grosseiros de manejo dos pastos. É sabido que devido ao manejo incorreto dos solos e das pastagens ao longo dos últimos anos, hoje nos cerrados brasileiros tem-se cerca de 80% das pastagens cultivadas com algum grau de degradação (EMBRAPA, CNPGC, 1996).

Os solos tropicais, por natureza, apresentam sérias limitações químicas e grande facilidade de perdas de nutrientes por lixiviação. As principais limitações químicas incluem deficiências de matéria orgânica e de elementos minerais, com destaque para o fósforo, sódio, zinco e cobre, tornando a suplementação mineral uma prática de manejo obrigatória para a manutenção da saúde e do desempenho animal.

A produção animal em pastagens tropicais já não pode ser mais meramente uma colheita aleatória de produtos animais. Há a necessidade urgente de torná-la uma atividade profissional resultante do planejamento e controle da produção e utilização de forragem e dos suplementos alimentares pelos animais (LUPINACCI, 2002). A produtividade animal nos trópicos baseada no uso de pastagens deve ser encarada como o resultado da interação entre os diferentes estágios de crescimento do pasto, de utilização da forragem produzida e a utilização da forragem produzida em produto animal (ODGSON, 1990). Cada um destes estágios de produção possui sua própria eficiência e cabe ao produtor aprender a manejá-las corretamente dentro da sua propriedade.

Manejo do pasto é, na sua essência, o compromisso entre a necessidade de se manter área foliar para a fotossíntese e a de colher o tecido foliar produzido evitando-se perdas de forragem por envelhecimento e morte dos tecidos (PARSONS, 1988). Em termos práticos a altura das pastagens assume uma posição de destaque dentro do manejo de uma fazenda. Sendo de fácil visualização, a altura das pastagens pode determinar o sucesso ou o fracasso da atividade. As conseqüências relacionadas com o controle da altura na produção das pastagens e no desempenho animal incluem:

• Pastos mantidos excessivamente baixos obrigam o animal a ingerir maior quantidade de material vegetal morto em relação aos pastos mantidos altos.

• Em pastagens mantidas excessivamente baixas, a ingestão de terra é maior quando comparada com pastos manejados altos, prejudicando a digestão e o consumo dos alimentos.

• Pastos rapados limitam a capacidade natural de seleção que os animais apresentam, resultando na ingestão de alimentos de menor valor nutritivo.

• O tempo que o animal gasta pastejando em pastos mantidos baixos é maior devido a menor quantidade de pasto disponível. Com isto, há um maior gasto de energia corporal, com aumento das necessidades nutricionais de mantença.

• O consumo de todos os tipos de suplementos em pastagens mantidas com altura baixa tende a ser maior que em pastagens mantidas altas.

• Em pastos mantidos baixos, o perfilhamento ocorre em maior número na região basilar da planta reduzindo o crescimento e a capacidade de recuperação da pastagem.

• A taxa de mortalidade dos perfilhos da planta forrageira aumenta nos casos de pastagens mantidas baixas, com conseqüente perda de vigor na rebrota.

• Em pastos mantidos excessivamente baixos, os perfilhos são arrancados pelos animais, diminuindo a produção e a recuperação da pastagem.

• O ganho de peso por animal e a produção de @ por unidade de área decrescem na medida que decresce a altura das pastagens.

O que deve ser compreendido e respeitado por técnicos e produtores rurais em todas as técnicas de manejo de pastagem, seja qual for à variedade de gramínea cultivada, é que quando a pressão de pastejo é muito alta, ou seja, quando o número de animais por unidade de forragem disponível é alto, muitas folhas são removidas ainda jovens ou mesmo ainda em fase de expansão. Desta forma, uma proporção importante de folhas com alta capacidade de realização de fotossíntese são removidas e a produção do pasto diminui progressivamente com o aumento da intensidade de desfolha.

A conseqüência direta de uma drástica redução da área foliar de uma pastagem é uma contínua baixa na produtividade do pasto com progressiva perda de vigor da pastagem. Esta condição é denominada de superpastejo e sua ocorrência é muito freqüente nas propriedades rurais.

Por outro lado, altas taxas fotossintéticas e altas taxas de produção bruta de tecidos (pastos excessivamente altos ou subpastejo) não podem estar associados com alta eficiência de utilização do pasto, tendo em vista que pouco ou quase nada destes pastos estão sendo colhidos pelos animais e transformados em produto animal.

O que o produtor rural precisa encontrar em sua propriedade é o pastejo ótimo dentro das suas condições de pastagem, ou seja, encontrar o número exato de animais por unidade de forragem disponível em sua propriedade. Este é o conceito de pressão de pastejo que nada mais é do que a preocupação em colocar, em um pasto, um número de animais que esteja em equilíbrio com a produção forrageira.

A sustentabilidade da produção de bovinos em pastagens depende de um correto planejamento do manejo do pasto, sendo esta a solução mais simples e econômica para o aumento da produtividade da pecuária nacional.

Marcos Sampaio Baruselli
Zootecnista da Tortuga

* Este artigo foi publicado na edição número 05 da revista Cultivar Bovinos, de março de 2004. ver mais artigos
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