Para onde vai o melhoramento do feijão

Norman F. Bourlaug, em 1970, proferiu o discurso “The green revolution: peace and humanity” (A revolução verde: paz e humanidade) onde menciona que a civilização somente pode sobreviver quando há disponibilidade de alimentos. Malthus, em 1798, afirmou que a população crescia em ritmo muito mais acelerado que a produção de alimentos de tal modo que o fim ocorreria pela fome.

Isso foi superado pela habilidade do homem em encontrar soluções para seus problemas. No entanto, a população continua a crescer desordenadamente desafiando a capacidade do homem em multiplicar a produção de alimentos. John Boyd Orr, em 1978, disse, “you can’t build peace on empty stomachs” (Não se pode construir a paz com estômagos vazios). A fome hoje é uma realidade no mundo. Mais de um terço dos habitantes do planeta passam algum tipo de privação de alimentos. O que fazer para produzir mais?

O Brasil é o maior produtor mundial de feijão-comum (Phaseolus vulgaris). Essa fabácea (leguminosa) é, no País, uma das mais importantes fontes de proteína da alimentação do povo, especialmente da parcela menos favorecida economicamente. A despeito dessa significativa importância e da demanda crescente por alimentos, a produção de feijão no Brasil, em sua maioria, é feita em pequenas áreas, muitas vezes em cultivos associados e sem utilizar a tecnologia disponível, que leva à menor produtividade da cultura. Mesmo com os avanços tecnológicos das últimas décadas a cultura ainda é, em média, deficitária tanto em produtividade quanto em produção.

Produtividade em baixa

A produtividade média no Brasil é inferior a 1000 kg/ha e a produção é menor que o necessário para atender a demanda interna. Esse quadro vem sendo modificado para melhor nos últimos anos. Nesse processo destacam-se: (1) a irrigação abrindo espaço para uma terceira época de semeadura, o “cultivo de inverno”; e (2) a inclusão da cultura do feijoeiro-comum, como alternativa, na rotação do Sistema de Semeadura ou Plantio Direto.

A irrigação é prática utilizada por agricultores que, normalmente, utilizam outras tecnologias imprescindíveis para aumentos na produtividade. Na Região do Planalto Central do País, o avanço da cultura do feijoeiro-comum tem sido marcante ocupando áreas antes ociosas no inverno. Com alguns ajustes o sistema pode ser adotado também para a safra “da seca” resolvendo-se o problema da falta de chuvas.

Quanto ao Sistema de Semeadura Direta, que pode ou não estar associado à irrigação, na Região dos Campos Gerais do Paraná é uma realidade. O agricultor que está descobrindo a cultura do feijoeiro-comum como alternativa na rotação é experiente na utilização de outras tecnologias que têm importância para os ganhos em produtividade. Além disso, a semeadura direta pode ser estendida para a Integração Lavoura Pecuária, com o aproveitamento das sobras de pastagens de verão, fazendo lavouras de curta duração como a do feijoeiro-comum.

Constata-se que a cultura do feijoeiro-comum, depois de muitos e muitos anos como cultura de subsistência e que, freqüentemente, tinha aumentos de produção apenas pelos aumentos de área plantada, passa para nova realidade, justificando investimento em tecnologias, especialmente para preservação do sistema agroecológico, como é o caso do Sistema de Semeadura Direta e de sua associação na Integração Lavoura Pecuária. Isso, per si, justifica e indica a necessidade de trabalhos experimentais e científicos para definição de ações no novo sistema.

Melhoramento ambiental

A ação isolada do melhoramento ambiental, por mais importante e fundamental que seja, não será suficiente, além de ser alternativa cara e de durabilidade questionável. Contudo, não se entenda que a opção é abandonar o melhoramento ambiental. Pelo contrário, a ação conjunta de melhoramento ambiental e melhoramento genético é que pode levar a resultados ainda muito melhores que os já conseguidos.

O melhoramento ambiental produz resultados a curto prazo, o que agrada os agricultores, que com razão, querem soluções mais rápidas. No entanto, mesmo nas ações de melhoramento ambiental há necessidade de trabalhos experimentais com repetições. Assim, o melhoramento genético, embora instrumento mais eficiente para produzir resultados duráveis, é processo mais lento na oferta de resultados, portanto, caminho ainda mais difícil de ser aceito por aqueles que desejam respostas rápidas. No entanto, mesmo sendo poucos os programas de melhoramento da cultura, tem-se observado que o mercado de variedades nunca foi tão rico em diversidade para a escolha. Por exemplo, o grão de tipo Carioca tido por muitos como mesma variedade, tem hoje mais de duzentos diferentes genótipos registrados. No entanto a planta já não é a mesma. O que terá acontecido? É melhoramento genético. Aproveita-se o que de mais importante a planta oferece, modificando o que não interessa e produzindo novas variedades com o mesmo tipo de grão desejado pelo mercado consumidor.

Destaca-se que atualmente os programas de melhoramento estão mais atentos ao mercado consumidor. Não se justifica conduzir um programa de melhoramento genético de qualquer cultura se não houver aceitação do produto pelo consumidor. Esse consumidor define o interesse da empresa que vende no varejo e, consequentemente, da empresa atacadista que compra o produto do agricultor. Isso é simples mas, por muitos anos, os programas de melhoramento genético estiveram ocupados apenas com a ciência, ignorando a necessidade de atender a real demanda do produto. Muitos dos fracassos ocorridos, que não foram poucos, podem ser atribuídos a essa imprudência comum no cientista.

O feijoeiro-comum é uma planta autógama que tem mais de 95% de autofecundação. A morfologia da flor, as características genéticas e a fisiologia da planta são grandes responsáveis por esse processo de autogamia. No entanto a homozigose acaba com a variabilidade e não há o que selecionar nas populações. A seleção é ferramenta de extrema importância, porém, deve ser precedida da hibridação, eficiente alternativa para produzir a variabilidade essencial para a seleção. No feijoeiro-comum há dificuldades para a hibridação artificial. Mesmo assim as hibridações dirigidas têm sido um dos recursos mais utilizados pelos programas de melhoramento para produzir variabilidade. São comuns as hibridações intra-específicas. A maioria das variedades atualmente no mercado são resultantes desse caminho.

As hibridações interespecíficas seriam outra alternativa importante para aproveitar as outras espécies cultivadas do gênero Phaseolus [P. acutifolius, P. coccineus, P. lunatus e P. polyanthus]. No entanto, os resultados são pobres e, além disso, não há relatos de poliploidia bem sucedida no feijoeiro-comum. Em razão disso, vantagens como o aproveitamento da tolerância ao frio encontrada em P. coccineus e da resistência ao crestamento bacteriano, encontrada tanto no P. coccineus quanto no P. acutifolius são quase impossíveis.

Indução de mutações

A indução de mutações seria outro recurso para criar variabilidade, porém é recurso fortemente limitado a caracteres governados por um único gene com expressão completa da dominância. Há informações sobre a utilização da indução de mutações para alteração da cor da semente.

A engenharia genética ganhou espaço nos programas de melhoramento nos últimos anos. Muitos pesquisadores já escreveram que a técnica da manipulação do DNA veio para ficar. Seria cientificamente um ato de ignorância não confirmar. No entanto, há muita controvérsia sobre o assunto. Porém, com ou sem controvérsia, as plantas transgênicas são uma realidade e precisam ser estudadas para que esse caminho fantástico e poderoso da manipulação de genes possa ser, efetivamente, uma ferramenta no estudo da genética das plantas, servindo para aumentar a produtividade e a produção de alimentos. É essencial que sejam guardados todos os cuidados para que não haja interferência na saúde dos animais, nos demais seres viventes e no meio-ambiente, fundamental para todos.

A produção de feijoeiros transgênicos talvez não seja, no momento, a parte mais importante da engenharia genética que esteja sendo aproveitada. As dificuldades são acima da média nos procedimentos de transferência de genes nessa cultura. Seja qual for o caminho os resultados são lentos e pouco promissores. Por outro lado, os marcadores moleculares, por outro lado em utilização há alguns anos, são ferramenta que deve ser considerada como imprescindível para os programas de melhoramento. Seria total imprudência desenvolver qualquer tipo de planejamento para obtenção de novas variedades sem considerar a utilização dessa arma poderosa, que permite identificar a presença ou não dos genes desejados para os cruzamentos, de tal modo que a hibridação artificial possa ser efetivamente dirigida, sendo um processo científico e menos casual.

Sugere-se que o primeiro cuidado no melhoramento genético da cultura do feijoeiro-comum deve ser com o tipo comercial do grão. Conhecendo a incrível variabilidade para cor, forma e tamanho da semente é fundamental que os programas de melhoramento estejam atentos para as necessidades comerciais. Não adianta fazer uma proposta científica sem base comercial. Agricultor que não vende o que produz é agricultor que não planta mais a cultura e que procura outra opção.

A precocidade é outra característica que vale o investimento. Feijoeiros com ciclo menor que noventa dias, algo próximo de 65 ou setenta dias seria uma grande alternativa para ser aproveitada em períodos que o solo fica ocioso por falta de uma cultura de ciclo curto e rentável. Obter variedades com essa característica é um desafio em razão da escassez de genótipos com esse perfil para servirem como genitores.

A arquitetura da planta tem sido o conjunto de características mais trabalhado nos últimos anos, em razão da necessidade de variedades para a colheita mecanizada. Variedades com hábito de crescimento ereto, haste mais resistente ao acamamento e maior altura na inserção da primeira vagem são o tipo de planta ideal para essa necessidade da mecanização que se associa aos avanços da irrigação e da semeadura direta. Essas plantas, teoricamente desenvolvidas para atender necessidades de utilização de tecnologias mais avançadas, vão também beneficiar o agricultor de pequenas áreas que gastará menos com os controles fitossanitários da cultura. Com as variedades eretas há que se rever outros conceitos de manejo, como por exemplo, população de plantas. Deve-se reestudar a distribuição espacial de espaçamento e densidade de plantas para aproveitar melhor a área cultivada.

Pragas e doenças

A busca de resistência a pragas e doenças pode ser resumida como sendo a batalha interminável do homem com a natureza, algo que já foi identificado e largamente divulgado. Pesquisadores no passado já perguntavam: -“quanta virulência pode a natureza colocar nos patógenos de plantas e quanta resistência pode o homem colocar nas plantas cultivadas”. Pois bem, esse é o desafio para os programas de melhoramento genético do feijoeiro-comum.

A fixação do nitrogênio atmosférico com eficiência para os feijoeiros, algo que possa ser comparado com o que ocorre com a cultura da soja, é o tipo de resultado que seria muito comemorado por aqueles que têm empenhado suas vidas de trabalho nessa busca, até o presente, quase inglória. Talvez os melhoristas tenham que trabalhar na fisiologia da planta para auxiliar os microbiologistas e com isso ao agricultor.

O que fazer para atingir esses objetivos? Quanto dinheiro investir? Quanto tempo esperar pelos resultados? São perguntas difíceis de serem respondidas. O cientista está pronto para investir tudo, sua vida, dinheiro e tempo para aguardar os resultados, no entanto, será que o agricultor pode esperar? Aquele que tiver a resposta para todas essas perguntas, por certo, pode ajudar a todos para vencer especialmente a fome.

Pedro Ronzelli Júnior
UFP

* Este artigo foi publicado na edição número 03 da revista Cultivar Grandes Culturas, de abril de 2000. ver mais artigos
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