Pequeno, mas danoso

O número de espécies de ácaros que causam danos às diferentes culturas no Brasil é muito menor que o número de espécies de insetos. Isso não significa, entretanto, que os ácaros causem menos problemas. Tudo depende, principalmente, da cultura considerada e da época do ano.

Uma das espécies de ácaros que mais danos causam às plantas cultivadas é entre nós conhecida como “ácaro rajado”, cujo nome científico é Tetranychus urticae Koch. Esse mesmo ácaro recebe nomes comuns diferentes em distintos países. Nos Estados Unidos é conhecido como “ácaro de duas manchas” (two-spotted spider mite); na Inglaterra é conhecido como “ácaro tetraniquídeo vermelho” (red spider mite) e na França, como “ácaro tetraniquídeo amarelo comum” (acarien jaune commun). Em todos os casos, os nomes comuns regionais são dados em função da cor apresentada pelo ácaro durante certa fase de sua vida. Os termos usados no Brasil, Estados Unidos e França se referem aos padrões de coloração que o ácaro apresenta durante sua fase ativa, quando se movimenta e se alimenta das plantas. O termo usado na Inglaterra se refere ao padrão geral avermelhado que o ácaro apresenta na fase de hibernação, isto é, durante o período em que o ácaro se torna inativo no inverno, ocasião em que é encontrado nas frestas das casas-de-vegetação.

Produção de teia

O ácaro rajado pertence à família Tetranychidae, à qual também pertencem várias outras espécies importantes de ácaros-praga, como as diferentes espécies conhecidas no Brasil como “ácaro vermelho”. Muitos dos ácaros dessa família produzem quantidades variáveis de teia, semelhante à teia produzida pelas aranhas. A teia dos ácaros tem diferentes finalidades. Tem-se demonstrado experimentalmente que esta pode servir para manter níveis adequados de umidade nas proximidades dos ovos dos ácaros, que freqüentemente são postos sobre ou sob a teia. A teia também pode facilitar a alimentação dos ácaros que a produzem, por favorecer seu posicionamento inclinado em relação à superfície da folha, facilitando a introdução dos estiletes utilizados neste processo.

A teia serve ainda para a manutenção da higiene pelos ácaros, uma vez que suas fezes são depositadas sobre a teia, ao invés de serem depositadas sobre a superfície das folhas, onde os ácaros se alimentam. Pode ainda servir para proteger esses ácaros contra vários de seus predadores, impedindo-os de alcançar o ácaro rajado ou outra espécie de ácaro deste mesmo grupo. Isso entretanto não funciona contra todos os predadores. Alguns, na verdade, são favorecidos pela presença da teia.

Assim com a maioria dos ácaros, o ácaro rajado apresenta 4 pares de pernas na maior parte de sua vida pós-embrionária, característica que os distinguem dos insetos. Na fase ativa, tem cor geral verde amarelada, com um par de manchas escuras nas regiões laterais do corpo. É pequeno, com no máximo 0,5 mm de comprimento e formato geral ovóide. Essas características, entretanto, não são exclusivas do ácaro rajado. Várias outras espécies apresentam características semelhantes, e a identificação precisa da espécie usualmente requer a observação de caracteres do macho sob microscópio, realizada por um especialista.

Preferências climáticas

O ácaro rajado é encontrado em um grande número de países, desde as regiões tropicais até as regiões temperadas, tanto em casas-de-vegetação como no campo. Nas regiões mais frias, passam o inverno em hibernação na fase adulta. Esse ácaro, já foi relatado em mais de uma centena de espécies de plantas, muitas das quais de importância econômica.

No Brasil, já foi relatado em diversos estados, de norte a sul. E sua distribuição continua a se expandir, juntamente com a expansão da agricultura. Na região de Petrolina (PE), por exemplo, esse ácaro só foi encontrado pela primeira vez em 1985, após o início da grande expansão dos cultivos irrigados na região. São diversas as culturas que sofrem significativamente com o ataque desse ácaro. Dentre as principais estão algodão, moranguinho, mamão, feijão, ornamentais (especialmente crisântemo e roseira), tomate, berinjela, batata, pepino, melão, melancia e videira. Às vezes, até mesmo a cultura do milho pode ser danificada de forma significativa por esse ácaro, durante os períodos de baixa precipitação.

Apesar de tão pequeno, esse ácaro deposita um grande número de ovos, que mais do que compensa sua mortalidade natural durante o período de desenvolvimento, permitindo que sua população nunca seja totalmente eliminada em uma dada região. São quase 100 ovos postos por fêmea durante sua vida. De cada ovo emerge uma larva, que mudará de pele algumas vezes até chegar à fase adulta; esse processo acontece durante 10 a 15 dias, de acordo com as condições ambientais. Vive na fase adulta por um período de quase um mês. Favorecem o desenvolvimento desse ácaro e seu aumento populacional a alta temperatura e a baixa umidade, contanto que as plantas não estejam sob estresse hídrico muito pronunciado. Isso significa que plantas irrigadas, em época de pouca precipitação, podem ser mais danificadas pelo ácaro.

Aspecto geral esbranquiçado a amarelado das folhas, resultante de um grande número de células destruídas, associado à presença de teia são indicativos típicos do ataque de ácaros tetraniquídeos, incluindo o ácaro rajado. Como preferem atacar as folhas já desenvolvidas das plantas, geralmente não causam deformações das folhas atacadas, exceto nos casos de populações muito altas, quando os ácaros passam a atacar também as folhas jovens, ainda em crescimento. Usualmente vivem na parte inferior das folhas, embora possam também ser vistos na parte superior das mesmas quando a população é muito elevada.

Controle da praga

No Brasil, o controle do ácaro rajado é feito quase que exclusivamente através de métodos químicos, com o uso de vários produtos existentes no mercado. Um cuidado muito grande, entretanto, deve ser tomado para evitar a ocorrência de resistência do ácaro aos produtos utilizados pelo agricultor. São vários os produtos utilizados no passado contra essa espécie, que hoje já não o afetam mais, sendo o enxofre o exemplo mais evidente. Esse aspecto se torna de importância fundamental para os ácaros em geral, porque estes pela sua forma de reprodução e seu rápido ciclo biológico, podem desenvolver resistência com velocidade muito maior que outros organismos.

A resistência é um aspecto por demais conhecido, porém não devidamente considerado pelo setor agrícola em geral. É bem conhecido e aceito o fato de que devemos evitar a introdução de novas pragas no Brasil, que poderiam resultar em aumento considerável do custo de produção com os danos que esta possa acarretar, e com a necessidade de seu controle. Entretanto, pelas normas hoje adotadas internacionalmente, se a espécie de um determinado organismo já ocorre no país, ele deixa de ser considerado um organismo de importância quarentenária para aquele país. Ora, isso significa que o ácaro rajado não é considerado de importância quarentenária no Brasil e que, conseqüentemente, nenhuma objeção poderá haver quanto à introdução de um produto agrícola vegetal (mudas, frutos, sementes, etc) que contenha alguns poucos ácaros desta espécie.

O problema é que estes poucos ácaros podem ser, por exemplo, resistentes a certos produtos hoje utilizados pelos agricultores brasileiros em seu controle. Ao serem introduzidos, estes podem constituir uma nova população que se fixe permanentemente no Brasil. Em outras palavras, não basta apenas adotar técnicas agrícolas que evitem o problema da resistência; há também que se cuidar para evitar a introdução de populações diferentes, de espécies já existentes aqui, seja do ácaro rajado, seja de qualquer outra espécie praga, ácaro ou não, que pode apresentar características biológicas indesejáveis diferentes daquelas das populações que já estão aqui.

Alguns esforços têm sido dedicados no sentido de se controlar o ácaro rajado através da seleção de variedades mais resistentes, mas muito mais deve ser feito neste sentido. No Brasil, trabalhos recentemente conduzidos por técnicos do Instituto Agronômico de Campinas e da Esalq (Piracicaba) levaram à detecção de alguns cultivares de moranguinhos resistentes ao ácaro rajado, como por exemplo ‘IAC Campinas’ e ‘IAC Princesa Isabel’. Muito mais, entretanto, precisa ser feito neste sentido, de forma a selecionar cultivares de plantas menos atacados pelo ácaro.

Com relação ao controle biológico do ácaro rajado, muito tem sido feito, especialmente sob condições de cultivos protegidos em países europeus. O uso de ácaros predadores da família Phytoseiidae para combater essa praga tem sido feito de maneira extensiva, em certos cultivos, devido principalmente à ocorrência de resistência do ácaro rajado aos produtos químicos registrados. Esses predadores são produzidos comercialmente em larga escala e vendidos aos agricultores, que os liberam periodicamente sobre as plantas atacadas. Mesmo em nível de campo, o uso de predadores tem sido feito de forma sistemática nos Estados Unidos, especialmente em cultivos de moranguinho, planta muito danificada pelo ácaro rajado.

Também no Brasil esta técnica tem sido estudada em nível de produtores, com boas perspectivas de uso. Estudos preliminares neste sentido foram conduzidos pela Pesagro e Emater (RS), e pela Embrapa e Instituto Agronômico de Campinas (SP). Atualmente, pesquisadores do Instituto Biológico de São Paulo dão continuidade a estes estudos, no sentido de se implementar o uso destes predadores.

Ainda com relação ao controle biológico, têm sido muito promissoras as tentativas de se utilizar patógenos para o combate a essa praga. Diversas procedências do fungo Beauveria bassiana têm sido testadas com muito sucesso no Departamento de Entomologia, Fitopatologia e Zoologia Agrícola da ESALQ. Populações de um outro fungo do gênero Neozygites têm sido constatadas atacando o ácaro rajado no Brasil, Colômbia e Estados Unidos, especialmente sob condições de casa-de-vegetação. Altas incidências desse fungo foram observadas na região de Jaguariúna, Estado de São Paulo. Muito ainda há que ser feito, para viabilizar o uso destes agentes de controle pelos agricultores. Os maiores desafios se referem à grande susceptibilidade destes patógenos a baixos níveis de umidade, o que restringe seu uso a condições de umidade alta, como pode ocorrer mais comumente em condições de cultivos protegidos.

Gilberto J. de Moraes,
ESALQ-USP

* Este artigo foi publicado na edição número 28 da revista Cultivar Grandes Culturas, de maio de 2001. ver mais artigos
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