Perdas na colheita de cana

Entre as perdas visíveis na colheita da cana-de-açúcar, a velocidade de rotação do exaustor primário tem grande influência, principalmente considerando as perdas por lascas. 

Atualmente o Brasil é o maior produtor mundial de cana-de-açúcar, seguido por Índia e China, respectivamente, sendo os dois primeiros com uma participação na produção mundial acima de 50%. Já em território nacional, segundo a Companhia Nacional do Abastecimento (Conab - 2013), o estado de São Paulo é o maior produtor da cultura, responsável por aproximadamente 52% da área plantada seguido dos estados de Minas Gerais e Goiás.

A colheita da cana-de-açúcar deve ser realizada na fase que a mesma tenha maior acúmulo de açúcares (frutose e sacarose) em seus colmos, sendo esta de extrema importância para que haja uma manutenção da qualidade do canavial, visto que o mesmo é renovado após longos períodos de extração do material vegetal.

A realização do processo de colheita, buscando a alta qualidade, é fundamental, considerando que a colheita é responsável por até 35% do custo de produção da cana-de-açúcar e é de suma importância a realização desta tarefa visando à qualidade do processo, aliando esse fator com o rendimento operacional.

Leia também: 

O extrator primário é um dos principais componentes do sistema de limpeza e descarga da colhedora de cana-de-açúcar, que também é composto por despontador, disco de corte lateral e extratores primário e secundário. Estudos realizados por Voltarelli indicam que o mesmo é responsável pela limpeza em primeira instância de até 80% do material colhido, retirando impurezas minerais e vegetais para fora da máquina, sendo este processo de limpeza feito após o fracionamento dos colmos.

As perdas obtidas durante o processo de colheita podem ser classificadas como visíveis e invisíveis. As perdas visíveis estão associadas às características da área a ser colhida e também à operação em si da colheita - que envolve treinamento dos profissionais, velocidade da colhedora compatível com as condições do canavial e em sincronismo com o transbordo ou caminhão, situação dos equipamentos da colhedora, principalmente facas de corte de base e do rolo picador de colmos, velocidade do exaustor primário da colhedora, altura da carga, altura de corte de base, manutenção do equipamento, desponte, horário da colheita, altura de carga, entre outros -, sendo que as mesmas são classificadas em: tocos - que são pedaços de colmo que ficam aderidos à soqueira da cana, sendo menor que 20cm; cana ponta - pedaço de cana que está agregado ao ponteiro, sendo que sua retirada é feita por meio do seu quebramento no ponto de menor resistência de modo manual; cana inteira - representada por aqueles com proporções iguais ou superiores a 2/3 do tamanho normal da cana-de-açúcar; colmos - são aqueles que podem ser esmagados ou não com o facão picador; lascas - são fragmentos totalmente dilacerados.

Já as perdas invisíveis são aquelas que são dificilmente visualizadas e quantificadas em campo, podendo ocorrer por meio de qualidade e condições de serviço das facas dos discos de corte, o tipo de lâmina que está sendo utilizada, a velocidade de ambos os extratores. Estas podem ser classificadas como caldo, serragem e estilhaço.

Pesquisadores do Grupo de Estudos de Colheita Mecanizada (Gecom), vinculado à Fatec “Shunji Nishimura” Pompeia (SP), desenvolveram um trabalho que teve por objetivo avaliar a influência de duas rotações do exaustor primário nas perdas visíveis ocorridas durante a colheita mecanizada de cana-de-açúcar.

Para o desenvolvimento do presente trabalho, as avaliações foram realizadas em um talhão de 35,8 hectares da Fazenda Santa Tereza, com altitude média de 520 metros e declividade em torno de 8%, localizada no município de Duartina, interior do estado de São Paulo.

A variedade de cana-de-açúcar que estava sendo colhida na área para o experimento foi a RB86-7515. Esta variedade não se mostra exigente quanto às características de solo, à boa adaptação à colheita mecanizada, à boa brotação com presença de palhada, além da tolerância à seca.

Para a colheita foi utilizada uma colhedora da marca Case IH, modelo 8800 com ano de fabricação de 2012/2013. O canavial se encontrava em seu terceiro corte e apresentava porte classificado como acamado (Figura 1), devido à presença de fortes ventos que assolaram a região em dias anteriores, sendo um potencial agravante para as perdas no ato da colheita.

FIGURA 1 - Triângulo padrão para avaliação do porte do canavial. Fonte: Adaptado de Ripoli et al (1996)
FIGURA 1 - Triângulo padrão para avaliação do porte do canavial. Fonte: Adaptado de Ripoli et al (1996)

Utilizou-se a metodologia desenvolvida pelo centro de tecnologia canavieira para realização da biometria, onde foi realizada a colheita manual, coletando toda a cana-de-açúcar presente em uma linha de cinco metros, realizando quatro repetições dentro da área, buscando sempre a coleta em pontos representativos do canavial para obtenção de uma média de produtividade.

Para o experimento foram realizados dois tratamentos em pontos aleatórios da área. No tratamento 1 (T1) a colheita foi realizada com a rotação do exaustor primário em 800rpm e no tratamento 2 (T2) realizou-se a colheita com rotação do exaustor primário em 1.100rpm. Cada ponto amostrado teve uma área de 10m² (3,33m x 3m), realizando quatro repetições para cada tratamento.

O local para a coleta das perdas visíveis da variação do exaustor primário foi demarcado por meio de barbantes e estacas nas dimensões predeterminadas.

Todo o material vegetal presente no interior da área foi amontoado, em seguida foi realizada a separação das palhas do material de interesse para realização da classificação e quantificação das perdas.

Para tal avaliação, foi utilizado como referência um trabalho desenvolvido pelo centro de tecnologia canavieira, onde o mesmo baliza as perdas em três níveis, sendo eles baixo: de 0% a 2,5%, médio: de 2,5% a 4,5%, e alto: acima de 4,5%.

A análise biométrica realizada no local identificou uma produtividade média de 88,7t/ha, sendo assim, a taxa de alimentação da máquina foi de 17,95kg/s. O canavial se mostrou em condições de produtividade bastante uniforme a partir da realização das análises biométricas, pois nas quatro repetições realizadas os valores de produtividade encontrados foram bastante próximos, variando apenas 6,1t/ha do valor menor para o maior.

De acordo com a Tabela 1, evidencia-se que no tratamento de 800rpm, onde a rotação do exaustor foi menor, as perdas também foram menores, obtendo o valor médio de 0,330t/ha, o equivalente a 0,37% de perdas, e no tratamento de 1.100rpm o peso médio de perdas por lascas foi de 0,500t/ha, o equivalente a 0,56% de perdas, resultando em um índice de perdas maiores quando comparado ao tratamento de 800rpm.

FIGURA 2 - Comparação das médias de perdas por lascas e perdas totais, em porcentagem, colhida em diferentes velocidades de rotação do exaustor primário
FIGURA 2 - Comparação das médias de perdas por lascas e perdas totais, em porcentagem, colhida em diferentes velocidades de rotação do exaustor primário

 Por meio dos dados expostos pela Figura 5, utilizando-se como referência o método de classificação de perdas desenvolvido pelo centro de tecnologia canavieira, pode-se classificar ambos os tratamentos com nível de perdas baixo, pois as perdas totais encontram-se abaixo dos valores de 2,5%.

Porém, a finalidade do trabalho foi avaliar a influência da velocidade de rotação do exaustor primário nas perdas visíveis, e considerando que a perda por lascas é diretamente influenciada por este componente da máquina, pode-se considerar que a rotação de 800rpm foi a mais adequada por oferecer uma quantidade de 0,37% menor de perdas quando comparada à rotação de 1.100rpm que resultou em uma perda de 0,56%.

Deve-se considerar que com a variação de rotação de 800rpm para 1.100rpm, houve um aumento de perdas por lascas de 51,35%, visto que a mesma é influenciada por este fator. Portanto, pode-se concluir que a variação da rotação do exaustor primário em colhedoras de cana-de-açúcar exerce influência sobre as perdas classificadas como visíveis, principalmente nas perdas de lascas.

Perdas visíveis: A) toco; B) cana ponta; C) cana inteira; D) colmo; E) lasca
Perdas visíveis: A) toco; B) cana ponta; C) cana inteira; D) colmo; E) lasca



Danilo Tedesco de Oliveira, Rafael de Graaf Correa, FCAV/Unesp; Edson Massao Tanaka, Bruno Kawamoto, Rafael Fachini Mamoni, Fatec “Shunji Nishimura”


Artigo publicado na edição 172 da Cultivar Máquina

ver mais artigos
CADASTRO DE NEWS
  • Receba por e-mail as últimas notícias sobre agricultura