Como combater os nematoides que afetam a cultura da soja

No grupo animal chamado de filo Nematoda estão incluídos vermes grosseiramente cilíndricos, roliços, conhecidos como nematoides. Os mais familiares ao público em geral, principalmente pelas dimensões avantajadas, são as lombrigas, parasitos comuns do tubo digestivo do homem e de outros animais vertebrados. Os nematoides são animais basicamente aquáticos, embora possam ser encontrados em quase todos os tipos de ambiente, desde que haja pelo menos um filme de água para mantê-los umedecidos. Há cerca de 80 mil espécies de nematoides já descritas, mas estima-se que o número total de espécies vivas seja de aproximadamente um milhão. Em sua grande maioria são organismos microscópicos, não visíveis a olho nu, medindo de 0,2mm a 2mm de comprimento. Umas poucas formas, no geral parasitas de animais, são bem maiores, sendo medidas em centímetros ou, raramente, em metros. O maior nematoide conhecido é Placentonema gigantissima, com cerca de 8m de comprimento, encontrado na placenta de um mamífero cetáceo, a baleia de espermacete.

Em 2007 instalou-se em Primavera do Leste (Mato Grosso), a AgroLab Sociedade de Pesquisa Agrícola, com desenvolvimento de atividades laboratoriais de nematologia, para atuação nos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

No ano agrícola safra 2007/08 houve uma demanda de 280 amostras, referentes aos meses de setembro a maio.

Decorridos sete anos e com base no ano agrícola safra 2013/14, a AgroLab realizou análise em mais de dez mil amostras para nematoide.

Das amostras analisadas, cerca de 60% foram provenientes de produtores, os outros 40% são de empresas de georreferenciamento terceirizadas que realizam prestação de serviço neste segmento, desenvolvendo mapeamento de nematoides a partir de amostras de solo físicas/químicas, identificando eventual diminuição de produção.

Em Mato Grosso, as culturas mais cultivadas são soja, algodão e milho e, em menor intensidade, em regiões mais específicas, o cultivo de feijão, arroz, girassol e cana-de-açúcar.

Todas estas culturas são suscetíveis para a presença de nematoide.

Os principais nematoides encontrados são: Meloidogyne incognita, Meloidogyne javanica, Heterodera glycines, Pratylenchus brachyurus, Rotylenchulus reniformis e Helicotylenchulus spp.

Com base nas análises realizadas até a data de 30 de maio de 2014 foi elaborado um levantamento de frequência de amostras, conforme tabela abaixo:

TABELA 1 - Frequência em porcentagem da presença de cada espécie a cada 100 amostras recebidas no Laboratório da AgroLab, em Primavera do Leste (MT). Safra 2013/14

(%) FREQUÊNCIA

2007/08

2009/10

2011/12

2013/14

Pratylenchus

76

88

100

100

Meloidogyne

29

62

78

79

Heterodera

33

34

30

34

Helicothylenchus

49

65

70

86

Rotylenchulus

2

2

3

6

Com base na região de atuação da AgroLab, é possível afirmar que existem áreas onde o cultivo de qualquer cultura se torna inviável devido ao ataque de nematoides.

Na maioria das vezes estes organismos microscópicos se encontram distribuídos no solo na forma de reboleiras e misturas, ou seja, duas ou mais espécies de nematoide na mesma área.

Os nematoides são considerados vermes que necessitam de água livre no solo para se movimentar, sendo-lhes favoráveis os meses chuvosos.

Com a ausência ou pouca umidade, permanecem no solo por muito tempo na forma de ovos ou cisto no caso de Heterodera glycines.

Em período chuvoso os danos são menos visíveis, porém, a multiplicação do nematoide é maior. Já os períodos secos favorecem para a constatação de sintomas, embora a multiplicação seja mais lenta.

FIGURA 1 - Danos causados pelo nematoide do cisto da soja (Heterodera glycines) e pelo nematoide das lesões radiculares (Pratylenchus brachyurus) na região de Primavera do Leste (MT). Safra 2013/14

O problema se agrava em áreas de baixo índice de matéria orgânica, solos arenosos, com problemas de fertilidade/correção, profundidade etc. Solos férteis e bem corrigidos são menos prejudicados pela ação dos nematoides e o dano menos visível. Problema comum em quase todo o Centro-Oeste, em razão de solos arenosos.

É possível afirmar que os nematoides estão em todo o Brasil, onde for possível encontrar alimento, se instalam ou são “levados" pela ação humana, transporte ou contaminação e disseminação através da água, chuva, irrigação, vento, veículos, diversas máquinas agrícolas etc.

Na verdade, qualquer partícula de solo é capaz de transportar nematoides. Presente em uma área, se torna difícil e até impossível eliminar a incidência por completo. As práticas de controle são baseadas em estratégias de convivência com os nematoides.

O que fazer depois de identificado esse “inimigo invisível"?

Identificados o problema, a espécie de nematoide e as populações, o importante é saber o que se deve fazer para controlar, pois qualquer relapso somente contribuirá com o aumento populacional, inviabilizando o cultivo agrícola na área afetada.

Para o controle, é necessário identificar a espécie presente na área, pois para cada espécie existem alternativas diferentes. A espécie mais comum e provavelmente disseminada em todo o território brasileiro é o nematoide das lesões radiculares (Pratylenchus brachyurus). Este nematoide se alimenta de quase todas as culturas, o que o torna forte e de difícil controle.

As principais medidas de controle são: uso de cultivares resistentes, manejo de solo adequado, plantio de culturas que diminuem o número populacional, produtos biológicos e produtos químicos. O importante é realizar o maior número possível de controle simultâneo, pois uma prática isolada pode ser inviável.

Uso de cobertura vegetal

A cobertura vegetal induz a um maior armazenamento de água e melhoria dos atributos físicos, químicos e biológicos do solo. A cultura, por sua vez, se beneficiaria com o aumento da atividade biológica do solo, graças à matéria orgânica produzida pela cobertura vegetal, que também assegura condições térmicas mais adequadas.

Além disso, a luz solar direta, devido à radiação ultravioleta, tem um efeito negativo sobre os microrganismos que controlam os nematoides. Portanto, a cobertura do solo vai propiciar as condições favoráveis para o desenvolvimento da microflora do solo.

É possível citar várias práticas de sucesso, como o plantio de Crotalarias, os consórcios, o plantio de milhetos resistentes como ADR 300 ou ADR 8010, dentre outras coberturas.

FIGURA 2 - Experimento de Crotalaria conduzido no campo experimental da AgroLab em Primavera do Leste (MT) para controle de nematoides. Safra 2013/14

Controle biológico

O manejo biológico objetiva criar condições desfavoráveis para o desenvolvimento desses patógenos, aumentando a biodiversidade e melhorando a estrutura do solo. Assim, embora os nematoides estejam presentes a sua população está sob controle e os prejuízos causados à planta são mínimos.

Mais de 200 diferentes organismos são considerados inimigos naturais dos fitonematoides. Estes microrganismos nematófagos são encontrados normalmente no solo, parasitando ovos ou cistos, predando juvenis e adultos ou, ainda, produzindo substâncias tóxicas prejudiciais à praga.

A inserção controlada destes microrganismos através de formulações comerciais é uma ótima forma de controle dos nematoides. É possível denominar este método de controle biológico, já que é outro organismo vivo quem vai controlar a doença.

Entre os microrganismos com efeito nematicida comprovado estão Paecilomyces lilacinus, Trichoderma harzianu, Arthrobotrys oligospora, Arthrobotrys musiformis, assim como algumas rizobactérias.

FIGURA 3 - Controle biológico para nematoides, utilizado como teste para tratamento de sementes ou pulverização em parte aérea da planta. Primavera do Leste (MT). Safra 2013/14

Uso de cultivares resistentes

É um dos métodos mais atraentes, pois além de não implicar em custos adicionais, não provoca impactos ambientais porque, mesmo em áreas já infestadas, dispensa o uso de produtos químicos.

Vale lembrar que ainda não há no mercado espécies resistentes aos principais tipos de nematoides, principalmente a Pratylenchus.

Atualmente, as empresas de pesquisa estão muito engajadas em testar materiais e “descobrir" uma fonte de resistência a este nematoide.

Rotação de culturas

A falta de rotação de culturas é uma das principais razões para os nematoides terem avançado tanto nas lavouras. A prática é um dos melhores e mais utilizados métodos de controle dos fitonematoides, uma vez que é de baixo custo e não oferece risco de toxidez ao homem e ao ambiente, além de melhorar as condições físicas, químicas e biológicas do solo, tornando-o mais produtivo.

A escolha da cultura para rotação dependerá dos resultados da análise nematológica, pois uma planta pode não ser hospedeira de certo nematoide, mas ser de outro, aumentando a biodiversidade.

O solo sadio está repleto de todo tipo de vida, desde bactérias e fungos microscópicos até criaturas mais visíveis como minhocas, besouros, lesmas e outros insetos. Muitas destas criaturas são responsáveis pela reciclagem da matéria orgânica e sua decomposição, de modo que os nutrientes que ela contém ficam novamente disponíveis para as plantas.

As atividades dos microrganismos também ajudam a construir a estrutura do solo.

Controle químico

Há pouco tempo, os químicos eram considerados vilões da história, sempre muito tóxicos e com alguns efeitos colaterais indesejáveis. Atualmente, esta visão está mudando, os químicos estão cada vez menos tóxicos principalmente ao homem e mais eficientes.

Existem alguns produtos químicos extremamente eficientes para diminuição das populações de nematoides, alguns em tratamento de sementes e outros ainda aplicados em sulco ou em pulverização terrestre. O que importa é que todos os segmentos de controle estão evoluindo, a maioria das empresas nacionais e multinacionais tem pesquisas fortes nessa área de nematologia. Provavelmente em breve haverá muitas opções de controle!

Por derradeiro, é importante que o produtor não feche os olhos para este “inimigo invisível", tome providências quanto ao controle, de modo a não inviabilizar a sua produção agrícola.


Este artigo foi publicado na edição 183 da revista Cultivar Grandes Culturas. Clique aqui para ler a edição.

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Tatiane Zambiazi

AgroLab

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