Plantio direto de arroz sequeiro

Estudo aponta menor consumo de combustível, maior área semeada por tempo de trabalho e produção semelhante no Sistema Plantio Direto de Arroz de Sequeiro em relação ao plantio convencional.

Para a escolha de um sistema de manejo é fundamental se considerar o custo de produção, a produtividade das culturas e as condições físicas que o mesmo promove no solo. O sistema de semeadura direta é caracterizado por implantar uma cultura com mobilização no solo apenas na linha de semeadura sobre a cobertura do solo proveniente de culturas anteriores. Eliminam-se assim etapas de preparo do solo como as operações de preparo periódico (aração e gradagem) e introduzem-se operações mais leves como dessecação da área com herbicidas, manejo de plantas de cobertura e semeadura sobre os restos culturais de culturas anteriores.

Uma alternativa interessante para a cultura do arroz no Vale do Ribeira (SP) tem sido o cultivo mínimo com a realização de uma escarificação após a dessecação, permitindo a manutenção de parte da cobertura do solo sobre a superfície e minimizando os efeitos de restrição ao desenvolvimento radicular do arroz, já que é uma cultura que apresenta maior sensibilidade à compactação do solo.

A utilização correta de máquinas e implementos agrícolas é crucial para o desempenho dos equipamentos e viabilidade econômica do negócio, independentemente do sistema de produção adotado, na medida em que permite aumento da produtividade da máquina e redução dos custos de produção. O sucesso do empreendimento se relaciona com as condições químicas e físicas do solo, bem como com o desempenho dos conjuntos motomecanizados com elevação da área trabalhada por hora (capacidade de campo efetiva) e redução no gasto de energia, especialmente de combustível.

Os sistemas de produção possuem diferentes peculiaridades, sendo que o sistema de semeadura convencional (PC) é o mais antigo e que tende a oferecer condições para as maiores perdas de água, solo e nutrientes e maior gasto de combustível por hora (consumo horário) e por área (consumo operacional). O cultivo mínimo (CM) permite redução na desagregação do solo, fundamental para reduzir perdas de solo, água e nutrientes, além de resultar em economia de combustível em relação ao cultivo convencional. O sistema plantio direto (PD) contribui de forma significativa para a manutenção das características químicas e físicas do solo a médio e longo prazo; com a mobilização do solo apenas na linha de semeadura, altera a demanda por força e potência, redução no consumo de combustível e tende a resultar no maior desempenho dos conjuntos motomecanizados.

O trabalho desenvolvido na Unesp – Campus de Registro (SP), desde 2011 com sistemas de preparo do solo no verão (PC, CM e PD) e plantio direto de culturas de inverno (milho, canola e triticale) tem como objetivo estudar estratégias de produção conservacionista de arroz, visando otimizar o sistema, com manutenção ou melhoria da qualidade do solo, melhorar o desempenho dos conjuntos motomecanizados envolvidos na produção, reduzir custos e, consequentemente, ampliar a renda do produtor.

Os dados apresentados neste trabalho são referentes à implantação de verão no ano agrícola 2013/14, quando se mediu a força na barra de tração (kN), o consumo horário (em L/h) e o consumo operacional (em L/ha) do conjunto operador-trator-semedora-adubadora durante a operação de semeadura. A altura de plântulas aos 20 dias após a semeadura e a produção de grão de arroz, corrigida para a umidade de 13%, também foram determinadas.

A Figura 1 mostra os dados médios obtidos para o ensaio, onde as forças exigidas na barra de tração do trator para a operação de semeadura foram comparadas entre os sistemas de preparo do solo no verão, indicando menor exigência em força para semeadura no sistema plantio direto (PD), ao passo que as forças exigidas para a operação foram semelhantes para o cultivo mínimo (CM) e cultivo convencional (PC).

Figura 1 - Valores médios de força exigida na barra de tração (FT, em kN), consumo horário (C hor., em L/h) e consumo operacional de óleo diesel (C op., em L/ha) de um conjunto trator-semeadora adubadora-operador na semeadura de arroz de sequeiro em três sistemas de preparo do solo no ano agrícola 2013/14 (terceiro ano de cultivo), na região do Vale do Ribeira (SP)
Figura 1 - Valores médios de força exigida na barra de tração (FT, em kN), consumo horário (C hor., em L/h) e consumo operacional de óleo diesel (C op., em L/ha) de um conjunto trator-semeadora adubadora-operador na semeadura de arroz de sequeiro em três sistemas de preparo do solo no ano agrícola 2013/14 (terceiro ano de cultivo), na região do Vale do Ribeira (SP)

Considerando a operação de semeadura comum aos três sistemas, pode-se verificar que a menor força exigida pelo conjunto mecanizado no PD resultou em menor consumo horário e menor consumo operacional, comparado aos sistemas PC e CM, que também apresentaram consumos semelhantes.

Esta relação pode ser vista na Figura 2, onde se verifica que a quantidade de combustível consumida por hora (C hor.) se eleva com a elevação da força exigida para tração, o que é de se esperar, uma vez que maiores forças são vencidas com o maior consumo de energia fornecida pelo combustível. O consumo de óleo diesel por hectare é mais influenciado pela capacidade operacional efetiva do conjunto motomecanizado (CcE), apresentando fraca correlação com a força demandada na barra de tração.

Figura 2 - Correlação entre a força na barra de tração (kN), consumo horário (L/h) e consumo operacional (L/ha) de um conjunto trator-semeadora adubadora-operador na semeadura de arroz de sequeiro em três sistemas de preparo do solo no ano agrícola 2013/14 (terceiro ano de cultivo), na região do Vale do Ribeira (SP)
Figura 2 - Correlação entre a força na barra de tração (kN), consumo horário (L/h) e consumo operacional (L/ha) de um conjunto trator-semeadora adubadora-operador na semeadura de arroz de sequeiro em três sistemas de preparo do solo no ano agrícola 2013/14 (terceiro ano de cultivo), na região do Vale do Ribeira (SP)

No momento em que a atenção está voltada para os preços dos combustíveis e para a redução no consumo energético, vale ressaltar que a economia de óleo diesel por hora trabalhada neste experimento foi de 1,39L no PD em relação ao PC e de 0,39L do PD em relação ao CM, o que equivale a uma economia de R$ 3,78/h e R$ 1,06/h respectivamente, considerando o preço médio do óleo diesel da primeira quinzena de março de 2015 (R$ 2,719/L), segundo a ANP. A redução de custos com combustível por área (C op.) foi de 17,6% do PD em relação ao PC e 20,4% do PD em relação ao CM, o que se torna considerável em se tratando da produção de um produto da cesta básica brasileira.

Os valores de velocidade de semeadura, capacidade operacional, representada pela capacidade efetiva de trabalho no campo (CcE) e produtividade da cultura, foram semelhantes para os três sistemas de preparos do solo, conforme apresentado na Tabela 1.

As velocidades médias estiveram entre 5,22km/h e 5,33km/h, adequadas para a implantação da cultura, que está entre 4,5km/h e 7km/h dependendo do modelo da máquina, tipo de solo, declividade, entre outros fatores. O aumento da velocidade eleva de forma linear e significativa a capacidade de campo efetiva (CcE), conforme mostrado na Figura 3, o que é esperado, já que a última variável é resultado diretamente proporcional entre a largura real de trabalho da semeadora e velocidade de deslocamento da mesma. Nota-se ainda que o consumo horário diminui com a elevação da velocidade, em decorrência da maior área trabalhada por unidade de tempo. Aumentar a velocidade até os limites permitidos para a área e para a cultura tende a reduzir os custos com combustíveis, identificando-se indícios de que o PD tende a ser mais vantajoso que os demais sistemas de preparo, neste trabalho.

Figura 3 - Correlação entre a velocidade de semeadura (m/s), capacidade de campo efetiva (CcE, ha/h) e consumo operacional (C op, L/ha) de um conjunto trator-semeadora adubadora-operador na semeadura de arroz de sequeiro em três sistemas de preparo do solo no ano agrícola 2013/14 (terceiro ano de cultivo), na região do Vale do Ribeira (SP)
Figura 3 - Correlação entre a velocidade de semeadura (m/s), capacidade de campo efetiva (CcE, ha/h) e consumo operacional (C op, L/ha) de um conjunto trator-semeadora adubadora-operador na semeadura de arroz de sequeiro em três sistemas de preparo do solo no ano agrícola 2013/14 (terceiro ano de cultivo), na região do Vale do Ribeira (SP)

Com relação à produtividade do arroz de sequeiro, foi possível perceber que os três sistemas de preparo apontaram produtividades semelhantes, o que demonstra, neste estudo, vantagem do sistema plantio direto em relação aos demais, já que o consumo de combustível é menor na operação de semeadura, ainda não considerando a redução de custos operacionais com máquinas com eliminação das operações de preparo do solo.

Os dados coletados para este estudo permitem concluir que o sistema plantio direto apresenta-se mais econômico na implantação da cultura do arroz, com produtividade semelhante às observadas nos sistemas cultivo mínimo e cultivo convencional com reparo do solo, o que conduz ao melhor resultado econômico para o produtor.

De acordo com os resultados deste trabalho, pode-se verificar que a cultura do arroz tem se comportado positivamente no sistema plantio direto no Vale do Ribeira, mesmo após três anos de cultivo neste sistema, período em que a literatura aponta tendência de dificuldade para o desenvolvimento radicular da cultura e redução de produtividade em PD, indicando que para o Vale do Ribeira, os sistemas conservacionistas de produção de arroz de sequeiro são opções que devem ser consideradas e ajustadas às necessidades do produtor rural.

Diferentes tratamentos utilizados para desenvolver o ensaio

Desde o início do projeto, o ensaio vem sendo conduzido com os tratamentos no cultivo de verão: preparo convencional, cultivo mínimo e plantio direto.

O preparo convencional (PC) foi realizado com grade aradora, grade niveladora e semeadura do arroz com semeadora-adubadora equipada com mecanismo sulcador, tipo discos duplos desencontrados, acoplada a um trator com 95,7kW (130cv) de potência no motor e tração dianteira auxiliar (TDA).

O cultivo mínimo (CM) foi realizado com dessecação da área com 250L/ha de calda e 8L/ha de glifosato (p.c) associado a 2L/ha de 2,4-D, seguido de subsolagem a uma profundidade de 0,40m com subsolador equipado com hastes parabólicas e rolo destorroador e semeadura com a mesma semeadora-adubadora e trator.

Já o sistema plantio direto (PD) foi feito em dessecação da área com a mesma calda utilizada no CM e semeadura do arroz com o mesmo conjunto motomecanizado. Após a colheita do arroz, no cultivo de inverno a área é dessecada com o mesmo volume de calda utilizada no verão, 6L/ha de glifosato e 2L/ha de 2,4-D. As culturas implantadas em sistema plantio direto são a CA – Canola; TRI – Triticale; e tratamento mantido em pousio (sem cultivo invernal). As culturas de inverno foram implantadas em maio de 2013 e conduzidas até o final do ciclo, quando foram manejadas para estabelecimento de cobertura do solo.



José Alexandre da Silva Junior, Paulo Henrique Watanabe Nakagawa, César Henrique de Jesus, Artur José de Santana, NetoCarolina Tiemi Suguinoshita Rebello, Wilson José Oliveira de Souza, LAMMEC - UNESP


Artigo publicado na edição 153 da Cultivar Máquinas. 

ver mais artigos
CADASTRO DE NEWS
  • Receba por e-mail as últimas notícias sobre agricultura