Pomar integrado

A produção de frutas está passando por mudanças e o sistema convencional, usado amplamente pelos fruticultores, está sendo substituído pelos sistemas integrado e orgânico.

O sistema de produção integrada de frutas (PIF) não prevê o uso de componentes que possam afetar negativamente os mecanismos naturais de controle da produção, ou seja, que interfiram negativamente na biodiversidade ou que apresentem riscos a saúde humana ou ao ambiente, predispondo as plantas ao ataque de pragas. Dessa forma, os produtores que optarem pela PIF terão que reduzir e/ou eliminar o uso de determinados produtos, entre eles os herbicidas, necessitando buscar alternativas para controlar as plantas indesejáveis nos pomares. Com isso, o controle integrado dessas plantas assume papel importante nesse sistema de produção.

O manejo da vegetação consiste em suprimir o crescimento e/ou reduzir o número destas por área, até níveis aceitáveis para convivência. Os métodos de controle das plantas daninhas são: preventivo, cultural, mecânico, químico e biológico. O método químico, por meio de herbicidas, é o mais empregado atualmente. Entretanto com advento da PIF outros métodos devem assumir maior importância.

As plantas indesejáveis não devem competir com a cultura pelos recursos do ambiente. Assim, elas devem ser manejadas visando a redução de sua população ou sua eliminação, dependendo do momento e o local onde se encontram. O manejo da vegetação da entrelinha possui recomendações específicas, devendo ser manejada por meio de roçadas, à uma altura próxima de 15 cm, durante todo o ciclo da cultura. É importante que seja feito monitoramento da vegetação para evitar que esta sirva de abrigo para pragas e doenças e na época da floração da cultura existam plantas florescidas que possam competir pelos agentes polinizadores.

As plantas indesejáveis que ocorrerem na linha da cultura deverão ser eliminadas ou mantidas abaixo do nível de dano. A área de controle na linha varia de acordo com a extensão do sistema radicular da cultura, que por sua vez, depende do tipo de porta-enxerto, da profundidade do solo e da idade da planta. Em geral, a faixa de controle não deve ser superior a 1/3 da distância entre linhas e limitada em 2 m de largura.

O controle químico de plantas indesejáveis em pomares de maçã pode ser feito em pré ou em pós-emergência destas. Os herbicidas à base de glyphosate, simazine e glufosinate são os produtos que podem ser utilizados no Sistema de Produção Integrada de Maçã (PIM), desde que não sejam aplicados no período de 45 dias antes da colheita. Os demais produtos, apesar de registrados para cultura, como a atrazine e o paraquat, não são permitidos na PIF.

O glyphosate é um herbicida com ação sistêmica, aplicado em pós-emergência, para controle total da vegetação. Por ser um herbicida sistêmico, ele não deve atingir partes vivas da cultura, sob risco de ocorrer toxicidade. Nas aplicações de glyphosate deve-se tomar extremo cuidado para não atingir brotações do porta enxerto. A molécula do glyphosate é comercializada por várias empresas e, devido a isso, é encontrado no mercado com vários nomes comerciais e com diferentes formulações e concentrações. Cada um destes produtos possui registro para diferentes culturas. No momento da escolha do produto deve ser levado em consideração o seu registro para uso na cultura que se pretende tratar e, no caso da PIF, se o seu uso é permitido neste sistema.

O simazine é comercializada por diferentes empresas, com diferentes nomes comerciais. Entretanto, somente o Herbazin 500 está registrado para frutíferas. Seu uso é recomendado em pré-emergência da vegetação, para controle de dicotiledôneas e algumas gramíneas. No Sistema de Produção Integrada o tratamento com simazine deve ser realizado antes da floração em solo limpo ou em pós a colheita, limitando-se a duas aplicações por ciclo. Deve ser respeitado período de 5 a 6 meses entre aplicações.

O glufosinate é um herbicida não seletivo, de contato, recomendado para controle total da vegetação em pós-emergência. Em pomares é aplicado em jato dirigido, evitando que o produto atinja partes vivas da cultura. A absorção é exclusiva por tecidos vivos (folhas, ramos e brotos), não sendo absorvido por via radicular e nem por sementes.

A eficiência do tratamento herbicida está intimamente ligada a correta aplicação do mesmo. As condições de clima devem favorecer a absorção e translocação do herbicida. Em geral, para aplicação de herbicidas pós-emergentes, a temperatura mínima é de 10 oC; a ideal de 20 - 30 oC e a máxima, de 35 oC. A umidade relativa mínima é de 60%; a ideal de 70-90% e a máxima, de 95%. Não deve-se aplicar herbicidas na presença de ventos com velocidade superior a 10 km/h, sobre plantas estressadas e em caso de chuva iminente, sob pena de perda da eficiência do tratamento ou causar danos à cultura.

Vale salientar que somente os produtos recomendados pelas normas técnicas do Sistema de Produção Integrada de Frutas (PIF) podem ser utilizados neste sistema, mesmo que existam outros produtos registrados para a cultura.

O controle mecânico é outro método disponível aos produtores. O uso de cobertura morta, que exerce efeito físico reduzindo a germinação de sementes, a emergência e o crescimento de plântulas, é uma boa alternativa ao controle químico. A cobertura morta poderá ser obtida com a dessecação das espécies do local ou com uso de palhada de outras culturas como trigo, feijão ou milho, provenientes de outras áreas. A palhada deve formar uma camada protetora sobre o solo, capaz de exercer efeito físico sobre a população de plantas indesejáveis, interferindo na passagem de luz, temperatura e umidade do solo, reduzindo a germinação e emergência das invasoras. Em geral não deve-se empregar camadas de cobertura morta com espessura inferior a 10 cm.

A capina na linha e a roçada na entrelinha são práticas amplamente utilizados para controlar e manejar a vegetação em pomares. A roçada elimina a parte aérea das plantas, reduzindo o crescimento, o uso da água e a massa verde da vegetação, proporcionando maior facilidade para aplicação dos tratos culturais e movimentação no pomar. Entretanto, roçadas repetidas com baixa altura de corte podem selecionar espécies como o trevo, proporcionando condições para que esta se torne predominante. A manutenção da diversidade de espécies é importante para reduzir as possibilidades do aparecimento e a magnitude do ataque de pragas e patógenos, já que algumas espécies servem como fonte de alimento e proteção para estas.

Antes de adotar o controle mecânico, o produtor deve estar ciente da adequabilidade deste método para controlar as espécies indesejáveis que são problemas em seu pomar. Para isso, é necessário conhecer algumas características das espécies envolvidas, como: capacidade de enraizamento, profundidade do sistema radicular, hábito de crescimento e tipo de reprodução. Essas características informam como o equipamento deve ser operado. O uso de capina para controlar espécies como o trevo, a tiririca e a grama-seda (estoloníferas, por exemplo, pode provocar fragmentação dos estolões e conseqüente aumento do número dessas plantas na área.

Por fim, a PIF ao estabelecer normas para uso de herbicidas, provoca alterações na rotina de uso destes produtos e no controle de plantas indesejáveis em pomares, fazendo com que os produtores necessitem adotar o controle integrado, o qual proporciona redução no uso de herbicidas e a aplicação mais racional deste insumo, promovendo a produção de alimentos isentos de resíduos e a proteção do ambiente.

Leandro Vargas,
Embrapa Uva e Vinho
Erivelton Scherer Roman,
Embrapa Trigo

* Este artigo foi publicado na edição número 22 da revista Cultivar Hortaliças e Frutas, de outubro/novembro de 2003. ver mais artigos
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