Pontas de pulverização e qualidade da aplicação com pulverizadores costais

Segundo dados do Cadastro Rural e do Dieese, o Brasil possui mais de 7 milhões de imóveis rurais, dos quais cerca de um terço são menores que 10 ha. Mesmo nestas propriedades há necessidade de mecanização, visando ampliar a capacidade e a eficiência produtiva.

Nesse panorama, pequenos e grandes agricultores fazem uso de práticas para elevar a eficácia no uso de fertilizantes e produtos fitossanitários, investindo em equipamentos para a aplicação desses insumos na lavoura para preservar a produtividade.

Em propriedades de menor área prioritariamente utilizam-se máquinas menores nos cultivos, como os equipamentos portáteis, nos quais se insere o pulverizador costal manual. Porém, este tipo de equipamento é constante em propriedades de todos os tamanhos, sendo considerado para atividades diversas, em trabalhos fundamentais ou para pequenos serviços, sendo rara a propriedade rural que não possua ao menos um pulverizador costal manual. Sendo assim, no Brasil estes equipamentos são diariamente comercializados aos milhares e utilizados aos milhões.

Existem poucas informações que auxiliem o agricultor na escolha do melhor modelo de pulverizador condizente com a realidade da lavoura, e ainda menos em relação à determinadas peças que compõem esses equipamentos, a exemplo das pontas de pulverização. Entretanto, estas peças fazem toda a diferença para a qualidade da aplicação e otimização do uso desses equipamentos.

Os pulverizadores costais manuais geralmente vêm equipados de fábrica com a ponta de pulverização conhecida como “chapinha”, que consiste de um disco de aço com um orifício central, associado à um núcleo de orifícios enviesados, responsável pela formação do jato cônico.

Os modelos de pontas de jato plano ou “leque”, como são mais conhecidas, normalmente apresentam padrão mais uniforme e simétrico de pulverização, em relação ao de jato cônico, e com menores riscos de deriva, dado o tamanho das gotas.

A pressão de trabalho dos pulverizadores também interfere no tamanho das gotas, sendo que quanto maior a pressão menor o tamanho das gotas. A pressão também interfere no ângulo de pulverização e na cobertura. Por isto, adequada trabalhar dentro da faixa de pressão recomendada.

 

Equipamentos de pulverização e melhorias nas técnicas de aplicação

A pulverização é a principal forma de aplicação de produtos fitossanitários nas lavouras, para controle de plantas daninhas, doenças e pragas que afetam a produtividade das culturas.

Existem diversos modelos de pulverizadores, desde os mais simples, a exemplo do costal manual, até modernos autopropelidos.

Os pulverizadores costais manuais são frequentemente mais utilizados em pequenas propriedades para serviços em menor escala de aplicação, uma vez que seu reservatório se limita a um volume que, em geral, varia de 5 a 20 litros.

A preferência por este equipamento entre agricultores se justifica à disponibilidade, ao baixo custo e à versatilidade de uso. Em contrapartida, uma das desvantagens é o esforço físico repetitivo empregado nas operações de trabalho, para o acionamento da pulverização dado por alavanca associada à um pistão de bombeamento.

Esses equipamentos têm sido aperfeiçoados no decorrer dos anos. A inserção de uma válvula de pressão é considerada uma mudança significativa, uma vez que proporciona a padronização na pressão de trabalho, com efeito de menor variação do ângulo do jato e do tamanho das gotas.

Apesar da evolução em relação à tecnologia associada aos equipamentos de aplicação de produtos fitossanitários, a adequação no uso desses equipamentos no campo ocorre lentamente. Sua utilização nem sempre se dá com boas práticas agronômicas, carecendo de desenvolvimento em procedimentos operacionais, na adequação de acessórios e em aspectos ergonômicos.

Diante do desafio da segurança ambiental e viabilidade econômica do sistema de produção, torna-se indispensável o emprego de tecnologia e recursos de aplicação que visem a otimização dos produtos aplicados, uma vez que com a correta utilização deve-se evitar perdas de safras devido às doenças e pragas, bem como minimizar danos decorrentes da deriva.

A deriva é uma das principais causas das perdas de produtos fitossanitários, com consequências na intoxicação humana e na contaminação ambiental. A deriva pode ser definida pelo movimento de um produto no ar durante ou depois da aplicação para um local diferente do alvo planejado. Portanto, é toda partícula ou produto decorrente da aplicação que não atinge o alvo ou que não permanece nele.

Com a deriva da pulverização, além do potencial risco ambiental, podem ocorrer efeitos inesperados em plantas cultivadas, tais como intoxicações e mudanças no crescimento e na anatomia foliar, com danos no desenvolvimento e crescimento de plântulas, com efeito negativo na produtividade da cultura.

A seleção da melhor configuração de modelos de pontas de pulverização, de pressão de trabalho e mesmo de adjuvantes é essencial para evitar a contaminação ambiental e a perdas dos produtos utilizados.

Segundo o Prof. Tomomassa Matuo, descrito em seu livro clássico “Tecnicas de Aplicação de Defensivos Agrícolas” (1990), a ponta de pulverização é o principal componente dos equipamentos de aplicação, por ser o item responsável pela produção e dispersão das gotas com o produto em uma pulverização, merecendo todo o cuidado em sua seleção.

 

Pontas de pulverização e pressão de trabalho

As pontas de pulverização estão associadas com a precisão e a segurança na aplicação dos produtos fitossanitários. O uso da ponta de pulverização adequada e em correto funcionando, deverá resultar na manutenção da eficiência do tratamento, interferindo para menos na necessidade de reaplicações.

Com características distintas de distribuição volumétrica, as pontas de pulverização têm especificidades para determinadas condições de aplicação. Desta forma, a escolha da ponta de pulverização mais adequada vai depender das diferentes situações de trabalho.

Para a seleção mais correta da ponta, deve-se considerar o produto a ser aplicado e o seu modo de ação (sistêmico ou de contato), se a aplicação será em pré ou em pós-emergência, em área total ou em faixas. As condições meteorológicas (de vento, temperatura e umidade relativa) e a sensibilidade da cultura tratada ou nas adjacências, também devem ser consideradas durante as aplicações.

Os modelos de pontas de pulverização apresentam distintos padrões do jato. Os mais comuns são: jato plano (ou “leque”), cone vazio e cone cheio.

Os modelos de pontas de pulverização de jato cônico apresentam duas variações básicas: o cone vazio e o cone cheio. A ponta de pulverização de cone vazio em geral fragmenta o líquido em gotas menores e opera em pressões mais altas. Essas características fazem com que os modelos de cone vazio sejam indicados para aplicações sobre plantas mais enfolhadas, como culturas em pleno desenvolvimento vegetativo. Esta aplicação merece cuidado especial devido às gotas de tamanho menor serem mais suscetíveis à deriva. Os modelos de pontas de pulverização de jato cônico vazio, são geralmente escolhidos pelos produtores por resultarem em maior cobertura dos alvos. Porém, como gotas menores são mais sujeitas à evaporação e à deriva, estas comumente implicam em menor uniformidade de distribuição da calda sobre as plantas, em relação aos modelos de jato plano.

Em relação a pulverização com modelos de jato plano, há diversas opções, como os de plano estendido e defletor para aplicação em área total e plano contínuo para aplicação dirigida. Os modelos de jato de plano defletor apresentam um padrão de jato plano de ângulo amplo, com efeito importante das alterações de pressão na largura do padrão de pulverização.

Há também os modelos de ponta de pulverização de indução de ar produzem gotas na classe de extremamente grossa à ultra grossas e podem reduzir a deriva de pulverização em mais 70%.

Uma vez definido o modelo é preciso atentar-se à pressão no circuito hidráulico do pulverizador, que altera o tamanho das gotas, a vazão e o ângulo do jato.

Em certos limites, aumento da pressão significa diminuição no tamanho das gotas, aumento na vazão e no ângulo do jato de pulverização. A variação do fluxo de calda respeita uma relação quadrática. Ou seja, para se dobrar a vazão é necessário quadruplicar a pressão. Entretanto, aumento na pressão de trabalho nestas proporções implica em gotas muito menores modificando toda a característica de transporte e deposição das gotas, com maior risco de deriva. Além disto as pressões maiores podem resultar em maior o desgaste das pontas de pulverização. Por isto recomenda-se respeitar os limites indicados nos catálogos de cada fabricante, com os dados de desempenho normalmente fornecidos nos catálogos das pontas de pulverização.

Os pulverizadores costais manuais normalmente trabalham com pressões que variam entre 15 e 60 psi. Devido à proximidade do operador à ao jato pulverizado esta variação pode significar exposições bastante diferentes durante a aplicação.

Neste contexto, para se reduzir a deriva nas pulverizações, pontas que produzem gotas maiores, operando com pressões menores podem garantir maior segurança aos operadores.

Em relação aos preços, quando considerados os aspectos qualitativos e operacionais, as diferenças encontram justificativas para o uso dos modelos com melhor desempenho. Entretanto, ajustes no equipamento podem ser avaliados, como a modificação no sistema de bombeamento utilizando êmbolos mais largos para aumentar a capacidade de deslocamento de líquido, ou mesmo o bombeamento com motores elétricos. Além disto são disponíveis válvulas de controle da pressão e sistemas de agitação da calda que podem colaborar para a manutenção da qualidade desejada para a aplicação.

Tudo isto auxiliará no resultado da aplicação, visando manter a eficiência dos produtos e a segurança dos aplicadores e do ambiente em seu entorno. As boas práticas agronômicas certamente colaborarão para a sustentabilidade da atividade.

Alcides Marangoni Junior, Prof. Higiene e Segurança do Trabalho – IFMA, São Luis, MA; Marcelo da Costa Ferreira, Prof. Tecnologia de Aplicação – UNESP, Jaboticabal, SP

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Alcides Marangoni Junior, Prof. Higiene e Segurança do Trabalho – IFMA, São Luis, MA; Marcelo da Costa Ferreira, Prof. Tecnologia de Aplicação – UNESP, Jaboticabal, SP