Por que se preocupar com a brucelose bovina?

Quem nunca apreciou aquele leite cremoso tirado logo cedo, no curral, diretamente da vaca? E uma deliciosa fatia de queijo fresco artesanal? Irresistível, não? Porém, nosso paladar poderá nos envolver, atraindo-nos a um caminho perigoso: a brucelose.

Compondo o grupo das zoonoses, doenças transmitidas dos animais ao homem, a brucelose é causada por uma bactéria, que pode alojar-se dentro das células de defesa, o que dificulta seu controle. Devido à inespecificidade de sintomas, torna-se difícil o diagnóstico no homem, sendo conhecida como “Doença das mil faces”. Na fase inicial, o indivíduo enfermo pode apresentar sintomas como fraqueza, mal-estar, dores musculares e articulares, cefaléia e febre intermitente. O quadro pode evoluir e, geralmente, o tratamento é prolongado.

O consumidor pode contrair a brucelose através da ingestão de leite cru e derivados, preparados com leite que não foi submetido à tratamento térmico, onde a bactéria pode persistir durante vários meses. Em diversas regiões do Brasil é comum as pessoas consumirem produtos de origem animal, que não sofreram inspeção pelos órgãos e profissionais competentes. O comércio clandestino destes produtos constitui ameaça à saúde pública.

Vale ressaltar que a brucelose humana é de caráter principalmente ocupacional, ou seja, o grupo de maior risco é composto pelas pessoas que lidam diretamente com os animais infectados, como veterinários, criadores e tratadores, e ainda os que trabalham com produtos de origem animal. Portanto, a manipulação de leite e derivados ou carne contaminada, também pode levar à transmissão da doença ao homem.

A brucelose não é transmitida habitualmente de um ser humano a outro e, portanto, a profilaxia no homem deve ser feita pelo controle da doença nos animais. Uma das principais medidas de controle é a vacinação, obrigatória em todas as fêmeas bovinas e bubalinas de 3 a 8 meses de idade, sendo utilizada a vacina B19. Sem o certificado de vacinação, as fêmeas não podem participar de leilões e demais eventos.

Outra importante forma de controle da brucelose bovina é a eliminação dos animais reagentes positivos aos testes sorológicos. Estes exames diagnósticos devem ser realizados por médico veterinário habilitado, sempre que forem adquiridas fêmeas com idade igual ou superior a 24 meses, vacinadas entre três e oito meses de idade, e em fêmeas não vacinadas e machos com idade igual ou superior a oito meses. Muitas vezes, a introdução da brucelose no rebanho faz-se a partir da compra de bovinos aparentemente sãos que, no entanto, estão infectados pela bactéria Brucella abortus. A emissão de Guia de Trânsito Animal (GTA) fica condicionada à apresentação de atestados de exames negativos para brucelose.

A brucelose bovina encontra-se disseminada por todo o território nacional, sendo uma das principais causas de aborto em vacas. Animais sexualmente maduros, especialmente vacas prenhes, são mais suscetíveis à infecção, porém touros também adquirem a doença, podendo desenvolver inflamação dos testículos. Quanto aos bezerros, aqueles que não adquirem a doença via intra-uterina, ao ingerir leite de vacas brucélicas, poderão infectar-se. Estes animais só manifestarão sintomas de brucelose na fase da maturidade sexual, parecendo, até então, animais saudáveis, porém tornar-se-ão fontes de infecção para o rebanho.

A infecção por B. abortus em bovinos ocorre principalmente pela ingestão de alimentos e água contaminados com produtos de aborto, como fetos, descargas uterinas e restos placentários. Nas vacas brucélicas a primeira, e muitas vezes, a segunda gestação terminam em aborto, sendo eliminadas as bactérias junto à placenta, contaminando os pastos e consequentemente, os animais do rebanho. As gestações seguintes normalmente ocorrem sem grandes problemas, aparentando que o animal está curado ou, ainda, que ocorreu apenas algum problema de menor importância na prenhez anterior. Porém, apesar de não apresentar sinais clínicos, estas vacas continuam eliminando bactérias e contaminando o ambiente.

A brucelose bovina tem importância sócio-econômica e de saúde pública para o Brasil, podendo determinar consequências significativas para o comércio internacional de animais e seus produtos. Somente em 2004, no Brasil, foram diagnosticados 81.298 casos. Estima-se que esta enfermidade leve a redução de 20 a 25 % na produção leiteira, devido aos abortos, mortalidade de bezerros e demais problemas de fertilidade, determinando assim, importantes prejuízos econômicos à pecuária nacional.

O leite é um dos alimentos mais completos, devendo ter garantia de qualidade para segurança do consumidor. Uma das medidas mais importantes para assegurar a qualidade dos produtos de origem animal é a educação sanitária, pois visa a conscientização dos diversos profissionais envolvidos neste setor, bem como da população consumidora.

Karina Neoob de Carvalho Castro
Pesquisadora da Embrapa da Agropecuária Oeste (Dourados, MS)
karina@cpao.embrapa.br

Andrea Maria de Araújo Gabriel
Médica veterinária, doutora em Reprodução Animal, professora da Universidade Federal da Grande Dourados ver mais artigos
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