Manejo de Helicoverpa armigera no tomateiro

A cultura do tomateiro (Solanum lycopersicon L.) tem grande relevância no agronegócio brasileiro, pois movimenta mais de R$ 2 bilhões por ano, equivalendo a 16% do Produto Interno Bruto (PIB) gerado pela produção de hortaliças no país, sem considerar ainda a importância do fruto na alimentação diária do brasileiro, e a geração de empregos e renda, uma vez que esta hortaliça é cultivada e comercializada em todos os estados brasileiros, destacando-se como grandes produtores os estados de Goiás, Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Bahia e Pernambuco.

Nestes cultivos podem ser encontrados tomateiros de crescimento indeterminado, cujos frutos, normalmente, são consumidos in natura, e tomateiros de crescimento determinado, sendo seus frutos utilizados na agroindústria. O Brasil está entre os dez maiores produtores de tomate do mundo e estima-se que a produção anual brasileira seja de três milhões de toneladas, sendo 77% para o consumo in natura e o restante para produção de processados.

Por sua vez, o estado de Goiás destaca-se como o líder no País e na América do Sul, produzindo 1,31 milhão de toneladas de tomates em 18,3 mil hectares, destacando-se a produção colhida nos municípios de Cristalina (245 mil toneladas), Morrinhos (225 mil toneladas) e Itaberaí (90 mil toneladas), sendo que o processamento do total dos tomates produzidos no Brasil é realizado por 23 indústrias, das quais 13 estão sediadas no estado.

Neste contexto, há uma grande preocupação com a manutenção destas safras livres de pragas e doenças, pois a cada ano os problemas na condução desta cultura, seja para a produção de tomates de mesa ou para processamento, se agravam. A exemplo disso pode-se citar a mosca branca (Bemisia tabaci biótipo B) que é uma praga exótica no Brasil, introduzida em nosso País de forma desconhecida na década de 1990 e desde então se tornou alvo de intenso controle com aplicações de inseticidas, principalmente nas lavouras de tomate para processamento industrial, pois, além dos danos diretos causados por esta praga pela sucção de seiva e injeção de toxinas, seus indivíduos são vetores do begomovírus, doença limitante para a cultura, sendo responsável por redução do crescimento dos tomateiros, alterações fisiológicas e produção de frutos isoporizados e com amadurecimento irregular, incidindo de maneira determinante na diminuição da produção e no aumento considerável dos gastos com agroquímicos. Portanto, a presença desta praga nos cultivos de tomateiros continua sendo forte motivo de preocupação para o produtor, mesmo depois de mais de uma década da sua introdução.

Atualmente, a ocorrência de mais uma praga exótica, a espécie Helicoverpa armigera, está comprometendo as produções de tomates no Brasil. A lagarta de H. armigera foi recentemente identificada em vários estados brasileiros atacando cultivos de algodão, milho e soja, porém seus danos já são conhecidos há mais tempo do que se prognosticava, pois nas duas últimas safras foram inúmeros os relatos da presença de uma praga com características morfológicas e de danos muito semelhantes às observadas na atual safra de tomates, e agora relacionados à H. armigera.

Os estados de Goiás, Minas Gerais e o Distrito Federal estão em alerta devido à confirmação da presença da lagarta de H. armigera em cultivos de tomateiros e medidas emergenciais deverão ser colocadas em prática antes que os problemas decorrentes de ataques desta praga se tornem irreparáveis, como ocorreu recentemente nos cultivos do oeste do estado da Bahia, pois mesmo sendo uma praga exótica, encontrou no País condições climáticas favoráveis e hospedeiros em abundância, facilitando sua dispersão nas lavouras brasileiras. É importante ressaltar que, nos países onde esta lagarta ocorre, o tomateiro é sua cultura preferencial, adquirindo, portanto, status de praga-chave da cultura.

Como identificar

Helicoverpa armigera, é um Lepidóptero, da família Noctuidae que está distribuída por vários países da Europa, Ásia, África e Oceania, sendo sua identificação baseada, a princípio, nas diferenciações da genitália do macho, o que torna ainda mais difícil para técnicos e produtores reconhecer e confirmar a presença desta praga no campo.

O ciclo evolutivo de ovo a adulto de H. armigera pode variar de 40 a 45 dias, dependendo das condições climáticas. Os adultos desta praga têm hábitos noturnos, voam preferencialmente no crepúsculo. As fêmeas da praga são atraídas para os cultivos de tomateiros devido às inflorescências amarelas e ao seu néctar, que são utilizados para realizar suas oviposições, podendo, cada fêmea, ovipositar, em média, de mil a 1.500 ovos durante todo o seu ciclo de vida. Estes ovos podem ser colocados individualmente ou em grupos de dois ou três em um mesmo local, de preferência nas inflorescências ou nos frutos em formação. Entretanto, isso não é regra, pois também são encontrados ovos nas folhas e nos talos. Os ovos são arredondados, de cor esbranquiçada, com cerca de 0,5mm de diâmetro, e apresentam estrias meridionais que vão de um polo a outro, sendo que próximo à eclosão forma-se uma zona escura no ápice, correspondendo à cápsula cefálica da lagarta. A eclosão pode ocorrer em dois a três dias nos períodos mais quentes do ano e em quatro a 12 dias nos períodos mais frios.

Nos primeiros instares, a lagarta de H. armigera apresenta corpo com cerdas abundantes, demonstrando certa semelhança com lagartas de outras espécies da subfamília Heliothinae. Entretanto, a partir do quarto instar, exibe características de fácil observação, principalmente pelos de coloração esbranquiçada, inclusive na cápsula cefálica, uma saliência no quarto segmento abdominal em forma de “sela", geralmente de coloração escura, o último segmento abdominal apresentando um plano inclinado, tegumento de aspecto levemente coriáceo e, por fim, apresenta o hábito de encurvar a cápsula cefálica em direção ao primeiro par de falsas pernas, dando-lhe um aspecto peculiar que a diferencia das lagartas de outras espécies comumente encontradas na cultura.

A fase larval é completada em seis instares e tem a duração de 13 a 22 dias, dependendo das condições climáticas. A lagarta pode atingir até 4cm de comprimento no último instar, e ao fim do ciclo busca o solo para empupar, construindo uma câmara onde pode permanecer por dez a 15 dias até a emergência do adulto. Caso as condições climáticas não sejam favoráveis, pode continuar nesta fase por pelo menos 140 dias ou até que a umidade e a temperatura do solo estejam adequadas para o início de um novo ciclo da praga, apresentando, portanto, uma diapausa pupal facultativa.

O adulto de H. armigera pode se dispersar facilmente pelas lavouras e se manter nesse ambiente por muitas gerações, enquanto houver alimento, ou mesmo migrar a grandes distâncias, sendo este um hábito natural da praga na sua fase adulta, independentemente das condições climáticas e da presença ou não de hospedeiros na área.

A lagarta pode atacar durante toda a fase de desenvolvimento da cultura, alimentando-se de folhas, caule, flores e frutos, sendo este último, de preferência, verde. Recém-eclodida, a lagarta pode, inicialmente, raspar o parênquima das folhas e depois deslocar-se para os frutos, nos quais perfura a casca fazendo galerias até alcançar sua polpa, onde pode permanecer consumindo todo o conteúdo interno do fruto, inviabilizando-o para o consumo ou processamento. Após esse período e devido à voracidade que aumenta conforme seu desenvolvimento (80% do material consumido ocorre nos últimos três instares larvais), a lagarta passa a perfurar, de forma indiscriminada, todos os frutos da mesma penca, podendo se deslocar, também, para os frutos de outras pencas na mesma planta ou de outras plantas nas proximidades.

Alguns relatos de produtores confirmam a voracidade com que esta praga ataca os cultivos de tomate. Além disso, nos monitoramentos iniciados tanto em cultivos de produção de tomates para mesa como para processamento, concluiu-se que uma lagarta, a partir do quinto instar, pode destruir de quatro a cinco frutos de uma mesma penca em poucos dias.

Os danos iniciais das lagartas de H. armigera nos frutos podem se assemelhar aos provocados pela broca pequena (Neoleucinodes elegantalis), pois se detecta um pequeno orifício de entrada, que cicatriza rapidamente, com a diferença que passados alguns dias as lagartas de H. armigera passam a broquear outros frutos da mesma penca, enquanto que a broca pequena permanece até o final da fase larval no mesmo fruto, deixando-o somente para empupar. Outra característica que a diferencia da broca pequena, particularmente em cultivos de tomate para mesa, é o hábito de infestar o terço superior das plantas, enquanto que a broca pequena se mantém nos terços médio a inferior.

Monitoramento amplo

Sabe-se que para H. armigera o monitoramento é indispensável, pois sem o uso desta técnica dificilmente o produtor conseguirá deter o avanço da praga na cultura. Portanto, as recomendações baseiam-se, a princípio, no monitoramento frequente, pelo menos duas vezes por semana, observando-se não somente as plantas de tomate, mas também todas as demais plantas ao redor e no entorno da área, pois é comum o produtor manter próximo aos cultivos de tomate, áreas cultivadas com sorgo, milheto, milho ou mesmo plantas tigueras que multiplicam a praga, uma vez que nestas áreas, normalmente, não se adota nenhum tipo de controle.

Baseando-se nessa observação, uma das formas de evitar essa multiplicação involuntária de H. armigera, provavelmente seria não plantar gramíneas, principalmente sorgo e milheto, ao redor das áreas cultivadas com tomateiros. Entretanto, caso isso não seja possível, a adoção de medidas de controle é indispensável para reduzir a população da praga nestas plantas multiplicadoras. Porém, é importante o emprego nestas áreas de produtos seletivos, para que as populações de inimigos naturais possam se desenvolver e auxiliar no controle de H. armigera.

Enquanto os estudos sobre H. armigera não se aprofundam no Brasil, vale manter os monitoramentos já recomendados para as brocas grandes que se baseiam na observação de frutos danificados, com níveis de controle de 1%. No entanto, essa recomendação é válida para áreas de cultivo de variedades de tomate de mesa. No caso de cultivos de variedades que produzem frutos para a indústria, não existem níveis de controle recomendados, assim os mesmos níveis podem ser adotados até que a pesquisa responda a essa indagação.

Deste modo, o recomendado seria dividir a área em talhões, monitorando o terço superior das plantas de tomate, amostrando-se pelo menos 20 pontos por talhão, sendo que em cada ponto devem ser observadas, na fase vegetativa, dez folhas completas, contando-se ovos e lagartas, enquanto que na fase reprodutiva recomenda-se avaliar, também, dez pencas de flores e/ou dez pencas de frutos, contando-se, neste caso, a quantidade de ovos, lagartas e frutos brocados. A constatação de pelo menos 1% de amostras com ovos, lagartas ou frutos danificados, pode ser um indicativo para que medidas de controle sejam colocadas em prática.

Infelizmente nas avaliações efetuadas até o momento, mesmo sob intenso controle com inseticidas, as áreas têm se apresentado cada vez mais infestadas pela praga, demonstrando um constante fluxo migratório de insetos adultos para os locais com cultivos de tomateiros, o que tem condicionado infestações seguidas desta praga nestas lavouras. Produtores têm relatado a realização de aplicações diárias em plantações de tomateiros de variedades de mesa, e a cada seis ou sete dias em áreas com tomateiros de variedades para o processamento. Este procedimento tem encarecido, de forma substancial, a produção da cultura e, se medidas alternativas de controle não forem adotadas, com certeza além da redução drástica na produtividade poderão ocorrer, em futuro muito próximo, problemas ambientais e de saúde pública gravíssimos, devido ao uso indiscriminado de agroquímicos nesta cultura. Estudos recentes relatam que defensivos não estão sendo utilizados de acordo com as informações que constam nos rótulos. E mesmo antes da constatação da praga no País pesquisas realizadas pela Embrapa Meio Ambiente, em Jaguariúna, São Paulo, demonstraram que 29% dos alimentos consumidos in natura pela população contêm agroquímicos em quantidades acima do limite permitido por lei.

Ressalta-se que lagartas de primeiro e segundo instares são mais fáceis de controlar, porém, somente o monitoramento pode assegurar a detecção da praga em suas fases iniciais. Assim sendo, o insucesso do controle da H. armigera na safra de 2012, em várias áreas de cultivos, resultou em grandes prejuízos para os tomaticultores e poderá se repetir de forma acentuada neste ano, pois há um desconhecimento generalizado sobre a importância da lagarta na cultura do tomateiro e, por consequência, sobre quais inseticidas e quais doses devem ser aplicados. O produtor está, por conta própria, dobrando a dose e fazendo misturas, associando até três inseticidas normalmente recomendados para a cultura, porém, ainda não oficialmente estudados para o controle de H. armigera. Logo, se desconhece a atuação destes produtos sobre a lagarta desta praga, seus inimigos naturais e o meio ambiente.

Manejo integrado

O manejo integrado de pragas, através do uso de táticas de controle adequadas para cada tipo de cultivo, é imprescindível para a manutenção da praga em níveis aceitáveis sem que causem prejuízos à produção de tomates.

Assim, o uso de produtos químicos seletivos e a rotação de aplicação com base no mecanismo de ação, são indispensáveis dentro do manejo da resistência dos insetos aos produtos. Também devem ser utilizadas antigas práticas agrícolas que proporcionam as condições ótimas para o bom desenvolvimento das culturas e que, ao mesmo tempo, interrompem ou perturbam o ciclo de vida das pragas, proporcionando condições adversas ao seu desenvolvimento ou mesmo impedindo a perpetuação dessas pragas nas áreas com cultivos agrícolas. Como exemplo, uma prática bastante fácil de ser adotada, porém pouco utilizada pelos produtores de uma forma geral, é a destruição dos restos de cultura e, mais especificamente nos cultivos de tomateiros de mesa, ainda pode-se incluir a retirada dos frutos atacados, enterrando-os de imediato.

Armadilhas contra a praga

Outra alternativa viável seria a utilização de cultura armadilha. A ideia é simples, pois consiste em cultivar, antes do plantio do tomateiro, que é o principal, outra cultura que servirá para a praga se concentrar, realizar suas posturas e se desenvolver e, em seguida, faz-se a destruição da cultura armadilha, ou então se aplicam inseticidas, de preferência seletivos, protegendo, assim, os inimigos naturais que porventura estejam presentes. Entretanto, esta prática só será efetiva se houver um controle rigoroso de pragas e doenças na cultura armadilha, pois sem isso esta cultura seria meramente multiplicadora da praga.

O uso de armadilhas luminosas ou armadilhas com feromônios para detecção da entrada e dos picos populacionais da praga deve ser adotado por todos os produtores de tomate. Ressalta-se que no caso de uso das armadilhas luminosas, as fêmeas de diferentes espécies de insetos instintivamente ovipositam antes de serem capturadas, acarretando uma maior concentração de ovos nas plantas que estejam nas proximidades das armadilhas, fato este a ser observado para o caso de H. armigera. Assim, caso o produtor tenha que escolher entre os dois métodos, considera-se que o uso de armadilhas com feromônios seja mais prático, principalmente para a identificação e a contagem dos adultos coletados, pois, normalmente o que se obtém na armadilha luminosa é um aglomerado de insetos de diferentes espécies, a maioria tão danificada que tem sua identificação prejudicada. Além do que este volume de insetos pode levar o agricultor a pensar de forma equivocada em um controle efetivo.

Frutos de mesa ensacados

No caso específico de cultivos de variedades de tomate para mesa, especialmente para pequenas áreas, o ensacamento de frutos nos tomateiros pode ser alternativa viável, visto que para Helicoverpa zea, bem como para N. elegantalis, os resultados obtidos com esta prática têm proporcionado boa proteção, com frutos de melhor qualidade e livres de resíduos de agroquímicos. Portanto, frutos mais saudáveis, que podem alcançar melhores preços de venda devido ao seu diferencial.

Outras estratégias

A liberação de inimigos naturais, como Trichogramma spp, que são parasitoides de ovos de lepidópteros, poderá ser uma alternativa bastante viável tanto para o pequeno como para o grande produtor de tomate, visto que as posturas da H. armigera nos cultivos de tomateiro apresentam-se na maioria das vezes no terço superior das plantas favorecendo o parasitismo.

O revolvimento do solo também poderá ser uma alternativa viável, tendo em vista a suscetibilidade da fase pupal e a proximidade da pupa que se aloja na superfície do solo, no máximo até 10cm. Além disso, este mecanismo ajuda a inviabilizar o processo de emergência dos adultos, pois destrói os túneis de saída da praga.

Enfim, para assegurar uma produção sustentável de tomates diante deste grave problema que é a espécie H. armigera, é necessário que os tomaticultores se mobilizem e conheçam a praga para que possam realizar o manejo integrando várias táticas de controle, tendo por objetivo minimizar os danos que porventura possam ocorrer, porém, sem colocar em risco ou prejudicar o meio ambiente e a saúde da população que consome estes frutos e seus derivados.


Figura 1 - Desenvolvimento embrionário da H. armigera: 1 - coloração branca (ovo recém-deposto); 2 - coloração palha (início do desenvolvimento embrionário); 3 - próximo à eclosão forma-se uma zona escura no ápice, correspondendo à cápsula cefálica da lagarta; 4 - lagarta recém-eclodida


Figura 2 – Fases do desenvolvimento larval da H. armigera (Adaptado de www.dpi.qld.gov.au)


Figura 3 – Ciclo evolutivo da H. armigera em tomateiro


Clique aqui para ler o artigo na exemplar 81 da Revista Cultivar Hortaliças e Frutas.

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Cecilia Czepak; Karina Cordeiro Albernaz; João Paulo Trevisan Martins; Mariana Araújo Ortega; Luis Felipe Manso Lombardi; Nasla Ruciane dos Anjos Sousa; Lorrana dos Santos Morais¹ e Lucas Silva Barros

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