Pragas atacam o algodão

Diversos besouros estão presentes na lavoura de algodão oferecendo benefícios como os predadores, e outros ocasionando danos. Entre outros coleópteros que causam prejuízos, o bicudo, e as brocas da raiz e do ponteiro, representantes da família curculionidae, são considerados pragas importantes do algodoeiro.

Brocas do algodoeiro

Broca da raiz:
Eutinobothrus brasiliensis

O adulto é um pequeno besouro, medindo entre 3 a 5 mm de comprimento com 1,5 a 2,0 mm de largura, apresentando coloração escura, quase negra, com suas pernas e ventre do corpo de cor pardo avermelhado. A postura é realizada no coleto das plantas, os ovos são colocados isolados em pequenas cavidades das cascas, com forma elíptica. As larvas de cor branco-amareladas, tomando a forma encurvada, são ápodas, iniciam sua alimentação através da casca, construindo galerias na região do cambio. As larvas desenvolvidas atingem cerca de 6 mm de comprimento, entram no estado pupal, passando esta fase em câmaras de repouso, previamente construídas, transformando-se em adultos que saem para o exterior. Da colocação dos ovos à emergência dos adultos decorrem entre 40 e 50 dias, nos meses de verão. Além do algodoeiro, outras espécies vegetais são hospedeiras da praga, como: quiabeiro, guanxuma, mimo de vênus, etc.

As atividades das larvas se restringem geralmente a região intermediária entre a raiz e o caule, construindo galerias, podendo ocasionar a morte de plantas jovens. A broca inicia a ovoposição em plantas com aproximadamente 10 dias de idade, incrementando essa atividade após as plantas atingirem 25 dias. As plantas
atacadas caracterizam-se por apresentar, primeiramente folhas bronzeadas, com perda da turgescência nas horas mais quentes do dia e, posteriormente, secamento. As plantas mais desenvolvidas que sofreram ataque apresentam nodulações, hipertrofias e fendas na região do coleto.

Nos anos com precipitações mais expressivas durante o outono e inverno o ataque da broca geralmente é maior a partir do início da primavera do ano subsequente.

A broca na fase adulta atravessa o período de entressafra abrigada sob capins, matos, restos culturais, entulhos de pedras, ou ocultando-se nas fendas do terreno, sempre nas proximidades de alimento alternativo e umidade. Essa população hibernante representa o potencial de infestação para a safra entrante. Os adultos sobreviventes de entressafra iniciam a infestação durante o período de estabelecimento da cultura, concentrando o ataque em reboleiras de tamanho variável. Devido o prolongado período de oviposição, seguido de três gerações que ocorrem durante o ciclo vegetativo do algodoeiro, a maioria das plantas no final do ciclo, apresentam sintomas de ataque da broca.

O ataque da broca é expressivamente mais intenso nas áreas ou talhões de cultivo próximas a bosques e grotas com vegetação permanente, evidenciando-se muito mais quando existem rios ou cursos de água nas proximidades. Levantamentos de ocorrência tem indicado que a presença de plantas atacadas nas bordaduras dos talhões é 9,5 vezes maior do que no restante da área cultivada. Dos 30 aos 120 dias o número de plantas atacadas poderá crescer de 10 a 90%, respectivamente, em áreas de média infestação. A redução do estande em 40%, devido a morte de plantas, poderá afetar diretamente a produção com diminuição de até 30%.

Broca do ponteiro:
Conotrachelus denieri

Os adultos são pequenos besouros que medem entre 3 a 5 mm de comprimento, apresentando uma coloração ocre, com manchas claro-cinza sobre os élitros. Os adultos se alimentam perfurando as partes tenras e brotações das plantas, fazem orifícios na casca ao redor da parte terminal do caule, onde colocam os ovos. Nas maçãs perfuram a epiderme para depositar os ovos recobrindo-os com uma espécie de cera. De um modo geral os ovos são colocados na base das maçãs e entre os espaços intercapelares, podendo-se encontrar de 3 a 4 larvas por estrutura. Os ovos são de cor branca e inseridos nas cascas do caule, ramos, botões florais e maçãs. As larvas de cor branco-cremosa são ápodas, apresentando entre 5 a 7 mm de comprimento quando desenvolvidas. Após a eclosão as larvas penetram no interior do caule, e a partir do ápice constróem galerias através da medula no sentido descendente.

As larvas passam por 4 estádios de crescimento, a seguir caem e penetram no solo onde se transformam em pupa de cor branco-amarelada. Nas condições de verão, o ciclo da espécie pode durar cerca de 25 a 30 dias. As três primeiras gerações ocorrem no caule e ramos e, geralmente a 4ª e 5ª gerações, no interior das maçãs. Nas ausência do algodoeiro outras plantas hospedeiras suprem as necessidades alimentares e de reprodução da espécie. A partir das áreas de refúgio os adultos penetram nas lavouras logo após à emergência das plantas. Inicialmente as infestações concentram-se nas bordaduras, com os adultos destruindo, plantas recém-nascidas. As plantas com mais de 15 dias de idade podem sobreviver, permanecendo com o crescimento temporariamente paralisado, apresentando entrenós curtos e superbrotamento. A ocorrência de grandes pressões populacionais reduzem significamente o estande, necessitando na maioria das vezes o replantio parcial ou total dos talhões. Nas fase de frutificação as maçãs são atacadas determinando prejuízos na produção.

Monitoramento e controle

Em função das dificuldades de se realizar estimativas, mesmo que aproximadas, de possíveis ataques das brocas, todas as medidas adotadas para o controle destas pragas deverão ser sempre preventivas.

O histórico da região ou da área a ser cultivada, será o melhor indicador sobre o potencial de infestação das brocas. O controle cultural é básico para um manejo efetivo destas brocas. A destruição adequada das soqueiras, e em tempo hábil, é o fator mais importante para o controle das brocas. A antecipação das operações de preparo do solo em pelo menos 40 dias, eliminando refúgios e desalojando os adultos das brocas, favorecem o manejo das mesmas. A identificação dos locais de abrigo e o mapeamento dos pontos iniciais de ataque destes insetos nas propriedades favorecem a localização das faixas de plantio isca, como também determinam os focos de infestação.

Os adultos das brocas sobreviventes de entressafra são fortemente atraídos pelas primeiras plantas que emergem nas áreas de cultivo, assim sendo será uma boa estratégia a instalação do plantio isca para atração e combate das brocas. As faixas de plantio isca com aproximadamente 500 m2 , deverão ser instaladas nas bordaduras e proximidades de áreas permanentemente vegetadas que abrigam as brocas, antecedendo entre 10 a 15 dias ao estabelecimento definitivo da lavoura.

As sementes utilizadas nestas faixas iscas deverão ser tratadas com inseticidas e fungicidas. A partir da emergência das plantas, entre 3 a 5 dias, deve-se iniciar as aplicações de inseticidas, com reaplicação a cada 7 ou 10 dias, até os 40 dias de idade das plantas. As faixas de plantio isca são indicadoras da ocorrência e sinalizam o potencial de infestação de brocas para as lavouras. As plantas com entrenós curtos, sintoma do ataque da broca do ponteiro, deverão ser arrancadas e destruídas, evitando-se a formação da segunda geração da praga na cultura. A instalação de faixas iscas em diferentes pontos da área toma maior importância no sistema de plantio direto do algodoeiro, pois as plantas iscas estabelecidas nas periferias dos talhões, indicariam a ocorrência e atrairiam as brocas para fora da área cultivada. O uso de inseticidas na época da dessecação, torna-se imprescindível para redução populacional das brocas no interior da área.

O plantio deverá ser realizado dentro da época recomendada para cada região. A semeadura antecipada é desaconselhável pois normalmente propiciará maiores infestações.

As lavouras deverão ser implantadas com inseticidas sistêmicos aplicados nas sementes e ou solo, que oferecem uma proteção entre 30 a 70% de controle das brocas dependendo do produto a ser utilizado e das condições de umidade do solo. Mas a eficiência de controle das brocas é complementado com a aplicação aérea de inseticidas a partir da emergência até os 30 dias de idade das plantas. O inseticida mais tradicionalmente aplicado para o controle da broca da raiz tem sido o paratiom-metil, mas outros produtos como: clorpirifós, triazophós, monocrotofós e cloridrato são também recomendados para o controle da praga.

Todas as técnicas indicadas para o manejo da broca da raiz deverão ser também recomendadas para o controle da broca do ponteiro. Contudo deve-se considerar que a partir dos 80 dias a Conotrachelus denieri ataca as maçãs, quando deve-se aplicar medidas de controle semelhantes àquelas designadas para o bicudo.

Bicudo do algodoeiro
Anthonomus grandis

O adulto do bicudo é um besouro com um comprimento médio de 7 mm, com variação de 3 a 9 mm, entre a ponta do bico e a extremidade do abdômen, e uma largura equivalente a um terço do comprimento. O corpo é coberto de finos pelos de cor cremosa, tomando a coloração cinzenta ou castanha, dependendo da idade, alimentação e condições climáticas. Os olhos e o bico com aproximadamente 2,5 mm de comprimento são escuros, e as patas dianteiras apresentam duas aristas (espinhos), uma maior que a outra. Os fêmures das patas medianas e posteriores, só possuem uma arista. Os ovos, larvas e pupas se desenvolvem no interior dos botões florais e maçãs. As fêmeas depositam os ovos nos botões florais e maçãs, recobrindo o orifício de postura com uma cera (rolha de bicudo). Após 2 dias da postura as brácteas tornam-se amareladas, se abrem, e cerca de 5 dias depois, o botão floral atacado cai ao solo.

Neste local e no interior dos botões florais, as larvas terminam seu desenvolvimento, empupam, transformando-se em um novo adulto. As larvas são brancas, ápodas, permanecem encurvadas, e quando desenvolvidas apresentam entre 5 a 7 mm de comprimento. As pupas são brancas, podendo-se observar os vestígios dos diferentes membros do corpo dos futuros adultos, como os olhos e o bico.

No período de frutificação, quando as densidades populacionais são altas e havendo escassez de botões florais, as maçãs são atacadas. Os adultos originários das maçãs são geralmente mais aptos para sobreviver durante a entressafra. O ciclo de vida de ovo a adulto se completa em aproximadamente 20 dias, podendo ocorrer de 4 a 6 gerações durante a safra.

Após a colheita e destruição das soqueiras, os adultos migram para áreas adjacentes permanentemente vegetadas, e nestes locais de refúgio, os insetos permanecem com seu metabolismo fisiológico reduzido, alimentando-se esporadicamente de grãos de pólen de diferentes espécies vegetais. Durante a entressafra grande parte dos adultos é destruído pela ação de agentes naturais de mortalidade, mas o número de sobreviventes será suficiente para infestar as próximas safras.

Os adultos do bicudo sobreviventes de entressafra, iniciam o ataque a partir das bordaduras mais próximas das áreas de refúgio. Na ausência de botões florais, os adultos se alimentam do pecíolo das folhas e da parte terminal do caule das plantas jovens. Até os 70 dias da emergência das plantas o inseto pouco se movimenta, permanecendo em reboleiras concentradas nas bordaduras, mas a partir desta fase inicia o processo de dispersão por toda a lavoura e áreas vizinhas.

Monitoramento e controle

O bicudo é uma praga muito importante para o algodoeiro, devido sua grande capacidade reprodutiva, com ocorrência de gerações múltiplas, podendo ocasionar elevados prejuízos à produção. A convivência com o bicudo geralmente determina maiores riscos à produção, ao ambiente e até mesmo de intoxicação humana, pois o uso efetivo dos inseticidas se constitui na principal arma de combate à praga.

Nas amostragens deve-se observar a presença de botões florais com a presença de danos provocados pelo bicudo, sendo mais comum encontrar os orifícios de alimentação, e em menor proporção orifícios para reprodução. Nas inspeções de campo deve-se tomar amostras nas bordaduras em separado do restante da área cultivada.

Para tomada de decisão de controle pode-se adotar os seguintes níveis de ação:
• 5% de botões florais atacados até os 70 DAE, principalmente nas bordaduras;
• 10% de botões florais atacados dos 70 aos 120 DAE;
• 15% de botões florais atacados a partir dos 120 DAE.

A instalação de armadilhas com feromônio “grandlure”, 20 dias antes da semeadura e permanecendo até 60 dias após a emergência das plantas, poderão registrar a presença de adultos na área cultivada. A captura de 1 ou mais adultos por armadilha e por semana determinará a necessidade de aplicação de inseticidas nas faixas ou talhões atacadas.

O bicudo deve ser considerado como praga-chave no planejamento e controle dos insetos nocivos ao algodoeiro. Para convivência econômica com o bicudo diversas medidas de controle deverão ser observadas, como por exemplo: destruição de soqueiras; preparo antecipado do solo em aproximadamente 40 dias, para provocar um efeito “desalojador” dos adultos remanescentes de entressafra na área cultivada; utilização de cultivares precoces; semeadura na época recomendada para cada região e simultânea entre talhões vizinhos; instalação de plantio-isca nas áreas tradicionalmente infestadas; aplicações de inseticidas nas bordaduras ou área total, a partir da fase inicial da emissão dos primórdios dos botões florais já atacados pela praga; catação e destruição de botões florais danificados e caídos sobre o solo aos 55 e 75 dias. (preferencialmente nas bordaduras); utilização de produtos redutores de crescimento de plantas para aumentar a eficiência dos inseticidas; aplicação simultânea de desfolhantes e inseticidas para reduzir danos e a densidade populacional da praga; estabelecimento de soqueiras-iscas vegetadas para atração e combate aos bicudos emigrantes no final da safra; instalação de Tubos Mata Bicudo (TMB), principalmente em pré-semeadura e também na fase de colheita e pós destruição das soqueiras para redução populacional do inseto.

O adulto do bicudo é a única fase de vida da espécie que está exposta a ação dos inseticidas, e as aplicações deverão estar baseadas em dados de amostragens. A intensidade das infestações e os riscos determinarão a freqüência das pulverizações.

Para se obter regionalmente uma significativa redução, populacional do bicudo, deve-se aplicar inseticidas sobre os adultos que estão chegando, isto é, entre 20 e 50 dias, e sobre os que estão saindo durante o período de pré-colheita.

No manejo dos inseticidas para o controle do bicudo, recomenda-se até os 80-90 dias de idade das plantas o uso de produtos como: endosulfan, paratiom metilico, metidation, malathion e fenitrotion.

No Brasil, o endosulfan tem sido o produto mais aplicado até os 80 dias. Nos Estados Unidos o malathion é o principal inseticida para o controle da praga, e principalmente no programa bem sucedido de erradicação do bicudo nas diversas regiões cotonicultoras daquele país.

A partir dos 80-90 dias pode-se aplicar piretróides que são mais efetivos nas formulações suspensão concentrada e ultra baixo volume. Contudo a alternância entre grupos químicos é aconselhável para um manejo adequado do uso dos inseticidas, evitando-se desequilíbrios ambientais, ressurgimento e resistência de pragas.

Nestes últimos anos a cultura do algodão está migrando das áreas tradicionais para o cerrado brasileiro. As características ambientais do cerrado, principalmente no período de entressafra, com baixa umidade relativa, ptemperatura elevada, com escassez de refúgios e de alimentos alternativos, são fatores que desfavorecem a sobrevivência dos adultos. Considerando o ecossistema do cerrado e a biologia do bicudo pode-se afirmar que ainda é possível evitar a expansão do bicudo no cerrado. Para que isso ocorra haverá necessidade do engajamento de todos os segmentos envolvidos na cadeia produtiva do algodoeiro. Há profissionais habilitados para estabelecer programas de bloqueio populacional do bicudo, evitando sua expansão regional. A disponibilização de recursos legais e operacionais, mais a persistência e continuidade de programas de controle, poderão transformar o bicudo em praga secundária no cerrado brasileiro, antes que possa surgir um possível super bicudo adaptado as condições ambientais do cerrado.

Walter Jorge dos Santos,
IAPAR

* Este artigo foi publicado na edição número 36 da revista Cultivar Grandes culturas, de fevereiro de 2002. ver mais artigos
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