Pragas em sementes de soja armazenadas

A manutenção da qualidade das sementes de soja durante o período de armazenamento exige, além da observação de parâmetros fisiológicos e sanitários, o correto manejo de pragas como Lasioderma serricorne, Oryzaephilus surinamensis, Cryptolestes ferrugineu e Ephestia kuehniella, responsáveis por deterioração dos grãos. A realização de expurgo com gás biocida fosfina é uma das alternativas para prevenir e tratar a incidência destes insetos.

A evolução das cultivares de soja e o manejo populacional da lavoura para produção de grãos têm demandado a oferta de sementes de altas qualidades física, fisiológica e sanitária. A manutenção da qualidade durante o período de armazenamento, além dos parâmetros fisiológico e sanitário, requer também o manejo de pragas.

A qualidade de sementes de soja na armazenagem pode ser afetada pela ação de diversos fatores. Entre esses, as pragas de armazenamento, em especial os besouros Lasioderma serricorne, Oryzaephilus surinamensis e Cryptolestes ferrugineus, e a traça Ephestia kuehniella, podem ser responsáveis pela deterioração das sementes.

O conhecimento do hábito alimentar de cada praga é um elemento importante para definir o manejo a ser implementado nas sementes durante o período de armazenamento. Segundo esse hábito, as pragas podem ser classificadas em primárias ou secundárias.

As primárias são aquelas que atacam sementes sadias e, dependendo da parte que afetam, podem ser denominadas de primárias internas ou externas. As internas perfuram e penetram nas sementes para completar seu desenvolvimento. Alimentam-se de toda semente e possibilitam a instalação de outros agentes de deterioração. Um exemplo desse grupo é a espécie L. serricorne. As primárias externas destroem a parte exterior da semente (tegumento) e, posteriormente, alimentam-se da parte interna sem, no entanto, se desenvolverem em seu interior. Há destruição da semente apenas para fins de alimentação.

Pragas que dependem das sementes já danificadas ou quebradas para se alimentar são consideradas como secundárias, pois não conseguem atacá-las quando intactas. Ocorrem nas sementes trincadas, quebradas ou mesmo danificadas por pragas primárias e, geralmente, infestam desde o período de recebimento ao de beneficiamento do produto. Possuem a característica de se multiplicar rapidamente e, na maioria das vezes, causam prejuízos elevados.

    Pragas em soja armazenada podem representar uma preocupação para os armazenadores, em função de: (a) a migração de insetos é facilitada pelo armazenamento de outras espécies de sementes na mesma unidade de beneficiamento; (b) perda de qualidade da semente atacada por insetos; e (c) perda de todo o trabalho e valor econômico da semente que deverá ser comercializada como grão para a indústria. As principais espécies que atualmente causam prejuízos no armazenamento de soja são Lasioderma serricorne, Oryzaephilus surinamensis, Cryptolestes ferrugineu e Ephestia kuehniella.

Lasioderma serricorne (Coleoptera: Anobiidae)

Essa praga é originária do fumo armazenado, por isto é denominada besourinho-do-fumo e, recentemente, passou a ocorrer com frequência em grãos e sementes de soja durante o armazenamento. É cosmopolita, encontrada em praticamente todos os países, se alimentando de produtos secos armazenados. No Brasil, tem sido relatada em todas as regiões e em todos os estados produtores, em armazenagem de cereais e em oleaginosas, como a soja.

Os adultos vivem até 20 dias e não se alimentam. As larvas escavam os produtos, no caso a soja armazenada, onde fazem as galerias. Não é capaz de atacar plantas vivas, embora afete um grande número de produtos em armazenamento, como frutos secos, fumo, condimentos, cereais, grãos oleaginosos, farelos, farinhas, massas, biscoitos e rações. Frequentemente é observado em produtos manufaturados de origem vegetal, como cigarros e charutos. Pesquisas desenvolvidas na Embrapa Soja evidenciaram que a praga consome, sobrevive e se desenvolve adequadamente em dieta de grãos de soja. Foi possível obter mais de 800 insetos adultos, após 140 dias do desenvolvimento em frascos de vidro com 220 gramas de grãos de soja. O consumo de grãos de soja aumentou conforme o aumento da infestação inicial, por conta da multiplicação da espécie, demonstrando sua ampla adaptação em grãos de soja, durante o armazenamento. Estes resultados evidenciaram o desenvolvimento de  L. serricorne em grãos de soja durante o armazenamento, com elevado potencial de destruição e consumo do produto armazenado.

Oryzaephilus surinamensis (Coleoptera: Silvanidae)

É uma espécie cosmopolita que ocorre em praticamente todas as regiões do mundo, sempre em produtos armazenados. No Brasil, a praga está presente em toda a região produtora de grãos, bem adaptada às regiões climáticas de produção, com preferência por climas quentes onde tem sua melhor distribuição.

É considerada uma praga que infesta grande variedade de commodities, especialmente cereais, frutos secos e oleaginosas. Assim, grãos de milho, trigo, arroz, soja, cevada, aveia, entre outros, são os mais procurados pela espécie. Também é uma praga infestante de estruturas de armazenamento, como moegas, máquinas de limpeza, elevadores, secadores, túneis, fundos de silos e caixas de expedição.

Trata-se de praga secundária que ataca grãos quebrados, fendidos e restos de grãos. Pode danificar a massa do grão, sendo expressiva quando ocorre em grande densidade populacional. Aparece praticamente em todas as unidades armazenadoras, onde causa a deterioração dos grãos pela elevação acentuada da temperatura. É uma espécie muito tolerante a inseticidas químicos, sendo uma das primeiras a colonizar a massa de grãos após aplicação desses produtos.

 

Cryptolestes ferrugineus (Coleoptera: Cucujidae)

É uma espécie cosmopolita encontrada em várias partes do mundo onde existem produtos secos. No Brasil, ocorre em toda a região produtora de grãos e sementes. Geralmente associado a outras espécies pragas de produtos armazenados, nas regiões mais quentes do país.

É uma praga secundária de maior importância na armazenagem de soja, milho, trigo, arroz, cevada e aveia, além de infestar frutos secos e nozes. Também é uma praga infestante de estruturas de armazenamento como moegas, máquinas de limpeza, elevadores, secadores, túneis, fundos de silos e caixas de expedição.

É praga que pode destruir grãos fendidos, rachados e quebrados, neles penetrando e atacando o germe. Consome grãos quebrados e restos de grãos e de farinhas, causando elevação na temperatura da massa de grãos e deterioração. Da mesma forma que O. surinamensis, aparece em grande quantidade em armazéns, após o tratamento com inseticidas, pois é tolerante a esses tratamentos. É necessário estudar e determinar o potencial de dano desse inseto, tendo em vista a facilidade de reprodução em massas de grãos armazenados e o nível de resistência aos inseticidas empregados.

 

Ephestia kuehniella (Lepidoptera: Pyralidae)

A traça-dos-cereais normalmente ocorre em todas as regiões do mundo. No Brasil, está distribuída em toda região produtora de grãos de Norte a Sul e de Leste a Oeste do país. Ocorre no armazenamento de produtos durante o ano todo, desde que haja oferta de alimento. São relatados no cacau, no fumo, nos frutos secos, nos vegetais desidratados, nos cereais e nas oleaginosas. Grãos e sementes de soja, milho, sorgo, trigo, arroz, cevada e aveia são preferidos, além de produtos elaborados, como biscoitos, barras de cereais e chocolates.

É uma praga secundária, pois as larvas se desenvolvem sobre resíduos de grãos e de farinhas deixados pela ação de outras pragas. Seu ataque prejudica a qualidade dos grãos e das sementes armazenadas, por causa da formação de uma teia em sua superfície ou mesmo nas sacarias, durante o armazenamento. Penetra no interior dos lotes de sementes, fazendo a postura nas costuras da sacaria. É responsável pela grande quantidade de tratamentos em termonebulização nas unidades, durante o período de armazenamento dos lotes de semente.

 

Expurgo de sementes

O expurgo ou fumigação é uma técnica empregada para eliminar pragas infestantes em sementes e grãos armazenados mediante uso de gás. Deve ser realizada sempre que houver infestação no lote, silo ou armazém. Esse processo pode ser efetuado nos mais diferentes locais, desde que observadas a perfeita vedação do local a ser expurgado e as normas de segurança para os produtos em uso. O gás liberado ou introduzido no interior do lote de sementes deve ficar nesse ambiente em concentração letal para as pragas. Por isso, qualquer saída ou entrada de ar deve ser vedada sempre com materiais apropriados, como lona de expurgo.

A fosfina é um biocida geral, um gás altamente tóxico, que é liberado na presença de umidade relativa do ar. Embora seu uso em sementes esteja sendo feito há muitos anos, apenas recentemente passou a ser empregado em sementes de soja, devido à presença de pragas durante o armazenamento. Todo manuseio da fosfina para realizar o expurgo deve ser feito com EPIs adequados (luvas, máscaras com filtro para gases tóxicos etc), mantendo sempre a segurança do operador. Tanto no momento de colocar as pastilhas de fosfina, quanto no momento de liberar o expurgo (retirar a lona ou abrir o silo), as pessoas devem estar protegidas com os EPIs, e o local deve estar ventilado. Especial cuidado deve-se ter ao retirar a lona do silo ou lote de sementes, pois existe alta concentração do gás fosfina, que deve ser ventilado imediatamente para que se dissipe e degrade na atmosfera com o oxigênio. O armazém deve estar com as portas abertas e com ventilação forçada para permitir a remoção do gás remanescente. É proibida a presença de pessoas sem EPI em armazéns onde estão sendo conduzidas operações de expurgo, devido ao iminente risco de intoxicação.

A distribuição do gás deve ser uniforme em todos os pontos da massa de grãos ou sementes a serem tratadas, controlando assim todas as pragas, nas suas diferentes formas do ciclo de vida. A taxa de liberação do gás fosfina (PH3) proveniente das pastilhas fumigantes, determinarão o tempo necessário para a mortalidade total das pragas e eficiência do processo de expurgo.

Em estudos de monitoramento da concentração de gás fosfina observou-se a liberação gradual e uniforme do gás fosfina ao longo do tempo, indicando que a reação de liberação do gás PH3, proveniente das pastilhas fumigantes, ocorreu atingindo concentrações elevadas até o final do experimento. Houve liberação de gás fosfina já a partir da 0,5 hora após introdução das pastilhas na câmara, aumentando lentamente até as 8 horas, e rapidamente após 24 horas de liberação, atingindo níveis superiores a 1.200ppm de gás PH3 após 72 horas. Esta concentração alta se manteve até o final do experimento a 240 horas da liberação das pastilhas fumigantes. A temperatura e umidade relativa do ar, durante todo período de avaliação, foram de 24ºC ± 1ºC e de 40% ± 5%, respectivamente, o que são consideradas de medianas a baixas para que ocorra a rápida liberação do gás fosfina proveniente das pastilhas fumigantes. Quando a temperatura do local a ser expurgado for inferior a 100C ou a umidade relativa do ar menor que  25%, desaconselha-se a realização do expurgo devido à dificuldade de ocorrer a reação de liberação do gás fosfina.

Para que um expurgo seja eficiente, ou seja, para que todas as fases de vida do inseto (ovo, larva, pupa e adultos) sejam eliminadas, a concentração de fosfina deve ser mantida por no mínimo em 400ppm por pelo menos 120 horas, e a distribuição do gás no interior do silo deve ser uniforme. Conforme estes autores, a concentração de fosfina, após a liberação das pastilhas, ficou acima de 400ppm a partir das primeiras 24 horas e manteve-se em todas formulações avaliadas neste patamar, até o final do experimento, as 240 horas.

Pesquisas desenvolvidas com sementes de soja com dois níveis de vigor determinado por meio do teste de tetrazólio, das cultivares Embrapa 48 (93% e 82%) e CD202 (69% e 62%), foram usadas concentrações 1g, 2g e 3g de PH3/m3, conseguidas pela aplicação de 3g, 6g e 9g do produto comercial. Diariamente, durante sete dias e a concentração do gás fosfina no interior de cada câmara foi monitorada através do medidor Silocheck. A concentração de fosfina se manteve nas câmaras durante todo o período do experimento, permitindo a exposição das sementes ao gás nas concentrações determinadas. Mesmo a dose mais baixa manteve a concentração superior aos 400ppm, que é a referência técnica de concentração mínima para a eliminação de todas as fases dos insetos-praga de sementes armazenadas.

Monitoramento da concentração de fosfina (PH3) durante o expurgo de sementes de soja. Fonte: Krzyzanowski et al (2012)
Monitoramento da concentração de fosfina (PH3) durante o expurgo de sementes de soja. Fonte: Krzyzanowski et al (2012).

A qualidade fisiológica da semente foi avaliada por meio dos testes de germinação comprimento de plântulas, comprimento do hipocótilo e envelhecimento acelerado, cujos resultados relatados na Tabela 1 não permitem detectar efeitos entre os tratamentos, significando que a fosfina não prejudicou a qualidade da semente.

Os testes de comprimento de plântulas e de hipocótilo que indicariam se houve toxidez da fosfina nas cultivares, em ambos os níveis de vigor, não detectaram nenhum efeito das concentrações de fosfina usadas nas sementes. 

 Médias seguidas pela mesma letra minúscula na coluna não diferem entre si pelo teste de  Scott-Knott, a 5% de probabilidade. Fonte: Krzyzanowski et al., (2012)
Médias seguidas pela mesma letra minúscula na coluna não diferem entre si pelo teste de Scott-Knott, a 5% de probabilidade. Fonte: Krzyzanowski et al., (2012)

Considerações

O expurgo de sementes de soja com fosfina pode ser realizado com um período de exposição de 168 horas sem que haja qualquer prejuízo na qualidade fisiológica.

O gás fosfina usado para o expurgo das sementes de soja, apesar de ser altamente tóxico, é bastante seguro para os operadores e eficaz no controle de todas as fases (ovo, larva, pupa e adultos) das pragas das sementes armazenadas.

O responsável técnico pelo armazenamento das sementes de soja deve seguir as recomendações técnicas preconizadas pelo Manejo Integrado de Pragas de Sementes Armazenadas (MIP Sementes), usando quando necessário o expurgo das sementes com fosfina. Este expurgo deverá obedecer à concentração mínima de 400ppm de fosfina em todos os locais onde foi realizado o tratamento, e um período mínimo nunca inferior a 120 horas de exposição ao gás.

A medição da concentração do gás fosfina durante o expurgo deverá ser feita com auxílio de equipamentos medidores destinados a este fim, já disponíveis no mercado brasileiro.

Lasioderma em Soja. - Foto: Adriana de Marques Freitas/Embrapa
Lasioderma em Soja. - Foto: Adriana de Marques Freitas/Embrapa
Lasioderma em Soja. - Foto: Adriana de Marques Freitas/Embrapa
Lasioderma em Soja. - Foto: Adriana de Marques Freitas/Embrapa


Irineu Lorini, Francisco Carlos Krzyzanowski, José de Barros França-Neto e Ademir Assis Henning, Embrapa Soja


Artigo publicado na edição 193 da Cultivar Grandes Culturas. 


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