Pragas também gostam de batata

A lavoura de batata é habitada por uma grande quantidade de espécies de insetos. A diversidade e quantidade variam de região para região, devido ao modo de cultivo, cultivares, clima, etc. No Sul do Brasil, embora constatem-se diversas espécies de pragas, a quantidade relativa é, em geral, pequena. Pragas extremamente graves e limitantes em outras condições, como a Traça da Batata e a Mosca Minadora, ainda não o são naquela região.

O dano direto de pragas na batata ocorre quando estas se alimentam: a) nas folhas (folíolos), com redução da área fotossintética; b) nas raízes e estolões, com redução da área de produção; c) nos tubérculos, com redução da produção quali-quantitativa. O dano indireto é devido à transmissão e à predisposição da planta para a incidência de doenças viróticas, bacterianas e fúngicas.

As principais pragas da parte aérea são a Diabrótica, Burrinho, Pulga, Traça, Pulgões, Mosca Branca, Mosca Minadora e Ácaros. São, geralmente, problemas locais e, sob certas condições, seja devido ao clima, à cultivar, ou ao sistema de plantio, constituem-se em um fator de redução econômica da produção. Portanto, não se pode pensar em uso generalizado de medidas de controle (inseticidas). Não há dúvidas de que a tomada de decisão para o controle de pragas aéreas através de inseticidas tem que ser baseada na constatação e no monitoramento da lavoura.

Embora não se tenha determinado os níveis econômicos e, consequentemente, os níveis de controle para as pragas da parte aérea da batata, pelo menos a constatação e extensão da presença na área da lavoura devem ser os determinantes para a tomada de decisão e de ação de controle.

Pragas de solo

As principais pragas que atacam o sistema radicular (raízes, estolões e tubérculos) da batata são as larvas de vaquinhas (Diabrotica speciosa, Cerotoma spp), da pulga (Epitrix spp), o bicho-arame (Heteroderes spp), a lagarta-rosca (Agrotis spp), o coró (Dyscinetus spp, Diloboderus abderus), além dos nematóides causadores de galhas (Meloidogyne spp).

O dano causado pelas pragas de solo, geralmente, é uma perda de qualidade na aparência do tubérculo, embora quando ocorre prematuramente nos estolões e tubérculos, soma-se à considerável redução de produção.

Em geral, o mercado de batata está cada vez mais exigente quanto à aparência do produto, incluindo a quase total ausência de furos e de outras lesões no tubérculo. Atualmente o produtor tem que recorrer ao uso de inseticidas protetores do sistema subterrâneo da planta para minimizar chances de ataque e dano no tubérculo. Outras técnicas de controle das pragas subterrâneas, embora estudadas, ainda não têm o uso difundido. A seguir abordamos as duas principais pragas de solo da batata, com resumo dos resultados experimentais com inseticidas de solo realizados na Embrapa Clima Temperado.

Vaquinha na parada

Os adultos da Vaquinha, a Diabrotica speciosa (Coleoptera: Chrysomelidae), são besouros com corpo oval, cor verde, seis manchas amarelas nas asas, três em cada lado. Praga extremamente polífaga, ataca mais de 30 culturas, incluindo feijão, milho, abóbora, melancia, melão, pepino, tomate e frutíferas, entre outras. Possui atividade durante todo o ano e sua quantidade dependerá da presença do hospedeiro e temperatura. A população aumenta a partir de agosto e decresce após maio, no sul do Brasil, por exemplo.

O ciclo de vida é longo e depende do hospedeiro onde se desenvolve. Em batata é de cerca de 40 dias no plantio da primavera e 50 dias no de outono. Desenvolve várias gerações anuais, em um só ou múltiplos hospedeiros. Pode ser de até duas na batata no ciclo de primavera e de uma ou duas incompletas no ciclo de outono.

Os adultos atacam somente a folhagem, consumindo os folíolos. Ainda não se conhece o dano econômico que isto possa causar em cultivares de batata. Sabe-se, entretanto, que quando o ataque de adultos da vaquinha ocorre no inicio do ciclo de desenvolvimento da planta a perda provável é pequena, porém se acontece no meio do ciclo, pode haver redução na produção, não tendo influência alguma na fase final do ciclo.

Suas larvas têm corpo alongado, cor branco-creme, com pêlos, cabeça preta e uma placa preta na extremidade posterior. As larvas atacam e causam dano somente nos estolões e tubérculos da batata. Os estolões são os órgãos responsáveis pela formação do tubérculo. A larva da vaquinha ataca justamente a ponta do estolão, impedindo que se forme o tubérculo. É certo que certas cultivares (ex. Macaca) possuem maior quantidade de estolões emitidos, que podem compensar a formação de tubérculos na planta.

Há dados experimentais que demonstram a influência do plantio de culturas antecedentes na área do plantio de batata. As culturas que diminuíram a incidência de ataque no tubérculo foram alho, cebola e milho, quando comparadas com o feijão, soja, batata e o pousio. Não há dados convincentes que suportem a necessidade de destruir restos culturais de qualquer cultura plantada antes ou da própria batata. Todavia, sempre que possível, deve-se incorporar os restos culturais da melhor maneira.

Bicho Arame também é praga

Os adultos do Bicho Arame (Heteroderes spp.) são besouros de corpo alongado e achatado, coloração variando de marrom a marrom escuro. A característica destes besouros é que podem saltar e voltar à posição normal, quando colocados de costas. As larvas têm forma típica, corpo alongado e achatado, de cor marrom alaranjado e aspecto brilhante do tipo vitrificado.

Os bichos arame são polífagos, atacando inúmeras culturas, tais como a batata-doce, cenoura, beterraba e resto de culturas e plantas expontâneas que fiquem ou estejam no solo. O ciclo de vida destes insetos é longo. As larvas levam cerca de três meses para se desenvolverem completamente.

Os adultos são muito ativos durante a noite. Durante o dia, se refugiam sob parte das plantas e em fendas no solo, por exemplo. Conseqüentemente, o acasalamento e a postura acontecem durante a noite. Os ovos são colocados em cavidades no solo, embaixo de restos vegetais ou em fendas no solo. A maioria dos ovos são colocados em grupos.

As larvas atacam os tubérculos da batata, causando furos arredondados e profundos.

As larvas se desenvolvem melhor em solos com umidade alta. Quando o solo está demasiado seco, elas procuram mais o tubérculo, causando maior dano. Assim, em safras com estiagem e períodos de seca, o dano do bicho arame pode ser maior. A temperatura do solo é outro fator importante, influindo na distribuição vertical das larvas arame. Quanto mais quente, mais no fundo estarão as larvas, atacando os tubérculos nesta posição.

O ataque de bicho arame não é uniforme na área da lavoura, mas em manchas, onde haja condições mais propicias para o desenvolvimento. Acredita-se que a umidade seja mais decisiva.

Controlando as pragas

O controle destas duas pragas com inseticidas de solo tem sido a forma mais usada e eficiente no momento. Existem poucos produtos disponíveis no mercado brasileiro recomendados para este fim. Alguns produtos propiciam resultados mais constantes e melhores, dependendo das condições locais.

Outra variável importante foi a safra de plantio. Na safra de primavera, os inseticidas propiciaram melhor proteção dos tubérculos do que na safra de outono, conforme se constata na tabela 2.

Recentemente, desenvolvemos um experimento onde foram avaliados os produtos comerciais disponíveis no mercado e dosagens recomendadas para uso no solo na cultura da batata. A intenção foi de avaliar em conjunto e comparativamente todos estes produtos, propiciando ao produtor a possibilidade de melhor avaliar o desempenho do inseticida de sua escolha na lavoura de batatas.

O produtor de batata, sem dúvida, tem à disposição opções de escolha de produtos, haja vista que a maioria propiciou mais de 75% de controle destas duas pragas. È importante ressaltar, mais uma vez, que a análise destes resultados teve por base o nível de sete furos médios por tubérculo de batata (tubérculo retido na peneira de 5,0 x 5,0 cm). Se o mercado de destino da batata for mais exigente na aparência, estes resultados poderão ter reservas.

José Antônio Salles
Embrapa Clima Temperado

* Este artigo foi publicado na edição número 05 da revista Cultivar Grandes Culturas, de junho de 1999. ver mais artigos
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