Preceitos básicos da agricultura de precisão no Brasil

A adoção de Agricultura de Precisão no Brasil avança em marcha acelerada. No entanto, a massificação da adoção dessas técnicas ainda esbarra no correto entendimento dos preceitos básicos e na disponibilidade de gente com essa bagagem de conhecimento para atuar no setor.

A agricultura de precisão (AP) tem sua origem na gestão da variabilidade espacial das lavouras, como um grande desafio e avanço que a agricultura deste início do século 21 precisa perseguir. A razão é simples: se há variabilidade (e há), ainda há espaço para se melhorar o que é feito hoje, simplesmente espacializando o amplo conhecimento que se utiliza na condução das lavouras.

Essas estratégias podem ser praticadas em diferentes níveis de complexidade e com diferentes abordagens. No Brasil a prática predominante é o gerenciamento da adubação (fertilizantes e corretivos) das lavouras com base em amostragem georreferenciada de solo, ou em grade. A aplicação de calcário, gesso, fósforo e potássio em taxas variáveis, com base nos mapas, tem tido grande apelo comercial porque, num primeiro momento, as maiores chances estão na racionalização do uso dos insumos com a aplicação destes na quantidade e no local certos dentro de cada talhão. Com a realocação, são diminuídos os desequilíbrios e como consequência a produtividade das culturas tende a melhorar, justamente porque a “Lei dos Mínimos” é agora especializada, na forma de mapas.

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No entanto, quanto mais dados, mais consistente é a informação gerada e o consequente diagnóstico referente à variabilidade existente nas lavouras. Dessa forma, dados de produtividade expressos por mapas são fundamentais. A interpretação da variabilidade presente nas lavouras, evidenciada nos mapas de produtividade, implica uma relação entre causas e efeito. A explicação para os fatos é a tarefa mais desafiadora, na qual devem ser identificados os fatores que podem causar as baixas produtividades onde elas se manifestarem. Em muitos casos as baixas produtividades observadas em determinadas regiões de um talhão podem estar associadas a aspectos que estão totalmente fora da nossa capacidade de intervenção, como é o caso da variabilidade da textura do solo. Nesses casos a solução é tratar as regiões de baixa produtividade de acordo com o seu baixo potencial, com menor aporte de insumos, visando obter lucro, mesmo que com baixa produtividade. Já, as regiões de maior potencial produtivo das lavouras devem receber um aporte maior de insumos, visando explorar o limite do seu potencial.

Ao se analisar especificamente a estratégia da amostragem de solo em grade se percebe uma sensível diversidade de procedimentos por parte de executores e de prestadores de serviço, nem sempre alinhados com os conceitos já estabelecidos. As amostragens de baixa densidade sabidamente geram mapas de diagnósticos cheios de incertezas. Por consequência, os mapas de recomendações também carregarão essas incertezas, o que é muito preocupante. Há muito ainda por se fazer e esperam-se boas notícias referentes à disponibilização de técnicas de sensores que permitam o adensamento de dados para auxiliar no diagnóstico da variabilidade das lavouras.

Além disso, deve ser dada importância às demais práticas, como tratamento localizado de plantas invasoras, pragas e doenças, num contexto moderno que contempla a aplicação minimizada de insumos visando a economia e o menor impacto ambiental possível. Aliás, essa área da AP tem evoluído muito pouco.

A marcha de adoção de AP avança, em especial a amostragem de solo para aplicação localizada de insumos e o uso de tecnologias embarcadas nas máquinas, a exemplo dos sistemas de direção automática (piloto automático) em tratores, colhedoras e pulverizadores. Mesmo assim, são grandes os desafios para a massificação da adoção dessas técnicas para os próximos anos e provavelmente o maior deles é o correto entendimento dos preceitos básicos e a disponibilidade de gente com essa bagagem de conhecimento para atuar no setor. E como era de se esperar, já surgem novos desafios, como o uso mais intenso de coleta de dados, especialmente pela viabilização crescente da comunicação entre a máquina e o gestor (via telemetria) e pelas várias vertentes do sensoriamento em diferentes níveis de aquisição. Isso está fomentando a formação do “BigData” do agro, porém ainda bastante compartimentado, em formatos diferentes para cada criador de dados, o que nos exigirá a organização que ordene tudo isso para que o usuário possa ter proveito sem se sentir ameaçado ou “inundado” por essa aparente abundância de dados.

Quanto aos números do mercado, enquanto outras soluções não se materializam, temos que ir em busca das empresas especializadas que se dedicam a levantamentos para a geração de perfis demandados por setores específicos do mercado. Foi assim que chegamos aos dados obtidos pela empresa de informação estratégia de mercado do agronegócio Kleffmann Group, em 2013, numa das suas campanhas de levantamento de dados endereçados aos seus clientes. A empresa cordialmente se dispôs a nos ceder os dados para que fossem apresentados no InfoAg 2016, em St. Luis, EUA. Foram juntados dados que mais interessam à grande comunidade e que certamente ajudam a visualizar e entender algumas das tendências do segmento de AP no Brasil. Vamos aos dados.

O trabalho foi realizado com o intuito de entender o mercado de equipamentos e técnicas de AP, focando em produtores de soja e milho que participam da tomada de decisão de compra de máquinas e implementos agrícolas. Para tanto foram realizadas 992 entrevistas telefônicas, sendo 429 entrevistas no Sul, 415 no Cerrado e 148 na região conhecida como Mapitoba. As entrevistas foram realizadas entre os dias 31 de agosto e 30 de setembro de 2013, portanto os dados que serão aqui apresentados e discutidos não incluem aqueles referentes a 2013. A margem de erro dos valores totais é de 3% para o Sul, o Cerrado é de 5% e para a região do Mapitoba é de 8%. A Figura 1 mostra a distribuição geográfica das entrevistas e o perfil de produção dos municípios envolvidos.

Figura 1 - Distribuição geográfica das entrevistas e o perfil de produção dos municípios envolvidos
Figura 1 - Distribuição geográfica das entrevistas e o perfil de produção dos municípios envolvidos

A amostra representa os produtores das culturas foco, e não somente os usuários de agricultura de precisão ou proprietários de determinadas marcas de máquinas agrícolas. A Figura 2 caracteriza o perfil dos produtores quanto às culturas com as quais trabalham e a Figura 3 apresenta a combinação de máquinas disponíveis nas propriedades.

 Figura 2 - Perfil dos produtores a partir das culturas com as quais vêm trabalhando (% sobre o total de entrevistados)
Figura 2 - Perfil dos produtores a partir das culturas com as quais vêm trabalhando (% sobre o total de entrevistados)
Figura 3 – Combinações de sistemas mecanizados disponíveis nas propriedades entrevistadas
Figura 3 – Combinações de sistemas mecanizados disponíveis nas propriedades entrevistadas

Obviamente a soja está presente em 99% das propriedades e o milho de segunda safra tem destaque no Cerrado, enquanto que o milho de verão é destaque no Sul e na região do Mapitoba. Quanto ao perfil da mecanização dos entrevistados, no Sul destaca-se o fato de que 26% deles não possuem a colhedora no seu plantel, entendendo-se que utilizam a terceirização da colheita.

Analisando-se inicialmente a AP voltada à gestão da variabilidade espacial das lavouras, a resposta dos entrevistados nos leva a alguns dados interessantes e ao mesmo tempo conflitantes, do ponto de vista do usuário e do seu entendimento sobre tudo isso (Figura 4). Quando perguntado se utiliza alguma técnica de AP na propriedade, 45% deles responderam afirmativamente e destes, 79% afirmam que fazem mapeamento para fins de gestão da fertilidade do solo.

Porém quando indagados sobre a forma de amostragem, 43% destes afirmam utilizar amostragem georreferenciada (em grade). Isso nos leva a um universo de 15,3% deles que realmente utilizam as técnicas de amostragem de solo com vistas à obtenção de mapas para o diagnóstico da variabilidade espacial dos atributos da fertilidade do solo.

Não deixa de ser um nível expressivo de adoção da técnica mais conhecida no mercado nacional. Se considerarmos que estamos tratando de um total de aproximadamente 59 milhões de hectares, esse montante chega a nove milhões de hectares já submetidos a essa técnica. O que não se tem disponível, e haverá a necessidade de entendermos, é qual parcela dessas áreas que tem sido submetida a reamostragens.

A estratificação por região indica que no Sul são 12%, no Cerrado são 17% e na região do Mapitoba são 21% dos produtores que utilizam as técnicas de amostragem de solo. No entanto, quando perguntados sobre o tamanho das grades amostrais (Figura 5), observa-se uma certa distorção quanto ao correto entendimento e à condução desses trabalhos de amostragem. No Sul, 26% dos entrevistados dizem utilizar grades maiores que 3ha. No Cerrado esse número sobe para 50% e na região do Mapitoba o valor atinge 58%.

Os que dizem fazer a aplicação de fertilizantes em doses variáveis já estão vinculados a esse grupo. No entanto, é necessário explorarmos melhor o entendimento dos agricultores de que 28% daqueles 45% praticam a técnica de populações variadas de sementes e 30% deles praticam pulverizações em doses variáveis; isso resulta em 12,6% e 13,5% do total, respectivamente. Ao que se sabe, são técnicas que exigem um elevado grau de monitoramento para um diagnóstico e geração de recomendações e não é essa a percepção que se tem do mercado.

Figura 4 – Nível de adoção de técnicas de AP relacionadas com a variabilidade espacial das lavouras e de amostragem de solo em grade
Figura 4 – Nível de adoção de técnicas de AP relacionadas com a variabilidade espacial das lavouras e de amostragem de solo em grade
Figura 5 – Tamanho das grades amostrais, em hectares, praticadas em cada região
Figura 5 – Tamanho das grades amostrais, em hectares, praticadas em cada região

Na outra grande frente da AP, que trata dos componentes de monitoramento das operações e de automação das máquinas (Figura 6), a pesquisa mostra que o uso de piloto automático, de fato, é a tecnologia mais adotada e chega a 60% dos entrevistados. No entanto, 88% deles utilizam apenas sinal aberto (Figura 7), sem correção diferencial, o que não combina com a tecnologia que afirmam estar utilizando. Interessante é que 31% dos informantes dizem ter monitor de produtividade nas suas colhedoras, o que indica que deveríamos ter mais mapas de colheita sendo gerados para o bom e correto entendimento da variabilidade espacial das lavouras.

Figura 6 – Frequência de adoção de tecnologias para o monitoramento das operações e de automação das máquinas
Figura 6 – Frequência de adoção de tecnologias para o monitoramento das operações e de automação das máquinas
Figura 7 -  Tipos de sinal GNSS utilizados
Figura 7 - Tipos de sinal GNSS utilizados

Na Figura 8 observa-se que as opiniões dos produtores quanto a decidir pela adoção de técnicas e tecnologias de AP são focadas na expectativa de aumento da produtividade e de redução do custo de produção. Quando perguntados se pretendem continuar investindo em novas tecnologias (Figura 9), 58% deles responderam afirmativamente e os itens de maior destaque são justamente aqueles relacionados à adubação e à semeadura em doses variáveis, portanto relacionados à variabilidade espacial das lavouras.

Figura 8 – Razões pessoais para o uso de técnicas e tecnologias de AP
Figura 8 – Razões pessoais para o uso de técnicas e tecnologias de AP
Figura 9 – Indicação do produtor quanto à intensão de investir em novas tecnologias
Figura 9 – Indicação do produtor quanto à intensão de investir em novas tecnologias

Numa visão histórica, desde o início da década passada, dos dados de aquisição das tecnologias mais conhecidas dentro da AP (Figura 10), observam-se alguns movimentos interessantes. O mercado de barras de luzes, por exemplo, já havia passado por uma etapa que não é coberta por este levantamento. Entre os anos de 1997 e 2000, aproximadamente, a frota nacional de aviões agrícolas foi equipada com barras de luzes. As versões para aplicações terrestres entraram no mercado a partir de 2000/01 e eram predominantemente vendidas como equipamentos avulsos. Os dados mostram que houve uma primeira onda de aquisições até 2005/06 e depois observa-se uma segunda onda que ainda não mostrava inflexão até 2012, já com muitos equipamentos casados com a compra das máquinas. No entanto, sabe-se que com a popularização das soluções de pilotos automáticos, é de se esperar que a procura por barras de luzes diminua.

O monitor de semeadoras é um equipamento já conhecido no mercado desde antes do surgimento da própria AP, mas observa-se que a sua aceitação também é recente. Os dados indicam que os agricultores os têm adquirido como equipamento avulso ou embarcado na própria semeadora em proporções semelhantes.

Os controladores de taxas variáveis de sólidos e de líquidos seguem uma tendência de aquisição por parte dos produtores, crescente a partir da segunda metade da década de 2000, mas com oscilações. Os controladores têm sido adquiridos separadamente ou montados nas máquinas, também em proporções semelhantes.

Do ponto de vista da tecnologia, os controladores para semeadura em doses variadas são os mesmos de taxas variáveis. Aqui são analisados em separado e observa-se que tiveram aceitação a partir de 2008 e estão predominantemente associados à compra das semeadoras.

Já os monitores de colheita, com ligação umbilical com a AP, indicam uma adoção crescente e acelerada a partir do final da década passada. E como é de se esperar, predominam (89%) aquisições de equipamentos já embarcados nas colhedoras.

Figura 10 - Evolução histórica do mercado e forma de atrelamento da tecnologia à máquina
Figura 10 - Evolução histórica do mercado e forma de atrelamento da tecnologia à máquina

A adesão aos sistemas de piloto automático na área de grãos, diferentemente da cana, só se iniciou no final da década de 2000.

Na Figura 11 observa-se que na região do Mapitoba ocorre maior concentração numérica desses equipamentos por propriedade do que no Cerrado. Embora haja uma certa predominância dos pulverizadores autopropelidos (Figura 12), os sistemas de piloto automático equipam tratores médios, grandes e também colhedoras. Quando perguntados sobre as razões que levaram à aquisição dessa tecnologia (Figura 13), os produtores indicam o ganho de produtividade como o fator mais destacado, seguido da redução de custos, modernização e redução do uso de insumos, com proporções semelhantes. 

Figura 11 - Distribuição geográfica e quantidades de pilotos automáticos adquiridos
Figura 11 - Distribuição geográfica e quantidades de pilotos automáticos adquiridos
Figura 12 – Equipamentos nos quais os pilotos automáticos estão instalados
Figura 12 – Equipamentos nos quais os pilotos automáticos estão instalados
Figura 13 – Os benefícios considerados pelos produtores na adoção de sistemas de piloto automático
Figura 13 – Os benefícios considerados pelos produtores na adoção de sistemas de piloto automático

Na Figura 14 observa-se que no Sul do Brasil a grande maioria dos produtores (81%) tem apenas um monitor, ou uma colhedora, lembrando que 26% deles informaram não possuir a colhedora. Já no Cerrado e na região do Mapitoba há a indicação da presença de frotas de colhedoras equipadas com monitores.

Figura 14 – Distribuição geográfica e quantidades de monitores de colheita adquiridos
Figura 14 – Distribuição geográfica e quantidades de monitores de colheita adquiridos

O acesso a estes dados nos permite uma visão numérica do que tanto desejávamos ter, mas sabemos que não é suficiente e que precisamos de muito mais empenho para que dados sejam gerados e disponibilizados. Um dos grandes interessados, mas não o único, é a indústria de soluções e serviços em AP, que pode ser chamada a colaborar de forma cooperativa no sentido de termos um esforço conjunto para que periodicamente se produzam dados atualizados sobre as tendências do setor no País. Paralelamente a dados sigilosos, haverá aqueles que podem ser sistematicamente disponibilizados ao grande público. Certamente há outras formas e caminhos, mas esta nos parece a mais próxima da realidade atual.


José Paulo Molin, Laboratório de Agricultura de Precisão, USP-Esalq


Artigo publicado na edição 175 da Cultivar Máquina

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