Prejuízos causados pela lagarta-do-cartucho e como manejar

Os prejuízos causados por insetos na cultura do milho preocuparam os agricultores brasileiros na safra 2013. Apesar de investimentos,em mais de 70% do total semeado em milho transgênico na última safra (há cinco safras esse percentual não chegava a 15%),houve perdas provocadas por lagartasquecomprometeram significativamente a produtividade da cultura, com destaque para a lagarta-do-cartucho (Spodopterafrugiperda).

No Brasil, a lagarta-do-cartucho foi considerada praga na década de 60 devido ao surto nas culturas do milho, arroz e pastagens, sendo que os métodos de controle empregados pelos agricultores, naquela oportunidade, não foram eficientes. Desde então, a dificuldade no controle da praga se tornou uma rotinacom custo superior a 600 milhões de dólares na safra brasileira de 2009. Atualmente, estima-se que a lagarta-do-cartucho seja responsável por 25% dos prejuízos causados por insetos nos cultivos de milho.

O surgimento de híbridos de milho transgênicos criou a expectativa de reduzir os problemas com a lagarta-do-cartucho. Entretanto, sem as prevenções adequadas os riscos de haver quebra de resistência na tecnologia Bt é alto. O plantio de áreas de refúgio com plantas isogênicas (não Bt)tem sido proposto como uma das principais medidas para reduzir a velocidade de crescimento de populações resistentes aos transgênicos. Esta estratégia tem o objetivo de favorecer a reprodução de insetos suscetíveis com possíveis insetos resistentes originados da área Bt, gerando populações suscetíveis.

Apesar das explicações técnicas sobre a razão da área de refúgio, a sua efetiva utilização ainda é muito baixa no Brasil. Esta situação pode ser justificada em decorrência de não haver clareza sobre como conduzir áreas de refúgio, principalmente no que diz respeito ao controle de pragas-alvo. Porém, permanece essencial realizar as boas práticas agronômicas e aplicar os preceitos do manejo integrado de pragas (MIP)em qualquer cultivo, o que inclui as áreas de refúgio.De toda forma,a manutenção da produtividade e da rentabilidade da cultura do milho, mesmo que transgênico ainda requer o uso de produtos fitossanitários, mesmo que somente nas áreas de refúgio.

Por outro lado, as aplicações de inseticidas para o controle da lagarta-do-cartucho têm sido pouco eficientes, em que inseticidas antes empregados com sucesso agora não têm mostrado a mesma eficácia. Entretanto,isto por vezes se deveao emprego de técnicas de aplicação inadequadas que, por não atingirem corretamente os alvos, favorecem a seleção de indivíduos resistentes a várias classes de inseticidas. Isto inclui desde dosagens inadequadas até a baixa qualidade da distribuição de gotas de pulverização sobre os cultivos.

É fundamental aconsciência de que a pulverização pode determinar a ação ou não de produtos comprovadamente eficientes. Portanto, o conhecimento da tecnologia de aplicação torna-se um aliado vital do agricultor quando o controle químico da lagarta-do-cartucho se faz necessário nos cultivos.

Requisito básico para obter eficácia em aplicações de inseticidasé a escolha correta dos modelos de pontas de pulverização,também chamadas popularmente de bicos de pulverização. Estes itenssãoresponsáveis por determinaro tamanho e a distribuição das gotas pulverizadas e, consequentemente, a cobertura do alvo requerido pela aplicação.

De maior adoção pelos agricultores, as pontasde pulverização que produzem gotas finas, geralmente, promovem boa cobertura superficial. Porém, essas gotas podem evaporar em condições de baixa umidade relativa do ar ou mudar sua trajetória com a ação do vento, resultando em deriva do produtoaplicado. Vários pesquisadores consideram que gotas com menosde 100 µm dediâmetro (unidade adotada para aclassificação do tamanhode gotas) são mais facilmente carregadas pelo vento e sofrem intensamente a ação dos fenômenos climáticos.

No caso de serem produzidas gotas muito grossas,não ocorre boa cobertura da superfície, tampouco boa uniformidade de distribuição e deposição em pulverizações em área total. Por outro lado, é recomendado o uso de gotas grossas em condições ambientais desfavoráveis, como temperaturas elevas, umidade relativa do ar baixa e ventos acima de 6 km/h.

No geral, a importância do tamanho das gotas produzidas pelas pontas de pulverização cresce em função da dificuldade de alcance do alvo e das condições ambientais no momento das aplicações, devendo ser considerados os riscos de perdas por evaporação e deriva.

Outro aspecto importante é o volume de aplicação. Em aplicações via líquida, é usual classificar o processo em função do volume de calda aplicado por hectare (litros/hectare).Atualmente,há a demanda do setor produtivo para reduzir o volume de caldanas pulverizações. A partir de menores volumes há menos transporte de água ao campo e menor número de paradas para reabastecimento do pulverizador, por consequência, há aumento da capacidade operacional do equipamento de aplicação e diminuição dos custos de produção.

No entanto, quando o assunto é volume de aplicação é comum que agricultores e técnicos tenham dúvidas em como defini-lo. Em linhas gerais, o volume adequado pode ser definido como a quantidade de calda necessária para proporcionar a máxima cobertura de gotas com o mínimo de escorrimento, em função do equipamento ou técnica de pulverização utilizada, proporcionando controle do alvo.

No caso da lagarta-do-cartucho,a maior dificuldade encontra-se em adequar o volume de aplicação para atingí-la com o produto, devido às lagartas migrarem e permanecerem protegidas no cartucho das plantas de milho, em que grande parte da calda inseticida não atinge o alvo.

Por isso, o manejoda lagarta-do-cartucho em cultivos de milho não tem se mostrado uma tarefa fácil. Diante da evolução da resistência desteinsetoa cultivos de milho Bt e a inseticidas, a qual compromete qualquer programa de manejo integrado de pragas, fica evidenciada a importância do conhecimento emtecnologia de aplicaçãopara o seu manejo, com sustentabilidade econômica, ambiental e social desta importante cultura.


Este artigo foi publicado na edição 142 da revista Cultivar Máquinas. Clique aqui para ler a edição.

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Henrique Borges Neves Campos; Marcelo da Costa Ferreira; Sérgio Tadeu Decaro Júnior

FCAV/ UNESP, Jaboticabal

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