Prejuízos e comportamento da Helicoverpa zea e Helicoverpa armigera em milho

Um dos fatores que pode afetar a produção de milho reside na incidência de insetos-praga, capazes de acarretar prejuízos à lavoura. Nos últimos anos produtores agrícolas tem enfrentado esse tipo de problema, com destaque para as lagartas do gênero Helicoverpa que estão atacando intensamente a cultura do milho, independentemente se as plantas são transgênicas ou convencionais. Duas espécies de lagartas deste gênero tem causado danos no milho: Helicoverpa zea e Helicoverpa armigera.

O desenvolvimento biológico destas pragas passa pelas fases de ovo, lagarta, pupa e adulto. O ciclo de vida de H. zea dura em torno de 40 a 45 dias. O adulto deste inseto é uma mariposa de coloração cinza-esverdeada com aproximadamente 40mm de envergadura, com as asas anteriores de coloração amarelo-parda, com uma faixa transversal mais escura, apresentando também manchas escuras dispersas sobre as asas. As asas posteriores são mais claras, com uma faixa nas bordas externas. A fêmea oviposita em qualquer parte da planta, porém sua preferência é para os estilo-estigmas. Os ovos são esféricos com saliências laterais e colocados individualmente. Após 3 a 4 dias, eclodem as lagartas que possuem coloração variável, de verde a preto com listras longitudinais. À medida que se desenvolvem, penetram no interior da espiga e começam a destruição dos grãos em formação. Desenvolvem-se em um período de 13 a 25 dias. No final do período larval, as lagartas deixam a espiga e vão para o solo, onde se transformam em pupa. Este período dura aproximadamente 10 a 15 dias dependendo da temperatura. Após, emerge o adulto, sendo que esta fase dura de 12 a 15 dias. Cada fêmea tem capacidade de ovipositar em média 1000 ovos.

Já o ciclo de vida deste inseto, varia de 35 dias a 75 dias, dependendo da temperatura. A postura é realizada preferencialmente na face adaxial das folhas ou sobre flores, frutos e brotações terminais com superfícies pubescentes de forma isolada ou em pequenos grupos de ovos; normalmente durante o período noturno. Os ovos recém ovipositados apresentam coloração que varia de branco-amarelada com aspecto brilhante (possui forma de nervuras longitudinais) a marrom escuro próximo da eclosão. A incubação do ovo é de 3 dias com temperatura de 25°C e até 11 dias para temperaturas baixas. Na fase larval H. armigera passa por seis distintos instares. O período larval pode variar de 14 a 21 dias. As lagartas possuem coloração variável. As pupas geralmente são encontradas no solo, mas podem também ser localizadas em espigas de milho. Apresenta coloração marron-mógno e superfície arredondada nas partes terminais. O período pupal é de aproximadamente 10 a 14 dias. No entanto, a fase de pupa pode prolongar-se por vários meses, pois este inseto pode entrar em diapausa devido às condições climáticas. Os adultos machos de H. armigera possuem asas dianteiras cinza-esverdeadas com uma banda ligeiramente mais escura no terço distal e uma pequena mancha escurecida no centro da asa. Já as fêmeas apresentam asas dianteiras amareladas. Nas asas posteriores é possível observar uma borda marrom no ápice, além de serem mais claras. O tamanho dos insetos adultos é de aproximadamente 35mm a 40mm. Os adultos vivem cerca de 9,2 a 11,7 dias, sendo que as fêmeas vivem mais que os machos. Uma fêmea pode colocar até 3.000 ovos e a oviposição ocorre entre 2 a 6 dias após a emergência.

As lagartas de H. zea atacam os estigmas, impedindo a fertilização e, em consequência, surgirão falhas. Alimentam-se de grãos leitosos, os destruindo e finalmente, os orifícios deixados pelas lagartas nas espigas, por ocasião da fase de pupa, facilitam a penetração de microrganismos que podem causar podridões. Já as lagartas de H. armigera se alimentam de brotos, inflorescências, frutos, vagens, espigas, folhas e caules, causando injúrias tanto na fase vegetativa quanto reprodutiva de várias espécies de plantas de importância econômica. H. armigera e H. zea são insetos extremamente polífagos, com capacidade de desenvolver e se alimentar em uma ampla gama de hospedeiros, tais como solanáceas, leguminosas, frutíferas e hortaliças. Esta característica tende a favorecer o sucesso desta praga. Além disso, H. armigera possui alta mobilidade local das lagartas, migração das mariposas e alta fecundidade. Estas características biológicas permitem a sobrevivência dessa praga em ambientes instáveis e a adaptação a mudanças sazonais do clima.

Na safrinha de milho de 2013 foi registrado um grande surto de lagartas de H. armigera nas principais regiões produtoras. Talvez a maior já registrada desde o início da comercialização das sementes de milho geneticamente modificado (Bt) no Brasil. Na região de Campo Mourão, no oeste do Paraná, foi verificada alta incidência de lagartas de Helicoverpa spp., provocando danos em plantas de milho Bt. Em algumas regiões dos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, vários produtores de milho safrinha também relataram a ocorrência de lagartas de Helicoverpa spp. sendo observada certa preferência do inseto por materiais que apresentavam espigas com estigmas claros. Vale ressaltar que a perda mundial provocada pelo ataque de lagartas de H. armigera, nas diferentes culturas incluindo o milho, atingem anualmente 5 bilhões de dólares. Estima-se que as perdas causadas por H. zea superem os 10%  (embora ainda sem comprovação).

Importância do milho (box)

O milho é o terceiro cereal mais cultivado no mundo. Sua importância econômica se deve às diversas formas de sua utilização, que vai desde a alimentação animal até a indústria de alta tecnologia. Aproximadamente 70% da produção mundial de milho é destinada à alimentação animal, podendo este valor chegar a 85%, em países desenvolvidos. Logo, 15% de toda a produção mundial destina-se ao consumo humano. Além da sua importância econômica a cultura do milho é importante para a viabilidade de outras culturas por meio da rotação de culturas (CIB, 2006). No Brasil, a área anual cultivada com milho é de aproximadamente 15,5 milhões de hectares e a produção brasileira atinge 80,5 milhões, o que coloca o país como o terceiro no ranking mundial de área colhida (FAO, 2013).

 O artigo está presente na edição 189 da Cultivar Grandes Culturas. 

 



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Flávio Lemes Fernandes; Flávia Maria Alves

Universidade Federal de Viçosa

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