Preparo de solo x Estabelecimento da cultura

Na cultura do feijão, o preparo periódico do solo proporciona diversos efeitos para seu estabelecimento, podendo ser citada a distribuição longitudinal de sementes e a velocidade de emergência de plântulas.

Devido ao aumento de estudos e avanços tecnológicos que facilitam o cultivo do feijão, e o bom mercado consumidor, a utilização em sistemas de rotações de culturas que visam à melhoria do ambiente agrícola, o grão, que antes era considerado de subsistência sendo cultivado por pequenos a médios produtores, se tornou interessante, também, para grandes produtores rurais. De acordo com Botelho et al. (2018), além de maior produtor, o Brasil é o maior consumidor dessa leguminosa, apresentando uma produção anual de aproximadamente 2,8 milhões de toneladas.

A cultura do feijão (Phaseolus vulgaris) apresenta grande importância no cenário nacional. Na safra 2017/2018 foram plantados mais de três milhões de hectares (Conab, 2018). A produtividade da cultura no Brasil teve uma média de 1.095 kg ha-1, porém algumas regiões obteve média de 2.455 kg ha-1 na safra 2016/2017 (Conab, 2017). Essa diferença de produtividade pode ser explicada pelo fato de pequenos produtores cultivarem o grão para a subsistência.

Figura 1 - Identificação das parcelas úteis em que foram realizadas as avaliações.
Figura 1 - Identificação das parcelas úteis em que foram realizadas as avaliações.

Para que a produção atinja resultados significantes, é necessário o cuidado constante desde o preparo do solo até a colheita. O preparo do solo deve ser feito de forma eficiente para garantir as melhores condições de desenvolvimento e estabelecimento da cultura. Um bom preparo de solo e uma boa semeadura proporcionam à semente melhor contato com o solo, consequentemente, uma melhor absorção de água e nutrientes, garantindo eficácia na germinação e emergência.

Figura 2 - Operação de semeadura do feijão.
Figura 2 - Operação de semeadura do feijão.

No preparo convencional do solo ocorre o revolvimento de camadas superficiais para reduzir a compactação, incorporação de corretivos e fertilizantes, aumento dos espaços porosos e, assim, elevação da permeabilidade e do armazenamento de ar e água (Santiago & Rossetto, 2007). A distribuição longitudinal de sementes e a velocidade de emergência de plântulas podem ser influenciadas de acordo com o preparo de solo utilizado.

Os diversos equipamentos utilizados para o preparo periódico do solo provocam alterações diferentes em suas propriedades físicas. Citando como exemplo, uma área preparada com enxada rotativa proporcionará uma mistura mais homogênea e superfície mais uniforme, com agregados menores, tornando-a, geralmente, adequada para receber a semeadura, porém com atuação em menor profundidade no solo, quando comparado à ação de um arado de discos. Este, por sua vez, atinge maiores profundidades, porém requer mais uma, ou duas operações para destorroar e nivelar a superfície do solo e adequá-la para a operação de semeadura.

O preparo de solo convencional proporciona diversos efeitos para a instalação e manutenção da cultura do feijão. Isto posto, foi conduzido um estudo em um dos campos experimentais da Universidade Federal de Viçosa, Campus Rio Paranaíba – MG, que possui média de 1100 metros de altitude, com o objetivo avaliar a influência do preparo primário de solo feito com arado de discos, enxada rotativa, escarificador e da grade aradora intermediária na distribuição longitudinal de sementes, velocidade de emergência de plântulas,  produtividade e componentes de produção do feijão. A área foi classificada como um LATOSSOLO VERMELHO – AMARELO distrófico, textura argilosa, relevo plano, que é cultivada com grãos desde o ano 2014 com os mesmos sistemas de preparo.

No campo

O delineamento experimental foi inteiramente casualizado (DIC) com quatro tratamentos e quatro repetições, tendo como tratamentos o preparo periódico primário do solo com: arado de discos, grade aradora intermediária, escarificador e enxada rotativa. Assim, resultando em um total de 16 unidades experimentais, onde cada parcela é constituída por uma área de 100 m² (10 x 10 m), estas são separadas por carreadores, também de 100 m², destinados ao tráfego, manobras e regulagens dos equipamentos.

Figura 3 - Plântulas de feijão em estádio de emergência na área do experimento.
Figura 3 - Plântulas de feijão em estádio de emergência na área do experimento.

Para efetuar o preparo de solo utilizou-se o trator New Holand TL85E, operando a 2000 rpm, com terceira marcha reduzida e velocidade média de 5 km hˉ¹. O mesmo trator foi utilizado nas operações de todos os equipamentos. O arado de discos utilizado foi da marca Baldan, modelo AF-3, com 3 discos e profundidade de trabalho igual a 0,20 m. A grade aradora intermediária, marca Köhler, modelo GAC300 com 14 discos e profundidade de ação de 0,15 m. O escarificador, modelo Jumbo Matic Hidráulico, marca JAN, com discos de corte, cinco hastes parabólicas e ponteiras sem asa, com largura de trabalho de 2,0 m trabalhando até 0,2 m de profundidade. A enxada rotativa, marca MEC-RUL, modelo ERP 200 B, com 8 flanges e 48 lâminas e profundidade de ação 0,10 m. Após o preparo primário do solo feito com os equipamentos arado de discos, grade aradora intermediária e escarificador, foram feitas duas gradagens para destorroamento e nivelamento.

Feito o preparo de solo, instalou-se a cultura do feijão BRS estilo, com ciclo de aproximadamente 100 dias. O espaçamento de semeadura entre linhas foi de 0,5 m, utilizando o trator Massey Ferguson 4292, operando em 3ª marcha reduzida, 1600 rpm e velocidade média de 5,0 km h-1. A semeadora-adubadora foi regulada para depositar 15 sementes m-1, em uma profundidade média de três centímetros, estimando-se obter um estande de 300.000 sementes ha-1. A adubação de plantio foi realizada com o formulado 08-30-10, numa dose de 400 kg ha-1. Para a adubação de cobertura, foi utilizada ureia em uma dose de 400 kg ha-1 parcelado em duas vezes.

Figura 4 - Preparo do solo.
Figura 4 - Preparo do solo.

Para a avaliação da distribuição longitudinal de sementes utilizou-se como parcela útil dois metros de linha da fileira central, onde foi medida a distância entre sementes. Ao realizar a medição houve o cuidado de não remover as sementes do local onde foram semeadas, para não ocorrer alterações nos resultados. A população estabelecida foi de 300.000 sementes ha-1, com um espaçamento entre linhas de 0,5 m, resultando em 15 sementes m-1 para todos os tratamentos, ocasionando o espaçamento nominal (Xref.) de 66,67 mm.  Os espaçamentos foram classificados como aceitáveis (0,5 Xref.< Xi< 1,5 Xref.), duplos (≤ 0,5∙Xref.) e falhos (≥1,5∙Xref.).

Figura 5 - Área experimental, as setas vermelhas indicam as áreas de manobras e as setas azuis indicam as parcelas onde foram feitas as avaliações.
Figura 5 - Área experimental, as setas vermelhas indicam as áreas de manobras e as setas azuis indicam as parcelas onde foram feitas as avaliações.

Para a determinação da contagem do número de plântulas emergidas foi utilizado um intervalo de dois metros na fileira central. Segundo Carvalho Filho et al. (2006) considerou-se como plântula emergida aquela que rompesse o solo, podendo ser vista a olho nu, de algum ângulo qualquer. A demarcação de dois metros na fileira central foi efetuada da seguinte forma: iniciando-se no limite da parcela, mediram-se dois metros, fixou-se uma estaca, a partir dessa estaca mediram-se mais dois metros, onde fixou uma segunda estaca, assim a contagem das plântulas emergidas foi feita no intervalo entre as estacas. Logo, a contagem foi efetuada diariamente até que houve a estabilização do número de plântulas por três dias consecutivos, de acordo com o proposto por Silva (2002), então se obteve a partir da equação (Edmond e Drapala, 1958), o número médio de dias para a emergência de plântulas.

Equação
Equação

Em que: M - número médio de dias para a emergência das plântulas de milho; N1 - número de dias decorridos entre a semeadura e a primeira contagem de plântulas; G1 – número de plântulas emergidas na primeira contagem; N2 - número de dias decorridos entre a semeadura e a segunda contagem de plântulas; G2 - número de plântulas emergidas entre a primeira e a segunda contagem; Nn - número de dias decorridos entre a semeadura e a última contagem de plântulas; Gn - número de plântulas emergidas entre a penúltima e a última contagem. Os dados coletados foram tabulados e submetidos à análise de variância e em seguida aplicou-se o teste de Tukey a 5% de probabilidade para comparação entre as médias. Quando necessário as variáveis foram transformadas, mas na tabela foram utilizadas as médias originais para que os valores fiquem coerentes com a prática.

Os diferentes sistemas de preparo de solo não influenciaram na distribuição longitudinal de sementes, onde a média geral para os espaçamentos foi de 58,25% normais, 5,14% duplos e 36,62% falhos (tabela 1), corroborando com o apresentado por Mahl et al. (2006).

A avaliação de espaçamento entre sementes apresentou alta variabilidade, demonstrado pelo coeficiente de variação. Para esse tipo de análise é comum obter altos valores de coeficiente de variação, como os apresentados por Kurachi et al. (1989); Cortez et al. (2006); Santos et al. (2011); Melo et al. (2013).

O número médio de dias para a emergência das plântulas sofreu influência dos diferentes preparos periódicos do solo, sendo a grade aradora a que obteve resultado estatisticamente maior se comparado com o arado de discos e enxada rotativa (tabela 1). Silva & Gamero (1993), avaliando a influência do preparo secundário, feito com a grade destorroadora-niveladora, antes ou depois do preparo primário do solo, efetuado com o arado de discos, grade aradora e escarificador, observaram menor valor de índice de velocidade de emergência de plântulas de feijão ao realizar a gradagem antes da aração.

Entretanto, Boller e Caldato (2001) avaliando o efeito de três sistemas de preparo de solo (arado de discos + grade leve, escarificador e plantio direto) no desenvolvimento da cultura do feijão, observaram que o número médio de dias para emergência das plântulas não sofreu influência dos diferentes preparos de solo. Resultados semelhantes foram observados por Carvalho Filho et al. (2006) e Silva (2015), onde avaliaram o efeito de cinco equipamentos de preparo do solo no desenvolvimento da soja.

Pode-se observar pelos dados da tabela 2 que a produtividade de grãos do feijão não foi alterada em função dos preparos periódicos de solo. Assim, mesmo que a velocidade de emergência tenha sido influenciada pelo preparo do solo, a produtividade se manteve estatisticamente igual entre os tratamentos. Desse modo, os dados obtidos demonstram que o produtor pode optar pelo preparo que melhor se adapte a sua realidade, pois este não trará diferenças na sua produção.

O número final de plantas por hectare, número de vagens por planta e número de grãos por vagens são componentes de produção da cultura do feijão. O preparo convencional do solo não influenciou nenhum dos componentes de produção (tabela 2). Silva (2015) também não encontrou diferenças no número médio de vagens por planta.

Apesar de o preparo do solo ser importante para proporcionar as melhores condições para o estabelecimento e desenvolvimento das culturas, neste trabalho, verificou-se pouca influência nas características produtivas da cultura, e assim a lucratividade do produtor. Então, de acordo com Silva (2015), deve-se optar por sistemas que proporcionem melhor capacidade operacional e menor custo na adequação do solo para a semeadura.

Através dos dados encontrados neste estudo não foi verificada diferença estatística na distribuição longitudinal de sementes. Já o número médio de dias para emergência de plântulas foi influenciado pelos equipamentos de preparo do solo, sendo que a grade aradora apresentou média maior em comparação com o arado de discos e a enxada rotativa. Embora houvesse diferença estatística no número médio de dias para a emergência de plântulas, esta não foi verificada para a produtividade e os componentes de produção da cultura do feijão.

 

Luiz Fernando Costa Ribeiro Silva, Letícia Almeida, Vitor Lavorenti Arthur, Lucas Balbino Fois Lanna, Alberto Carvalho Filho, Renato Adriane Alves Ruas, Universidade Federal De Viçosa – Campus Rio Paranaíba

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