Prevenção e manejo de doenças da mamoneira no Distrito Federal

A mamoneira (Ricinus communis) é uma planta oleaginosa de origem tropical, possivelmente da Etiópia, leste da África. Adapta-se bem em regiões de clima quente, necessitando de 120 a 160 dias para seu desenvolvimento completo e produção de frutos. Com moderada a alta resistência à seca, ela precisa de 500 mm de precipitação para crescimento, desenvolvimento e produção satisfatória. As condições ecológicas necessárias para expressar seu potencial produtivo incluem também temperatura do ar entre 20 e 30ºC, altitude variando de 300 a 1500 metros.

A planta está adaptada a diferentes tipos de solos, exceto os muito argilosos sujeitos a encharcamento, salinos e/ou sódicos, com elevado teor de sódio trocável. De acordo com o zoneamento agrícola de risco climático para a cultura da mamoneira no Distrito Federal, elaborado pelo Ministério da Agricultura, a época recomendável para semeadura da mamoneira no DF compreende o período entre a primeira semana de outubro e a última de dezembro.

De acordo com o histórico de precipitações registradas no DF, de novembro a março, a média mensal é de 200 mm, com cerca de 19 dias com chuva por mês. Esse ambiente úmido, com períodos contínuos ou alternados de dias com chuva, e temperatura amena girando em torno dos 25°C, são condições ideais para infecção, multiplicação e disseminação da maioria das doenças em plantas, incluindo aquelas que afetam a mamoneira.

Por isso, apesar de favorecer o desenvolvimento da cultura, essas condições favorecem também o desenvolvimento de doenças fúngicas – como o mofo-cinzento-da-mamoneira, a mancha-de-cercospora, a mancha-de-alternaria e o tombamento de mudas – e doenças bacterianas, como a mancha-foliar-bacteriana. Mesmo sendo considerada uma planta rústica e bem adaptada ao solo e ao clima brasileiro, a mamoneira é bastante afetada por esses patógenos, os quais chegam a causar prejuízos de grande expressão econômica.

Dessa forma, para que haja um manejo adequado da sanidade da cultura, é necessário planejar o plantio em época favorável ao desenvolvimento da planta. Porém deve-se observar quais os períodos em que a cultura se apresenta mais suscetível às enfermidades, para que se possa evitar a coincidência deste período. Atrasar ou adiantar o plantio, dentro do período recomendado para a cultura, pode ser uma alternativa para se evitar que durante o período reprodutivo as plantas não fiquem expostas a longos períodos com chuvas constantes.

Outra alternativa para evitar o surgimento de grandes epidemias é reduzir a irrigação por aspersão durante o florescimento ou realizá-la durante o período noturno, coincidindo com o período de formação de orvalho sobre as plantas. A rotação de culturas, outra ferramenta de manejo, é recomendada para qualquer espécie anual e, assim como em outros cultivos, é necessário que os ciclos sejam intercalados com os de espécies não hospedeiras das principais doenças da mamoneira para promover a redução do inóculo do patógeno já presente na área.

Outra técnica de manejo é a eliminação dos restos de cultura mediante incorporação da palhada no solo por meio de aração ou gradagem. Plantas infestantes presentes em beira de estrada, barrancos e beira de rios também devem ser eliminadas. Pode-se ainda escolher áreas que não foram cultivadas com mamona no período anterior. Por fim, quando a doença se instalar e as outras formas de manejo não conterem o avanço da epidemia, é preciso recorrer à utilização de defensivos químicos.

Cultivares resistentes

Apesar de as alternativas apresentadas proporcionarem resultados, a melhor estratégia de manejo que o produtor pode lançar mão é a utilização de cultivares melhoradas, principalmente se elas apresentarem níveis de resistência às principais doenças, além de proporcionarem alta produtividade. Atualmente instituições de pesquisa, como a Embrapa, possuem cultivares e híbridos de mamoneira com produtividades variando de mil a quatro mil quilogramas por hectare e que são recomendadas para as diferentes regiões do Brasil.

Dentre estas variedades, destacam-se como tolerantes ao mofo-cinzento-da-mamoneira as que apresentam a arquitetura do cacho aberta, com as bagas espaçadas, garantindo boa aeração e rápida evaporação da água da chuva/irrigação ou do orvalho que possam se depositar em meio às bagas. Essa característica evita que o cacho fique molhado por muito tempo, o que criaria um microclima úmido favorável a infecção e esporulação do fungo. Plantas com ramificação aberta e emissão de cachos acima da copa e das folhas apresentam maior ventilação e redução da umidade no interior da copa, o que dificulta o estabelecimento da maioria das doenças de parte aérea, como as manchas foliares, além disso, o espaçamento entre linhas e entre plantas deve ser manejado para propiciar boa aeração entre as plantas, sem que haja redução expressiva do estande.

Tombamento

O tombamento de mudas, outro problema fitossanitário importante na implantação da cultura, está relacionado a fungos de solo que promovem a redução do estande. Dentre os fungos causadores de tombamento de plântulas, os mais freqüentes são Rhizoctonia, solani, Fusarium sp., Scerotium rolfsii e Alternaria sp. O problema pode ser evitado com a escolha de área para plantio sem histórico da ocorrência destes patógenos, áreas com solos bem drenados, semeadura mais rasa no caso de previsão de precipitação nos dias seguintes ao plantio.

Outra alternativa é a utilização de sementes certificadas, o que garante sua sanidade e evita a instalação de novos patógenos em uma área anteriormente sem o patógeno. O tratamento de sementes com fungicidas e inseticidas também é uma prática de manejo para pragas de solo. No entanto é importante salientar que ainda não há registro no Ministério da Agricultura de defensivos para esta finalidade em mamoneira. Isso inabilita sua recomendação, apesar de pesquisas apontarem resultados promissores.

Angelo Aparecido Barbosa Sussel
Doutor em Fitopatologia e pesquisador da Embrapa Cerrados.
angelo.sussel@cpac.embrapa.br / www.cpac.embrapa.br ver mais artigos