Produção comprometida

Apesar de raramente serem letais às plantas, as viroses constituem-se em um dos mais importantes grupos de doenças em batata. Podem causar vários tipos de sintomas, que terminam por reduzir o vigor das plantas e afetam negativamente a produtividade. As viroses estão entre as principais dificuldades enfrentadas pelos produtores de batata em todo mundo. No Brasil, onde as principais cultivares de batata são suscetíveis e há abundância de afídeos transmissores, os prejuízos são ainda mais sérios. Soma-se a isso o fato de a batata ser propagada comercialmente através de seus tubérculos, chamados de tubérculos-sementes quando são utilizados para esse fim, o que favorece sobremaneira a transmissão de viroses.

Dentre as viroses, para as quais a maioria das cultivares é suscetível, destacam-se no Brasil o enrolamento-das-folhas, causado pelo PLRV, e o mosaico, causado principalmente pelo PVY.

Na planta, o PLRV é restrito ao floema onde causa interrupção no transporte de carboidratos das folhas para as raízes e tubérculos. Em conseqüência, os fotossintatos são acumulados nas próprias folhas, que se tornam enrijecidas, coriáceas e terminam por se enrolar para cima. Em casos severos, as folhas basais apresentam cor púrpura, com ou sem necrose nas margens, enquanto as folhas apicais apresentam coloração pálida. Os tubérculos, uma vez que recebem quantidades mínimas de fotossintatos, deixam de crescer, podendo até mesmo desenvolver necrose. Entre os afídeos, o pulgão (Myzus persicae) é o transmissor mais importante dessa virose. Em clima tropical, é alta a capacidade de transmissão dessa virose. Em trabalhos de pesquisa já foi constatada a diminuição da produção de tubérculos em 60,8% em peso, 75,5% na produção de tubérculos graúdos e aumento em 13,9% no peso dos tubérculos classificados como miúdos e pequenos (Cupertino & Costa, 1970).

O PVY, assim como o PLRV, tem transmissão preferencial através de pulgões. A infeção da planta por PVY leva ao surgimento desde um leve mosqueado nas folhas a até necrose foliar severa, passando por diferentes intensidades de mosaico, com ou sem deformação e diminuição da área foliar, enrugamento e enrolamento da ponta do folíolo para baixo. Plantas com infeção secundária, ou seja, plantas originárias de tubérculos infetados, têm tamanho reduzido e são quebradiças. A infeção por PVY pode levar a perdas superiores a 80% na produtividade e, quando o vírus acontece em associação a outros, pode até mesmo levar à morte da planta. Observou-se (Câmara et al., 1986) que a infeção conjunta por PLRV e PVY causou redução média de 49,7% em peso na produção de tubérculos comerciais e 69,1% de redução em peso na produção de tubérculos graúdos.

Não há como evitar a presença dos vírus nas lavouras comerciais de batata. Em regiões como a do Planalto Central, onde existe um período de seca bastante longo, há uma enorme pressão de inóculo gerada pelo aumento da população de pulgões, vetores do início para o final da estação seca, e poucas medidas são realmente eficientes no controle das viroses. O que parte dos produtores brasileiros de batata tem feito até agora para manter a produtividade, é renovar com constância os seus estoques de tubérculos-sementes livres de vírus. Porém, tubérculos-sementes de alta qualidade são caros e, via de regra, constituem o item mais alto no custo de produção. Conseqüentemente, renová-los com constância, pode significar prejuízos, especialmente em safras em que a margem de lucro do produtor é estreita. Seria muito mais interessante que os produtores, após instalarem um campo com tubérculos-sementes livres de vírus, pudessem plantar a lavoura seguinte utilizando tubérculos colhidos em seu próprio cultivo, diluindo o custo de aquisição dos tubérculos-sementes livres de vírus em duas, três ou, até mesmo, mais safras. Tal meta pode ser atingida, desde que os produtores manejem a parte de seu campo destinada à colheita dos tubérculos-sementes com os cuidados necessários à produção dos mesmos. O sucesso ficará ainda mais garantido caso a cultivar utilizada apresente resistência a viroses.

Com o objetivo de desenvolver genótipos com níveis de resistência aos vírus do mosaico e do enrolamento de folhas superiores aos que se encontram hoje na maioria das cultivares de batata à disposição do mercado brasileiro, diversos cruzamentos têm sido feitos e suas progênies avaliadas na Embrapa Hortaliças, em Brasília. Mas, para que um genótipo venha a se converter em uma cultivar que realmente represente uma opção para os produtores, não basta que seja resistente aos vírus. Há necessidade de se combinar a resistência às características comerciais que garantirão a aceitação do genótipo pelos produtores e pelos consumidores finais.

Após obtidas as sementes botânicas de batata, através dos cruzamentos realizados na Embrapa Hortaliças, os genótipos resultantes são submetidos a testes que objetivam a seleção dos melhores, no que diz respeito às características dos tubérculos, quais sejam: formato visando o consumo in natura ou processamento industrial (chips ou palitos), cor e aspereza da película, profundidade dos olhos, presença de rachaduras, de crescimento secundário, mancha chocolate ou coração oco.

Os genótipos selecionados são, então, avaliados em relação à sua capacidade de se manterem produtivos após sucessivos plantios em campo, sob pressão de vírus. Como referência na avaliação, são utilizadas as cultivares Monalisa, reconhecida como de boa resistência a viroses, Achat, de resistência intermediária e Bintje, suscetível, submetidas às mesmas condições e tratamentos a que foram submetidos os genótipos em teste. O trabalho foi iniciado, instalando-se um campo, no primeiro ano, a partir de tubérculos de batata pré-básicos, livres de vírus, produzidos sob condições controladas na própria Embrapa Hortaliças. A partir de então, após cada ano de exposição em campo, os tubérculos utilizados para instalação do experimento do ano seguinte foram obtidos no próprio experimento. Entre dois plantios de campo, os tubérculos foram mantidos em câmara frigorificada até sua brotação.

Entre os sete genótipos avaliados observou-se, do segundo para o terceiro ano de exposição ao campo, um decréscimo em peso na produtividade total, variando de 15 a 46%, tendo um valor médio de 36%. A cultivar Monalisa, do primeiro para o segundo ano, apresentou decréscimo de 3,7% e, do segundo para o terceiro ano, o decréscimo foi de 28,8%. Bintje, considerada suscetível, apresentou 6,3% de perda de produtividade do primeiro para o segundo ano e, de 42,9% do segundo para o terceiro ano. Da terceira para a quarta exposição em campo, as perdas na produtividade total foram mais drásticas, variando entre 46 e 60%, com um valor médio de 50%.

Na produtividade comercial (peso maior ou igual a 40 g) os decréscimos variaram entre 19 e 70% quando comparou-se os valores obtidos na segunda e terceira exposições ao campo. A cultivar Monalisa apresentou perda na produtividade comercial, da primeira para a segunda exposição ao campo, de 9% e, da segunda para a terceira exposição, de 38,7%. A Bintje apresentou decréscimo de 53% da primeira à segunda exposição ao campo.

A suscetibilidade de cultivares às viroses também causa diminuição do peso médio dos tubérculos comerciais. Assim, houve um decréscimo nos valores do peso médio que variou de 12 a 41%. A cultivar Monalisa apresentou uma diminuição do peso médio dos tubérculos comerciais de apenas 8%, ao passo que Bintje alcançou valores de 56%.

Esses resultados evidenciam que é possível obter genótipos de batata resistentes às principais viroses e que apresentem, ao mesmo tempo, tubérculos com características adequadas à comercialização. Desta forma, é possível prever, sem correr o risco de exagerar no otimismo, que futuramente os bataticultores brasileiros estarão aptos a produzir em condições mais competitivas e simultaneamente mais rentáveis do que atualmente.

Sieglinde Brune e Paulo Eduardo de Melo,
Embrapa Hortaliças

* Este artigo foi publicado na edição número 13 da revista Cultivar Hortaliças e Frutas, de abril/maio de 2002.

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