Produção própria de sementes

O uso de sementes de boa qualidade representa um dos principais elementos que contribuem para o sucesso de uma lavoura de feijão. Todo trabalho dispendido pelo produtor para o cultivo de uma lavoura, desde o preparo do solo até a colheita, poderá ser infrutífero se não forem utilizadas sementes sadias e de boa qualidade. Resultados de pesquisa mostram que podem ser obtidos aumentos em torno de 25% na produção de grãos somente com a utilização de sementes sadias.

Segundo dados do IBGE, apenas 20% dos produtores de feijão usam sementes fiscalizadas, sendo que a maior parte desses são grandes produtores que utilizam o cultivo irrigado. A grande maioria dos pequenos produtores usam sementes comuns, com misturas de variedades diferentes, desuniformes e contaminadas por doenças. O ideal seria usar, em todas as lavouras, sementes fiscalizadas, recomendadas pela pesquisa, com boa qualidade, produtividade e bom valor de mercado. Uma dica para o produtor que não tem recursos para comprar semente fiscalizada todo ano é procurar adquiri-la em intervalos regulares de alguns anos (3 ou 4) e, a partir dessas, produzir a sua própria semente.

Aos produtores sem condições de adquirir sementes de qualidade, devido ao preço ou à dificuldade de encontrá-las no mercado, ou ainda, que não seja receptivo à troca de sua “variedade” por desconhecer as vantagens da semente selecionada, a produção de sua própria semente é uma prática recomendável.

Produzindo a própria semente

O primeiro passo para produzir uma boa semente é a escolha da melhor área cultivada com feijão na propriedade. O passo seguinte é a eliminação de plantas fora de tipo, mal-formadas e com doenças. Essa prática deve ser feita na floração, na maturação e antes da colheita. A seguir deve ser observado o ponto de colheita, importante para manter o potencial máximo de vigor e germinação da semente. Nessa ocasião, os grãos devem estar com cerca de 18% de umidade. Essa fase ocorre quando as plantas estão quase, ou totalmente, sem folhas e as vagens, maduras. Se a colheita for feita antes do ponto, os grãos que ainda não estão maduros ficam enrugados ou chochos. Se a colheita for atrasada, o percentual de sementes infectadas por doenças e atacadas por insetos aumentará, provocando uma diminuição da germinação e vigor, além da debulha natural.

Após ter observado a sequência dos passos citados, a colheita é a próxima etapa. Nessa fase, pode-se colher as vagens individuais, bem formadas e limpas ou as plantas individuais sadias, ou, ainda, colher separadamente a melhor área da lavoura, após a eliminação das plantas atípicas. Na ocasião, deve-se excluir as vagens que estão tocando o solo, para evitar contaminação de doenças posteriormente. Após a colheita, deve-se deixar as plantas ou vagens ao sol, por um dia, para secarem, até atingirem 13-14% de umidade. Com esta umidade, deve-se proceder à debulha, bateção ou trilha. O passo seguinte é a catação manual das sementes, operação bastante simples e pouco onerosa, considerada um fator importante para melhorar a qualidade da semente e para o sucesso do próximo cultivo. Essa prática visa eliminar as sementes mal formadas, defeituosas, danificadas, manchadas ou contaminadas. A catação manual reduzirá o inóculo de doenças transmitidas por sementes e contribuirá para uma germinação mais uniforme.

O processo de secagem

Após a catação, é necessária uma nova secagem das sementes. A secagem é de fundamental importância para a sua conservação, pois, quando armazenadas com teores elevados de umidade, estarão sujeitas ao processo de deterioração, causado por diversos microorganismos, além da perda da qualidade. A secagem pode ser feita espalhando as sementes no terreiro, sob lona, numa camada de 5 cm, e deixando-as ao sol por um dia ou dois, revolvendo seguidamente, para uma secagem uniforme, até 11 a 12% de umidade. Com essa umidade, a semente poderá ser armazenada num ambiente seco e com temperaturas amenas, para manter o poder germinativo e o vigor.

Para evitar ataques de carunchos, que podem vir da lavoura ou já estar no paiol, esta pequena quantidade de sementes produzida - um ou dois sacos - poderá ser guardada misturada a um óleo vegetal qualquer, sendo mais indicado o óleo de soja, na proporção de 300 ml de óleo para 100 kg de sementes, ou mesmo utilizando cinza de qualquer tipo de madeira, na base de 100 gramas de cinza para 100 kg de sementes. A mistura pode ser feita na própria lona de secagem ou no tambor descentralizado, usado para fazer inoculação, se houver na propriedade.

O seguimento de todos os passos citados propiciará, àquele produtor que não usa semente fiscalizada, a obtenção de sementes de boa qualidade. Além disso, permitirá que ele mantenha essa qualidade por vários anos, assegurando, com isso, um aumento na produtividade de sua lavoura, contribuindo, sobremaneira, para aumentar sua renda.

Wellington Pereira de Carvalho,
Embrapa Cerrados

* Este artigo foi publicado na edição número 37 da revista Cultivar Grandes culturas, de março de 2002. ver mais artigos
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