Produto certo na hora certa

A evolução dos fungicidas, ao longo das últimas décadas, tem proposto o desenvolvimento de vários grupos com os mais variados perfis técnicos. A existência de fungicidas com características diversas, permite que estes sejam empregados em função das necessidades e exigências existentes para cada situação.

De maneira geral, os fungicidas são aplicados inicialmente para prevenir a ocorrência da requeima e, posteriormente, para retardar o seu rápido desenvolvimento durante as fases de crescimento vegetativo e formação de tubérculos.

O êxito no uso de fungicidas no controle da requeima esta condicionado por fatores como: suscetibilidade da cultivar; pressão de doença; clima; escolha do fungicida adequado; tecnologia de aplicação; momento oportuno para o tratamento e o número e intervalo entre aplicações.

O uso de cultivares resistentes é limitante, pois a maioria das cultivares comerciais de maior expressão no Brasil é suscetível (Ágata, Cupido, Mondial, Bintje) ou com moderados níveis de resistência (Monalisa, Atlantic, Astetrix, Vivaldi, Baronesa), o que obriga a utilização de programas intensivos de pulverização sob elevadas pressões da doença.

Para que o uso de fungicidas seja corretamente veiculado em programas de manejo da requeima, sistemas de previsão estão sendo disponibilizados com o objetivo de prover, em função das condições climáticas, informações acerca do momento e intervalos ideais para as aplicações.

Atualmente, o bataticultor brasileiro dispõe de uma gama importante de fungicidas para o controle da requeima incluindo produtos de contato e com diferentes níveis de atividade sistêmica.

Os fungicidas de contato caracterizam-se por formar uma película protetora na superfície da planta, que impede a penetração dos esporângios ou zoósporos. Portanto possuem ação profilática e devem ser aplicados obrigatoriamente antes do inicio da infecção para que sejam efetivos. São, geralmente, produtos com múltiplos sítios de ação e amplo espectro, podendo agir simultaneamente no controle de outra importante doença da batata, a pinta preta (Alternaria solani). Entres os principais representantes destes produtos destacam-se os fungicidas a base de cobre, mancozeb, metiram, chlorothalonil, zoxamide+mancozeb, fluazinam e estanhados. Tais fungicidas exigem aplicações periódicas e cobertura de toda parte aérea da planta, pois somente garantem a proteção contra infecções no local em que estão depositados. São produtos que por permanecem na superfície foliar estão mais sujeitos à ação negativa de chuvas e água de irrigação. As aplicações podem ser seqüenciadas em períodos pouco favoráveis à doença ou intercaladas a fungicidas específicos em períodos críticos. O período de proteção destes fungicidas na planta varia em função das características técnicas de cada produto, sendo este de 4 a 8 dias em média. De maneira geral, as pulverizações visando renovar a proteção das plantas devem ser repetidas a intervalos de 4 a 7 dias em períodos chuvosos ou de rápido desenvolvimento vegetativo da cultura e de, 7 a 10 dias, em períodos secos ou em caso de paralização no crescimento vegetativo. São fungicidas recomendados no decorrer de todo o ciclo da cultura, ou seja, da fase de emergência até a tuberização.

Fungicidas com ação translaminar caracterizam-se por penetrar e se redistribuir rapidamente no local tratado, todavia não se translocam pela planta e não protegem brotações novas. Tal característica garante a estes produtos a capacidade de atuarem como preventivos, curativos e erradicantes. São fungicidas classificados como seletivos, pois inibem processos metabólicos específicos inerentes a grupos restritos de fungos. O fato destes fungicidas penetrarem nos tecidos, permite que sofram menor ação das intempéries e apresentem ação curativa em infecções com até 48 horas de incubação, além de significativa ação antiesporulante. Estes produtos devem ser pulverizados a intervalos de 7 a 10 dias, em caráter preventivo, assim que as condições climáticas se tornem favoráveis à doença. Entre os principais exemplos destes fungicidas destacam-se os produtos dimetomorph em mistura com chlorothalonil e mancozeb, cymoxanil+mancozeb, pyraclostrobin+mancozeb, fenamidone, e famoxadone+cymoxanil.

Os fungicidas sistêmicos apresentam, em geral, características semelhantes aos fungicidas translaminares. No entanto, distinguem-se pelo fato de serem translocados pelo sistema vascular e se distribuírem pela planta como um todo. Apresentam rápida absorção (30 minutos em média) e períodos de proteção de 10 a 14 dias, fato condicionado por fatores como umidade relativa, temperatura, taxa de crescimento das plantas, pressão da doença, etc. Diferente dos fungicidas de contato e translaminares, os sistêmicos apresentam proteção sobre os órgãos formados após a aplicação. Propamocarb+chlorothalonil, iprovalicarb+propineb e Metalaxyl-M em mistura com mancozeb e chlorothalonil, respectivamente, representam este grupo de produtos.

Para que haja sucesso no controle da requeima por fungicidas, independente de seu modo de ação, o importante é que estes sejam aplicados preventivamente, isto é, antes da ocorrência da doença. Apesar dos fungicidas translaminares e sistêmicos possuírem ação curativa significativa esta é limitada e pouco efetiva em lesões desenvolvidas, pois durante o processo da colonização o fungo destrói os tecidos da planta, impedindo, assim, o fluxo e a ação dos fungicidas em áreas infectadas ou próximas a estas. Por outro lado, a aplicação de produtos específicos nestas condições pode favorecer a seleção de linhagens resistentes do fungo a estes produtos.

Tradicionalmente, recomenda-se uso inicial e seqüenciado de produtos de contato a partir da emergência, com posterior uso de produtos com atividade sistêmica nas fases de crescimento vegetativo e tuberização. Por outro lado, existe a tendência em alguns centros produtores de se utilizar fungicidas sistêmicos como metalaxyl-M e suas misturas, a partir dos 15 a 20 dias após a emergência. Tal conceito baseia-se no fato da planta estar em pleno desenvolvimento vegetativo o que facilita a rápida distribuição do fungicida por toda a planta eliminando possíveis infecções latentes da doença. Neste sistema, os fungicidas translaminares por apresentarem movimento local são indicados do pleno crescimento vegetativo até a fase de tuberização. Os produtos de contato, por sua vez, são recomendados no decorrer de todo ciclo da cultura em condições de baixa pressão de doença ou intercalados a fungicidas específicos durante períodos altamente favoráveis à doença.

A tecnologia de aplicação de fungicidas é fundamental para que haja sucesso no controle da requeima. Má qualidade na aplicação dos produtos pode comprometer e limitar seriamente a eficácia, principalmente, dos fungicidas de contato. Fatores como: tipo de bicos, volume de aplicação, pressão, altura de barra e velocidade do trator devem ser sempre considerados com o objetivo de proporcionar a melhor cobertura possível da cultura.

Características e histórico da Requeima

Rápida disseminação e elevado potencial destrutivo caracterizam a requeima como a mais importante e agressiva doença da cultura da batata (Solanum tuberosum), em todo o mundo. Causada pelo fungo Phytophthora infestans a requeima pode ocorrer em qualquer fase do desenvolvimento da cultura podendo afetar severamente folhas, hastes, pecíolos e tubérculos. Cultivares suscetíveis ou com baixos níveis de resistência associados a períodos com baixas temperaturas e alta umidade, são fatores altamente favoráveis à requeima, que pode causar destruição e perda total da cultura em poucos dias.

Desde sua trágica ocorrência na Irlanda no século XIX, esforços conjuntos de diversos seguimentos das ciências agronômicas têm buscado soluções para viabilizar o controle da requeima. Apesar de todo conhecimento conquistado ao longo dos últimos 160 anos, a pesquisa de novas medidas efetivas de controle e a implementação das técnicas atuais é um desafio constante, visto a grave ameaça que representa a requeima para o cultivo econômico da batata.

A agricultura atual tem preconizado o manejo da requeima, através de programas multidisciplinares, que visam adotar conjuntamente diferentes estratégias de controle com o objetivo final de otimizar o controle, reduzir os custos de produção, diminuir o impacto ambiental, bem como, proporcionar melhorias na qualidade de vida de produtores e consumidores (Quadro I - veja no final do texto como visualizar este artigo, com fotos e tabelas, em PDF).

Dentro deste contexto, a utilização de fungicidas é ferramenta indispensável dentro de programas de manejo e sistemas de previsão da doença, que visem elevados índices de produtividade e qualidade de tubérculos.

Jesus G.Töfoli,
APTA/Intituto Biológico

* Este artigo foi publicado na edição número 23 da revista Cultivar Hortaliças e Frutas, de dezembro/2003 - janeiro/2004.

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