Programa de aplicações para proteção foliar com fungicidas

Doenças cada vez mais difíceis de controlar, aumento do número de aplicações  e oscilação  na eficácia de fungicidas compõem um cenário sombrio, conhecido de perto pelos agricultores brasileiros ao longo das últimas safras. Para que seja possível vencer este enorme desafio é preciso considerar todo o sistema agrícola do Brasil, bem como suas condições edafoclimáticas favoráveis à sobrevivência e infecção do patógeno. Focar na proteção da área foliar e não apenas na tentativa de controle da doença estabelecida, através de um programa de aplicações, que compreenda o momento de posicionar a aplicação no estádio da planta e a sua relação com os patógenos é o caminho para o manejo eficiente.

O sistema agrícola brasileiro é intensivo e altamente produtivo, localizado nos cenários tropical e subtropical, onde as condições edafoclimáticas permitem que as exigências para sobrevivência e infecção do patógeno ocorram de forma acelerada. Assim, a relação entre os patógenos e o hospedeiro pode ser estabelecida em qualquer fase do ciclo da cultura, e quando esta relação é compatível, há o processo doença instalado. Este fato explica porque são realizadas cada vez mais aplicações no ciclo da cultura para tentar controlar as doenças que parecem estar cada vez mais incontroláveis.

Talvez no equívoco de interpretação do conceito possa residir o principal fato para explicar a oscilação de eficácia dos fungicidas. Por vários anos, e ainda hoje, o controle da doença é entendido no campo como a aplicação do fungicida sobre o sintoma, na esperança de que o patógeno seja erradicado e o residual do controle permaneça atuando na folha da planta. No entanto, isso é um processo biologicamente impossível, visto as condições edafoclimáticas presentes: pressão de inóculo, fungicidas e tecnologia de aplicação, que favorecem o estabelecimento do patossistema.

Vale lembrar que o sintoma é o resultado final do ciclo da doença que começou sua infecção 7 a 14 dias antes, em etapas invisíveis ao olho humano (Figura 1). Ao final, a expressão do sintoma identifica a etapa reprodutiva do patógeno na geração de seus descendentes com grande variabilidade genética sobre o tecido já danificado.

Figura 1 – Algumas fases do ciclo das relações entre patógeno e hospedeiro.
Figura 1 – Algumas fases do ciclo das relações entre patógeno e hospedeiro.

Via de regra, nenhum fungicida tem potencial para controlar sintoma estabelecido sobre o tecido da folha, ou seja, erradicativo. A maior eficácia imprimida por qualquer fungicida se dá quando esse for posicionado sobre o tecido da folha antes da chegada do esporo, ou seja, preventivo ou protetor, especialmente estrobilurinas e carboxamidas. À medida que a infecção começa a se estabelecer, a eficácia do fungicida vai decrescendo gradativamente e com isso também o residual (Figura 2).

Figura 2 – Variações de eficácia em função do momento de posicionamento do fungicida sobre a patogênese.
Figura 2 – Variações de eficácia em função do momento de posicionamento do fungicida sobre a patogênese.

É importante lembrar que os momentos de aplicação Preventivo, Curativo ou Erradicante, não têm relação direta com o estádio fisiológico da planta e sim com o estágio da patogênese. Assim, torna-se possível ter aplicações preventivas no estádio vegetativo de uma soja semeada no início da época recomendada, bem como curativa ou até erradicante para este mesmo estádio em área semeada no final da época recomendada ou mesmo safrinha.

Baseado nestes pressupostos é possível dizer que é um erro atribuir uma eficácia “fixa” para um fungicida, com se mantivesse seu desempenho, independente do momento da aplicação. Não é difícil observar situações de campo onde o mesmo produto, aplicado em momentos diferentes, imprima eficácias que podem ter grandes variações de desempenho.

Desta forma, o foco do manejo eficiente deve buscar a eficácia do conjunto das aplicações, ou seja, do Programa de Aplicações e não somente no potencial de um ou outro produto a ser aplicado, ainda pior se nas últimas aplicações. Com isso, o objetivo passa a ser a proteção da área foliar que irá ser a fonte para enchimento dos drenos [grãos] e não a tentativa de controle da doença estabelecida.

A montagem do Programa de Aplicações tem suporte no entendimento de que o efeito das aplicações não são independentes e sim possuem relações diretas entre elas, ou seja, a função da aplicação 1 é entregar a folha protegida para a aplicação 2, que por sua vez precisa entregar a folha protegida para a aplicação 3, e assim por diante. Assim, é possível manter a doença em nível baixo dentro do Programa, sem que ocorram possíveis falhas de eficácia entre as aplicações e a doença acelere sua evolução (Figura 3).

Figura 3 – Programa com quatro aplicações de fungicidas. Em (A) início muito tarde e retomada rápida da infecção, necessitando da 5° aplicação e em (B) início mais cedo e evolução mais lenta da doença.
Figura 3 – Programa com quatro aplicações de fungicidas. Em (A) início muito tarde e retomada rápida da infecção, necessitando da 5° aplicação e em (B) início mais cedo e evolução mais lenta da doença.

Além disso, o sucesso do Programa de Aplicações na folhagem vai depender do papel fundamental do Tratamento de Sementes (TS), especialmente para doenças necrotróficas, cujo patógeno está localizado na semente ou no solo/palhada. Certamente, quando um TS não é levado em consideração, haverá dificuldades de controle de doenças que irão causar manchas na folhagem da planta, reduzindo a eficácia de todas as aplicações.

Já na parte aérea da planta, o início efetivo do Programa passa a ser a aplicação no período vegetativo da cultura por três motivos técnicos específicos relacionados com: o patógeno, a tecnologia de aplicação e a planta. Com relação ao primeiro, o foco é sempre a aplicação preventiva, buscando proteger o tecido antes da entrada do patógeno, pois grande parte dos esporos chegam no período vegetativo da planta. Outro ponto positivo para o manejo é que o estabelecimento e a evolução do patossistema nesta fase são de grande dificuldade para o patógeno. Sendo assim, a entrada nesta fase reduz drasticamente a multiplicação do inóculo inicial que irá causar a epidemia durante o estádio reprodutivo da cultura (Figura 4).

 

Figura 4 – Inóculo inicial e epidemia de doenças em soja.
Figura 4 – Inóculo inicial e epidemia de doenças em soja.

A tecnologia de aplicação tem grandes dificuldades de levar as gotas para o dossel inferior da cultura, especialmente quando ela atinge seu máximo Índice de Área Foliar (IAF), durante o estádio reprodutivo (Figura 5).

Figura 5 – Efeitos do posicionamento de fungicidas em diferentes estádios da planta de soja.
Figura 5 – Efeitos do posicionamento de fungicidas em diferentes estádios da planta de soja.

Por último a planta, especificamente tocando sobre a idade da folha. Tecidos novos e interceptando radiação direta possuem características morfológicas e fotossintéticas que favorecem a retenção do ingrediente ativo posicionado sobre ele, mantendo maior o período residual. Por outro lado, folhas mais velhas e interceptando menos radiação direta apresentam o oposto (Figura 6).

Figura 6 – Concentração de triazol (preto) e estrobilurina (cinza) em diferentes idades de trifólios de soja.
Figura 6 – Concentração de triazol (preto) e estrobilurina (cinza) em diferentes idades de trifólios de soja.

Portanto, a falta de entendimento das relações entre as aplicações na construção do Programa pode levar a perdas precoces de área foliar, resultando diretamente em baixa produtividade. É importante retomar que a eficácia buscada deve ser do Programa de Aplicações, compreendendo em que momento a aplicação está sendo posicionada no estádio da planta e sua relação com os patógenos. Assim, a leitura do ambiente é fundamental para a percepção técnica do período residual, que poderá variar e demandar reorientação dentro do Programa para manter a doença em nível baixo.

Corynespora cassicola em soja - mancha alvo.
Corynespora cassicola em soja - mancha alvo.


Marcelo G. Madalosso, Instituto Phytus / URI Santiago; Ricardo Balardin, Universidade Federal de Santa Maria; Nédio R. Tormen, Universidade Federal de Brasília; Mônica P. Debortoli, Instituto Phytus


Artigo publicado na edição 201 da Cultivar Grandes Culturas.

ver mais artigos
CADASTRO DE NEWS
  • Receba por e-mail as últimas notícias sobre agricultura