Pulgão ganha status de praga

Analisando deste ponto de vista, o pulgão do algodoeiro é considerado praga secundária por muitos pesquisadores. Porém, este inseto tornou-se importante devido ao número excessivo de pulverizações de piretróides por parte dos produtores e também pela utilização de cultivares suscetíveis às viroses. Em virtude desses efeitos indesejáveis, é importante que os cotonicultores adotem certas táticas imprescindíveis para o manejo do inseto.

Conhecendo o pulgão

O pulgão é um inseto sugador de seiva e forma colônias na face inferior da folha do algodoeiro. Os pulgões reproduzem-se por partenogênese telítoca, em que cada fêmea dá origem a 2 – 4 ninfas/dia um total de 46 – 48 ninfas, que se desenvolvem mediante sucessivas mudas. Os adultos medem cerca de 1,5mm de tamanho e apresentam corpo periforme. São insetos de coloração variável do amarelo-claro ao verde-escuro. Existem na população as formas aladas e ápteras. As aladas são responsáveis pela migração e dispersão, enquanto as ápteras são as ninfas e os adultos reprodutivos da colônia.

O ciclo biológico completo do pulgão é o seguinte: o período ninfal varia de 5 a 6 dias, durante o qual são verificados 4 ínstares. Os períodos reprodutivos e pós-reprodutivos variam respectivamente, de 15 – 23 dias e 3 a 4 dias. Na Figura 1 pode-se observar colônias de pulgão sobre folha do algodoeiro. Os pulgões iniciam seu ataque em reboleira, a partir da colonização de alados migrantes e, posteriormente se dispersam por toda lavoura. As folhas atacadas ficam mais escuras e brilhantes, e adquirem formas arredondadas, com os bordos virados para baixo, em forma de campânulas (encarquilhamento de folhas). Os ponteiros atrofiam e as plantas apresentam desenvolvimento reduzido e crescimento retardado (enfezamento da cultura).

O pulgão do algodoeiro, Aphis gossypii, ocorre em todas as regiões onde o algodoeiro é cultivado. Sob condições alimentares e climáticas favoráveis, esse inseto apresenta uma extraordinária capacidade reprodutiva. Apesar de A. gossypii ocorrer durante todo o ciclo do algodoeiro as grandes infestações ocorrem dos 30 aos 70 dias após a emergência das plantas.

Opções de controle

Para controlar e/ou manejar o pulgão do algodoeiro, os cotonicultores dispõem das seguintes opções: a) utilização de inseticidas granulados no solo, como exemplo o aldicarb; b) utilização de sementes tratadas, como exemplo imidaclopride carbofuran, disulfoton, thiamethoxan 700WS, entre outros; c) inseticidas sistêmicos via aplicação foliar, como exemplo thiamethoxan 250 WG, carbosulfan, endosulfan, dimetoathe. Os cotonicultores ainda podem utilizar os métodos preventivos, entre os quais eliminação de plantas daninhas, com o objetivo de reduzir o potencial de inóculo de viroses transmitidas pelo pulgão, especialmente àquelas hospedeiras intermediárias como a Malva parviflora, rotação de culturas, destruição de restos culturais e cultivares resistentes e/ou tolerantes como as abaixo relacionadas: COODETEC-401, Deltapine 96/ITA 96, IAC 20, EPAMIG Precoce 1, ITA 94/604 e BRS 150 – Antares.

Porque o pulgão do algodoeiro se tornou uma praga tão importante? Dois fatores contribuiram para tal fato:

a) utilização maciça de inseticidas piretróides logo no início da colonização desta praga e de inimigos naturais de várias famílias de predadores e parasitóides, principalmente Coccinelídae (joaninhas predadoras) Cycloneda sanguinea, Eriopis connexa, Scymnus sp., Hypodammia convergens, entre outras, e a família Aphidiidae, onde está inserido o parasitóide Lysiphlebus testaceipes, considerado parasitóide chave do pulgão;


b) a utilização de cultivares suscetíveis ao mosaico-das-nervuras, forma ribeirão bonito, vulgarmente chamado no Mato Grosso de doença azul e ao vermelhão do algodoeiro. O pulgão transmite estas duas doenças e elas são muito importante economicamente na região Centro-Oeste. Estas cultivares são: (Deltapine Acala 90/ITA 90, CS 50, SICALA 34 e IAC 22, por exemplo).

Manejo do pulgão

Antes da introdução e utilização das cultivares acima supracitadas, suscetíveis às viroses, conforme já se enfatizou, o manejo do pulgão era relativamente simples; considerava-se o nível de controle desse afídeo quando 70% de plantas com sintomas de encarquilhamento fossem encontradas. Com a introdução dessas cultivares o manejo sofreu grandes transformações e/ou adaptações, variando muito de região para região. No cerrado úmido (Mato Grosso) recomenda-se que o controle seja feito quando 5 – 15% de plantas infestadas forem encontradas (cultivares suscetíveis ITA 90, Deltapine e Sicala); de 20 – 30% de plantas infestadas para as cultivares tolerantes (IAC 22) e 50 – 70% de plantas infestadas em áreas cultivadas com cultivares resistentes (Embrapa 14, CNPA ITA 96, IAC 20 e IAPAR 71). No cerrado seco, como na região de Barreiras, BA, ainda não foram definidos os níveis de controle para a referida praga. A Embrapa Algodão, juntamente com a EBDA e a Fundação Bahia estão conduzindo uma série de pesquisas no sentido de se definir um manejo adequado para esse fitófago, nesta região.

O pulgão do algodoeiro, do ponto de vista ecológico, é considerado por muitos pesquisadores como praga muito importante, pois este inseto serve de alimento para os inimigos naturais (predadores e parasitóides) que contribuirão para a estabilidade ecológica do agroecossistema algodoeiro. Estes predadores e parasitóides, por sua vez, controlarão outras pragas importantes como: lagarta rosada, curuquerê do algodoeiro, lagartas das maçãs, entre outras. Daí os pesquisadores considerarem o pulgão como praga secundária.

Em virtude do uso indiscriminado de piretróides em algumas regiões do Nordeste onde o algodoeiro é cultivado em regime de irrigação, este inseto tem se tornado a principal praga. No cerrado do Mato Grosso e áreas semelhantes a importância do pulgão aumenta com a transmissão de viroses, principalmente com o uso de cultivares suscetíveis a estas mesmas viroses.

José Janduí Soares, Lúcia Helena Avelino Araújo e Luiz Paulo de Carvalho
Embrapa Algodão

* Este artigo foi publicado na edição número 07 da revista Cultivar Grandes Culturas, de agosto de 1999. ver mais artigos
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