Pulverização em lavouras de café

A escolha da ponta de pulverização e as suas características de trabalho são alguns dos principais fatores que influenciam nas perdas de produtos fitossanitários. Escolher e fazer uso adequado das pontas são fatores fundamentais para a melhoria das condições de precisão e segurança na aplicação.

O conhecimento das condições de trabalho e, principalmente, do desempenho dos equipamentos de pulverização de produtos fitossanitários é elemento básico para uma aplicação adequada e eficiente, garantindo ao mesmo tempo eficácia biológica e segurança ambiental.

O tipo de ponta de pulverização e as suas características de trabalho são alguns dos principais fatores que influenciam nas perdas de produtos fitossanitários. Assim, a escolha e o uso adequado destas pontas constituem passos importantes para a melhoria das condições de precisão e segurança na aplicação.

As pontas de jato cônico vazio são tradicionalmente recomendadas nas aplicações em culturas com ampla massa foliar, em que a penetração e a cobertura são essenciais. Por trabalharem normalmente em pressões maiores do que outros tipos de pontas, elas produzem gotas muito pequenas, às vezes menores do que 100 micra (µm). Contudo, muitos pesquisadores relatam que essa classe de tamanho de gotas sofre mais intensamente a ação dos fenômenos climáticos, apresentando alto risco de deriva.

Em virtude disso, tem-se no mercado uma variante dessa ponta, com indução de ar, que produz gotas de maior diâmetro, minimizando perdas por deriva. Gotas com diâmetro maior do que 500µm têm pouco problema de deriva. Uma desvantagem dessas gotas é que, devido ao seu peso, normalmente têm maior dificuldade de se fixarem nas folhas, escorrendo para o solo. No entanto, alguns produtores vislumbram a possibilidade de substituir as pontas de jato cônico vazio por outras mais seguras ambientalmente, desde que a eficiência da aplicação não seja prejudicada.

Nesse sentido, este trabalho objetivou determinar a deriva gerada pelas pontas de pulverização jato cônico vazio com e sem indução de ar nas aplicações na cultura do café.

Aplicações a campo

As atividades de campo foram realizadas no Setor de Cafeicultura da Universidade Federal de Uberlândia, no município de Uberlândia (MG), com auxílio da Fapemig e CNPq.

Nas aplicações foi utilizado um pulverizador hidropneumático (Montana, Arbo 360). Trata-se de um pulverizador montado, dotado de 12 bicos, sendo seis de cada lado do arco, acoplado em um trator 4 x 2 com motor de 65cv de potência (Massey Ferguson, 265E).

Foram utilizados dois tipos de pontas de pulverização: jato cônico vazio ATR 80º Laranja 3,0 e jato cônico vazio com indução de ar TVI 8002.

Em todas as aplicações, utilizou-se o volume de calda de 400L/ha. A velocidade média de trabalho do conjunto foi de 8,2km/h. A rotação do motor do trator adotada durante a operação foi de 1.800rpm para a obtenção de 540rpm na tomada de potência. As pressões de trabalho das pontas de pulverização ATR e TVI foram de 1,567MPa (227,5Lb/pol2) e 1,447MPa (210Lb/pol2), respectivamente, e segundo o fabricante, nestas pressões estas pontas produzem gotas muito finas e muito grossas.

O traçador adicionado à calda para posterior quantificação foi a rodamina B (Synth, Diadema, Brasil). Utilizou-se a concentração de 100mg/L.

As aplicações foram feitas em uma gleba de café da variedade catuaí vermelho, disposto no espaçamento 3,8m entre linhas e 0,7m entre plantas, com três anos de idade, tendo em média 2,5m de altura. O diâmetro médio inferior da copa foi de 1,2m.

As pulverizações foram feitas sempre aos pares, conduzidas em delineamento de blocos casualizados em esquema de parcelas subdivididas no espaço 2x20 com dez repetições, sendo o primeiro fator referente às pontas de pulverização e o segundo, ao número de distâncias em relação à última linha pulverizada.

Avaliação da deriva

Anteriormente às aplicações, placas de polietileno com dimensões de 0,40m x 0,08m x 0,006m foram colocadas rente ao solo em área adjacente à cultura fora da área tratada, no sentido do vento, desde uma distância de 2,5m do centro da última passada do pulverizador até 50m, espaçadas 2,5m entre si, totalizando 20 distâncias em relação à última linha pulverizada. Esta mesma disposição foi repetida em quatro fileiras, espaçadas por 1,5m entre si no mesmo sentido de deslocamento do pulverizador. Foram pulverizadas as últimas quatro fileiras de plantas, por um comprimento de 50m.

Sobre as placas de polietileno, foram fixados papéis filtrantes com pH neutro e gramatura de 65g/m2 com dimensões de 0,38m x 0,07m.

Para a realização das aplicações, seguiu-se a metodologia descrita na Norma ISO 22866.

Equipamento utilizado para avaliar a deriva.
Equipamento utilizado para avaliar a deriva.
Pulerizador hidropneumático montado, dotado de 12 bicos.
Pulerizador hidropneumático montado, dotado de 12 bicos.

Quantificação do traçador

Ao finalizar a parte de campo, foram feitas a extração e a quantificação da rodamina B dos papéis. De posse dos dados de concentração da rodamina B extraída dos papéis, conhecendo-se o volume de calda e a concentração real da calda, foi determinado o depósito do traçador por unidade de área dos coletores de deriva, expresso em microlitros por centímetro quadrado (μL/cm2).

O experimento foi realizado com dois tipos diferentes de pontas: de jato cônico vazio
O experimento foi realizado com dois tipos diferentes de pontas: de jato cônico vazio
O experimento foi realizado com dois tipos diferentes de pontas: de jato cônico vazio com indução de ar
O experimento foi realizado com dois tipos diferentes de pontas: de jato cônico vazio com indução de ar

Resultados

As aplicações feitas no cafeeiro com a ponta de jato cônico vazio com indução de ar (TVI) ocasionaram menor deriva do que a ponta de jato cônico vazio sem indução de ar (ATR) até 20 metros de distância da última linha pulverizada. A partir desta distância, não houve diferença entre as duas pontas. Dessa forma, a ponta com indução de ar reduziu a deriva da calda para as áreas mais próximas da cultura, pois essas pontas produzem gotas com maior diâmetro da mediana volumétrica, resultando em gotas de maior massa, o que dificulta o arraste pelo vento.

Em alguns casos, pode ocorrer aumento da deriva com pontas de indução de ar nas distâncias mais próximas à área tratada, em função da passagem das gotas grossas pela parte inferior das plantas. Contudo, neste experimento a copa das plantas estava próxima à superfície do solo, impedindo que tal fato acontecesse.

Assim, a ponta TVI pode ser uma boa opção nas pulverizações em que o cafezal localiza-se próximo de regiões onde se deve reduzir ao máximo a deriva, como culturas vizinhas sensíveis ao produto aplicado, cursos d’água e áreas habitáveis. Porém, ao recomendá-la, deve-se levar em consideração a deposição de calda. Silva et al (2013) observaram que, no volume de 500L/ha, as pontas de jato cônico vazio com e sem indução de ar resultaram em semelhante deposição de calda nos terços inferior e superior de cafeeiros.

Com relação à eficiência de controle, Fießleden (2004) não observou diferenças significativas no controle de diferentes pragas usando pontas de jato cônico com e sem indução de ar. Esse mesmo autor afirmou que embora os resultados sejam promissores para as pontas com indução de ar, estudos são necessários para definir mais precisamente o efeito das aplicações quando não são utilizados produtos sistêmicos para controlar alvos muito pequenos.

Figura 1 - Curvas de deriva decorrentes de aplicações em cafeeiro feitas com dois tipos de pontas de pulverização
Figura 1 - Curvas de deriva decorrentes de aplicações em cafeeiro feitas com dois tipos de pontas de pulverização

As maiores porcentagens de deriva foram obtidas no ponto de coleta mais próximo da cultura, decrescendo à medida que se afastou da área tratada. Acima de 20m, a porcentagem de deriva ficou abaixo de 1%. Porém, em nenhuma distância este valor foi nulo, mesmo a 50m utilizando-se a ponta com indução de ar.

A avaliação mostrou que as pontas de jato cônico vazio com indução de ar reduziram a deriva até 20m de distância da área.
A avaliação mostrou que as pontas de jato cônico vazio com indução de ar reduziram a deriva até 20m de distância da área.

Considerações finais

As pontas de jato cônico vazio com indução de ar reduziram a deriva até 20m de distância da área tratada. A partir dessa distância, pontas com e sem indução de ar geraram a mesma deriva. Neste sentido, a seleção adequada das pontas de pulverização é uma boa estratégia para o agricultor reduzir os problemas de deriva nas aplicações foliares em cafeeiro, tornando-as mais seguras ambientalmente.


Guilherme Sousa Alves, João Paulo Rodrigues da Cunha, Universidade Federal de Uberlândia


Artigo publicado na edição 169 da Cultivar Máquinas


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