Qualidade das sementes de soja

Sementes sadias, isentas de organismos patogênicos, ajudam a originar lavouras igualmente saudáveis e vigorosas, ao menos nas fases iniciais de desenvolvimento vegetativo. Por isso muita atenção deve ser dispensada ao material genético, para evitar problemas como baixo vigor e germinação, ocorrência de doenças nas primeiras fases de desenvolvimento das plantas, menores produtividades e custo elevado de produção.

O bom desempenho de uma cultivar no campo depende essencialmente das suas características genéticas e do manejo dispensado em todas as etapas do processo produtivo, inclusas as fases de condução a campo, colheita, beneficiamento e armazenamento. Genótipos com elevado potencial produtivo podem não corresponder à expectativa se não receberem tratamento adequado no campo. Os aspectos mais intimamente ligados à resposta produtiva de um genótipo são, sem dúvida, a população de plantas, a época de plantio, os fatores edafoclimáticos e o manejo fitossanitário da lavoura. A colheita no momento adequado e com maquinário regulado de forma correta, o beneficiamento e as condições de armazenamento irão contribuir com a manutenção da qualidade fisiológica e sanitária da semente produzida.

Portanto, o investimento em determinado genótipo com elevado potencial produtivo demanda o conhecimento das condições em que suas sementes estão sendo produzidas, do perfil fisiológico e fitossanitário de suas sementes e a utilização de alta tecnologia de produção.

Assim, torna-se difícil dizer qual cultivar tem apresentado melhores resultados a campo, em função da grande variação dos fatores de produção mencionados. Mas é possível mostrar quais os genótipos disponíveis aos produtores de soja que têm apresentado melhores atributos fisiológicos e fitossanitários.

Um dos fatores que mais agregam ou depreciam a qualidade fisiológica e fitossanitária de um lote de sementes está na associação de organismos causadores de doenças. Processos patogênicos já conhecidos há bastante tempo e doenças emergentes (novos processos patogênicos) têm acompanhado a expansão da cultura da soja nas áreas de cerrado do Centro-Oeste, Norte e Nordeste do Brasil, tornando o aspecto fitossanitário como o fator mais limitante na obtenção de altos índices de produtividade.

São conhecidas mais de 35 espécies de fungos transmitidos por sementes de soja, sendo Colletotrichum truncatum, Fusarium spp. (especialmente Fusarium semitectum), Macrophomina phaseolina, Cercospora kikuchii, Aspergillus spp. (especialmente Aspergillus flavus), Penicillium spp. e Rhizoctonia solani, os de maior importância econômica no cerrado. O fungo Corynespora cassiicola, agente causal da mancha-alvo em soja (doença de importância crescente no cerrado) e com potencial para transmissão ou transporte por sementes, ainda não tem sido detectado com segurança em função de seu lento desenvolvimento nos testes de sanidade convencionais.

Os danos causados pela associação de patógenos com sementes vão além das perdas diretas de população de plantas no campo, abrangendo também a redução do poder germinativo e do nível de vigor das sementes, a introdução aleatória e precoce de focos de infecção, a introdução de patógenos em áreas isentas, o acúmulo de inóculo em áreas de cultivo, o aumento dos custos para controle, a formação de sementes anormais (deformação e descoloração), a redução do número de sementes (menores produções), a disseminação de doenças a longas distâncias, a deterioração de sementes durante o período de armazenamento, que representa um meio de perpetuação de doenças entre gerações, a inutilização temporária de áreas para o cultivo de determinadas espécies e a contaminação de máquinas e equipamentos de colheita e beneficiamento.

Desta forma, sementes sadias (isentas de organismos patogênicos) irão originar lavouras sadias e vigorosas, ao menos nas fases iniciais de desenvolvimento vegetativo. Sementes associadas a patógenos proporcionarão lavouras com desenvolvimento inicial comprometido (baixo vigor e germinação), com a ocorrência de doenças nas primeiras fases de desenvolvimento das plantas, com menores produtividades e com custo de produção mais elevado.

Metodologia de coleta e processamento das amostras

A Associação dos Produtores de Soja do Mato Grosso (Aprosoja) promove a cada ano o Circuito Tecnológico Aprosoja, com visitas a propriedades em todo o estado e coletando informações e amostras de sementes e fertilizantes utilizados na instalação da safra. Os dados e materiais coletados durante o circuito são utilizados para elaborar um diagnóstico da safra e estabelecer ações para a solução de problemas que afetam o complexo produtivo da soja em Mato Grosso.

No Circuito Tecnológico Aprosoja 2014/2015 as amostras de sementes coletadas foram encaminhadas ao Laboratório de Fitopatologia da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT/Famev) para análise de germinação, vigor e sanidade.

Foram encaminhadas 568 amostras de sementes. Deste total, 404 amostras não tinham recebido tratamento fungicida e foram submetidas ao teste de sanidade. As amostras compostas foram avaliadas quanto ao aspecto sanitário pelo teste de blotter ou incubação em papel de filtro. Lotes de 400 sementes divididos em oito repetições de 50 sementes foram submetidos à incubação em placas de Petri de 15cm de diâmetro esterilizadas, com três folhas de papel de filtro umedecidas com água destilada e esterilizada. Não foi realizada esterilização superficial das sementes nem foram utilizados restritores, obtendo-se, assim, a população fúngica efetivamente presente interna ou externamente nas sementes. As placas foram mantidas em sala de incubação por sete dias a temperatura de 22ºC e fotoperíodo de 12 horas. Após o período de incubação, o registro dos fungos presentes nas sementes foi feito com a utilização de microscópio estereoscópico e biológico.

As características fisiológicas (germinação e vigor) foram determinadas de acordo com as especificações da Regra para Análise de Sementes (Mapa, 2010).

Dados observados

Os lotes utilizados na instalação das lavouras de soja em Mato Grosso na safra 2014/2015 e avaliados neste trabalho mostraram qualidade fisiológica e fitossanitária surpreendentemente superior aos lotes avaliados nos últimos três anos. Os baixos níveis de ocorrência (porcentagem de lotes positivos) e incidência (porcentagem de sementes infectadas ou contaminadas), refletidos sobretudo na qualidade fisiológica (germinação e vigor) das sementes e no desempenho inicial das lavouras, comprovam a qualidade das sementes utilizadas nesta safra.

Através da análise da incidência de fungos patogênicos sobre as amostras de sementes de soja avaliadas foi possível verificar a ocorrência média de Colletotrichum truncatum (0,68%), Fusarium spp. (2,67%), Aspergillus spp. e Penicillium spp. (12,16%), Phomopsis sojae (0,10%), Rhizoctonia solani, Cercospora kikuchii (0,15%), Corynespora cassiicola (0,09%) e bactérias contaminantes (0,11%), portanto, os principais patógenos associados a sementes desta oleaginosa, além de fungos oportunistas ou contaminantes frequentemente encontrados sobre sementes de soja (Cladosporium sp., Rhizopus stolonifer) e agentes de controle biológico (Trichoderma spp.).

Os fungos de armazenamento Aspergillus spp. e Penicillium spp. não interferiram nos atributos fisiológicos avaliados, comprovando sua presença nas camadas externas das sementes em decorrência das colheitas em condições de elevada umidade.

Entre as espécies de Fusarium associadas às sementes de soja, F. semitectum é a mais comum. Contudo, nesta safra, apenas 3,4% dos lotes apresentaram índices superiores a 10% de incidência do patógeno.

Apesar de sua importância como patógeno de solo responsável pelo tombamento em pré e pós-emergência, podridão radicular e mela na parte aérea da planta de soja, o fungo Rhizoctonia solani tem sido reportado em baixos níveis nas sementes utilizadas em Mato Grosso, estando presente em níveis de inóculo mais elevado nos solos cultivados com soja. Neste levantamento, o patógeno não foi encontrado nas amostras avaliadas.

Entre os fungos incidentes nas sementes de soja e que causam algum processo patogênico na parte aérea, Colletotrichum truncatum é o mais preocupante, em função da precocidade da antracnose em lavouras semeadas com sementes infectadas. Neste levantamento, apenas 1,9% das amostras estava infectada pelo patógeno em níveis acima de 5% de incidência nas sementes, considerado temporariamente como patamar para dano econômico.

Foram registrados 92% dos lotes com vigor e germinação superior a 80%.

Os resultados referentes à qualidade fisiológica e sanitária das sementes de soja plantadas na safra 2014/2015, obtidas durante o VI Circuito Tecnológico Aprosoja, Etapa Soja 2014, permitem afirmar que, nesta safra, as sementes utilizadas foram responsáveis por lavouras inicialmente vigorosas e sadias. Condições climáticas (precipitação e temperaturas) extremas, elevado teor de inóculo acumulado no solo e práticas culturais inadequadas foram os fatores responsáveis por lavouras estressadas ou com altos índices de severidade de doenças como mancha-alvo, antracnose e podridões radiculares.


Daniel Cassetari Neto, Famev/UFMT, Eduardo Vaz, Aprosoja; Jessica Crstinne Marques, Kamila Bezerra da Silva, Lucas Manuel Arruda Marinho, Mayara Almeida de Souza, Rafael da Silva Juliani, Savio Henrique de Almeida Sardinha, Vinicius Sarubi, Ygraine Figueiredo de Albuquerque, Laboratório de Fitopatologia/Famev/UFMT


Artigo publicado na edição 195 da Cultivar Grandes Culturas. 


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