Qualidade operacional do preparo do solo

A necessidade de obter vantagens competitivas estimula as empresas a adotarem estratégias para sustentar o sucesso competitivo. Trazendo este pensamento para os processos operacionais desenvolvidos nas propriedades agrícolas, a estratégia para alcançar vantagens competitivas frente aos elevados custos de produção e a oferta crescente dos produtos, ou seja, a competitividade do mercado, deverá focar na eficiência operacional através do gerenciamento para a qualidade. Determinar a eficiência do ciclo produtivo através de mensuração e qualificação em cada etapa (processo) permitirá determinar os processos que estão em conformidade ou não com as metas estabelecidas no planejamento e assim rapidamente atuar na correção para a melhoria contínua. Várias técnicas de análise podem ser empregadas para caracterização dos processos. Técnicas simples ou mais complexas, que vão desde a aplicação de questionários ao levantamento de dados quantitativos para aplicação de ferramentas da estatística da qualidade para controle de processo. Estas técnicas vêm sendo adotadas pelas empresas agrícolas, porém, ainda de forma bem tímida. O questionário na verdade é uma lista de checagem (ferramenta checklist) sobre os fatores de interferência na operação. Já as ferramentas da estatística conhecidas como Controle Estatístico de Processo (CEP), quando aplicadas para avaliar o desempenho operacional, permitem visualizar os defeitos e atuar corretivamente prontamente após análise dos dados.

Largamente aplicado nas indústrias, o CEP tem grande potencial de utilização na agropecuária. O trabalho de produção agrícola em sua maior parte é realizado por etapas distintas, uma vez que está sujeito à periodicidade, tanto das condições climáticas como das fases de desenvolvimento e produção das plantas e dos animais. Entre os elementos essenciais à obtenção de um produto agrícola, tais como solo, clima, variedade selecionada, fertilizantes, defensivos etc, destacam-se como de fundamental importância os meios disponíveis para realizar as operações agrícolas, nos quais as máquinas e os implementos agrícolas estão incluídos.

As operações agrícolas de preparo do solo são normalmente realizadas sem que haja um controle efetivo para que a variabilidade das mesmas fique dentro de padrões aceitáveis. Tanto do ponto de vista da qualidade da operação como do desempenho operacional se faz necessário o levantamento de informações para avaliar o processo.

DA AVALIAÇÃO DO PROCESSO

Para realização da avaliação do processo mecanizado inicialmente é importante elencar as informações necessárias para caracterizá-lo através de parâmetros qualitativos e quantitativos. As informações mensuráveis levantadas de forma sistêmica e em quantidade adequada poderão subsidiar a visualização dos fatores envolvidos e suas interdependências no processo e serem utilizadas para aplicação nas ferramentas do Controle Estatístico de Processo.

DA APLICAÇÃO PRÁTICA DA AVALIAÇÃO

Um estudo foi realizado para análise da qualidade da execução de operação de preparo periódico do solo, aração, em área de relevo suave ondulado para implantação da cultura de tabaco numa propriedade agrícola no município de Governador Mangabeira, na Bahia. Além das informações pertinentes em relação ao desempenho operacional das máquinas (tempo morto (s), tempo efetivo de trabalho (s), consumo (L/h), capacidade teórica de trabalho (ha/h), capacidade efetiva de trabalho (ha/h) e eficiência (%)), foi aplicada uma lista de checagem abordando os fatores mão de obra, máquina, meio e método.

Para o estudo, foram utilizados na operação um trator Marca New Holland, Modelo TL 75, de 56kw com TDA e um arado de Marca Baldan Modelo ARH, reversível de três discos de 28" de diâmetro, largura de corte de 1m. O conjunto operou em primeira marcha simples. Para realização dos cálculos, trabalhou-se com os seguintes dados da operação de aração: - largura de corte (m) conforme espaçamento entre leiras da lavoura estudada e número de linhas que a máquina apresenta; - velocidade de operação (m/s), sendo a velocidade média de operação da aração no preparo do solo; - área trabalhada (m2) como área demarcada para realização das avaliações da máquina; - tempo efetivo de campo (min): tempo total para a máquina arar a área demarcada.

Na Tabela 1 são apresentados os resultados das diversas determinações de capacidade de trabalho e eficiência de campo do conjunto trator-arado. Durante a aração verificou-se variação de velocidade de operação do conjunto nas diferentes faixas trabalhadas obtendo eficiência média de campo em torno de 56%, ficando muito abaixo dos valores de eficiência de campo citados na literatura consultada, que em todos os casos não ficaram abaixo de 70%. A menor velocidade média foi de 3,5km/h e a maior de 5,4km/h, com coeficiente de variação (CV) de 14,83%. Vale ressaltar que para eficiências de campo superiores a 70% as médias de velocidades se encontram de 7km/h, ou seja, acima do máximo encontrado na operação avaliada, isso explica uma possível causa da baixa eficiência de campo. Outro ponto a ser observado foi a grande quantidade de torrões produzidos pelo fato de o solo ter sido trabalhado inicialmente com baixa umidade, o que pode prejudicar trabalhos posteriores como gradagem e plantio. O tempo efetivo de trabalho obteve um coeficiente de variação de 5,70% demonstrando que ocorreu de forma precisa, já para o tempo morto total, o coeficiente foi acima de 78%, valor muito alto que demonstra a alta variação com pouca precisão na realização das manobras pelo operador, colaborando para a perda de eficiência da operação.

Tabela 1 - Resultados de determinações de rendimento de trabalho obtidos no processo de aração

Faixas

Tempo morto total

Tempo efetivo de trabalho

Capacidade teórica

Capacidade efetiva

Eficiência efetiva

Velocidade efetiva de trabalho

Largura de trabalho

S

S

ha h-1

ha h-1

%

Km h-1

m

Média

218,45

752,83

0,75

0,42

56,03

4,67

0,90

Mínimo

67,00

703,40

0,75

0,31

41,59

3,50

0,90

Máximo

469,00

804,90

0,75

0,48

64,38

5,40

0,90

Desvio Padrão

170,67

42,88

0,06

8,45

0,69

-

C.V.

78,13

5,70

15,00

15,08

14,83

-

Para avaliação do ponto de vista qualitativo foram elencados os fatores de relevância de interferência na qualidade da operação como mão de obra, máquina, meio e método, criação de uma lista de checagem e, posteriormente, realizada a verificação dos itens. Nesta avaliação cada fator recebeu uma notificação certificando o cumprimento ou não do item. Como itens para avaliação do fator mão de obra considerou-se o uso de equipamentos de proteção individual, a manutenção do conjunto trator/arado. Verificaram-se os conhecimentos dos colaboradores relacionados às condições de umidade do solo, assim como o conhecimento da regulagem do arado para aquele tipo de solo.

No fator máquina, foram avaliados o trator e o arado através de entrevistas com os operadores da empresa. Para o trator os itens de avaliação foram o tacômetro e horímetro, o acelerador manual, os pneus e a presença do decalque para escalonamento de marchas, a lastragem e o espaçamento da bitola. Já para o arado avaliaram-se o espaçamento dos discos, a manutenção e o abrigo para o implemento. Para o fator meio, avaliou-se a umidade do solo no momento da aração. O fator método foi avaliado pelo sistema de aração utilizado, ou seja, a forma, o sentido ou a direção dos deslocamentos do conjunto trator/arado pela faixa que se quer arar.

Também foram avaliados indicadores qualitativos e quantitativos relacionados à operação, tais como esboroamento do solo, umidade, inversão de leiva, profundidade e rugosidade do solo. Neste caso, utilizou-se uma malha de 75 pontos de amostragem, onde foram feitas as avaliações visuais e a mensuração de dados. Para o processamento dos dados, análise e geração de gráficos, utilizou-se o software de estatística Action integrado ao Excel. Os dados foram analisados aplicando-se a ferramenta estatística da qualidade através da geração de carta de controle do processo.

Verificou-se que do fator mão de obra (Tabela 2), os itens curso de atualização, conhecimento das condições de umidade do solo e regulagem do implemento não são realizados ou são desconhecidos para os operadores. Para os itens de avaliação do fator máquina (Tabela 3) o tacômetro e o horímetro não funcionavam, a bitola não era regulada devidamente em função da largura de corte e o arado não era regulado. Nos fatores meio (Tabela 4) e método (Tabela 5), a umidade do solo não correspondeu ao estado friável, condição indispensável para o revolvimento do solo e o sistema de aração também não foi o mais adequado para o terreno.

Tabela 2 – Lista de checagem dos itens de avaliação do fator mão de obra

Itens de avaliação

Presença e estado dos itens de avaliação

SIM

NÃO

EPI

Presente

X

Usa

X

Manutenção

Mantém o trator em condições de uso

X

Curso de atualização

Fez algum treinamento entre 1 e 2 anos

X

Condições climáticas

Sabe qual a faixa de umidade do solo para realizar a aração

X

Arado

Sabe regular o implemento para trabalho de acordo tipo de solo

X

Tabela 3 – Lista de checagem dos itens de avaliação do fator máquina – Trator e Arado

Itens de avaliação

Presença e estado dos itens de avaliação

SIM

NÃO

Trator

Tacômetro e horímetro

Operantes

X

Acelerador manual

Operante

X

Escalonamento de marchas

Presença do decalque

X

Pneus

Estreitos

X

Calibrado corretamente

X

Lastragem

Correta

X

Bitola

Regulada

X

Arado

Regulagem de discos

Correto

X

Manutenção do arado

Realiza

X

Abrigo para o arado

Existe

X

Tabela 4 – Lista de checagem dos itens de avaliação do fator meio

Itens de avaliação

Presença e estado dos itens de avaliação

SIM

NÃO

Umidade do solo

Estado friável

X

Tabela 5 - Lista de checagem dos itens de avaliação do fator método

Itens de avaliação

Presença e estado dos itens de avaliação

SIM

NÃO

Sistema de aração

Direção, sentido e forma correta

X

Dos 75 pontos amostrados no talhão trabalhado, 76% apresentaram depressão ou elevação, condição considerada inadequada que poderá interferir negativamente em todas as operações posteriores à aração (Figura 1). Mas de todos os parâmetros avaliados, a profundidade de corte do solo ficou muito abaixo do preconizado. Na Figura 2, o gráfico de controle com médias das profundidades da aração mostra que os dados ficaram muito abaixo da profundidade recomendada pelos responsáveis técnicos da propriedade que era de 25cm, sendo a média de 14,3cm.

Figura 1 - Gráfico da avaliação visual dos elementos de elevação e depressão do solo sob processo de aração

Figura 2 - Gráfico de controle com médias da operação de aração

RESULTADO FINAL

A utilização de ferramentas para gestão de processos realmente comprova o nível de qualidade das operações agrícolas, servindo de subsídio para a melhoria contínua ao facilitar a identificação das causas dos problemas.

As empresas agrícolas necessitam lançar mão do uso de métodos simples para controle de operações que sejam de fácil compreensão e aplicação em conjunto com os colaboradores de forma a obterem vantagens competitivas no sistema de produção. Definir objetivos, padrões e regras operacionais para todas as operações é de fundamentalmente importância para assegurar a qualidade de forma sistêmica, onde é bem claro para os executores que todos os processos possuem uma interdependência.

Este artigo foi publicado na edição 138 da revista Cultivar Máquinas. Clique aqui para ler a edição.

ver mais artigos

Tiago de Souza Profeta, Marcos Roberto da Silva e Fábio Henrique Santana