Quando a doença é azul

A doença azul constitui-se numa das principais doenças do algodoeiro no Brasil, sobretudo na região dos Cerrados. Inicialmente foi descrita pelo eminente pesquisador do Instituto Agronômico de Campinas, Dr. Álvaro Santos Costa, como Mosaico das Nervuras forma Ribeirão Bonito, em alusão ao fato de ter sido identificada causando sérios prejuízos ao algodoeiro na safra de 1963, no município de Ribeirão Bonito (SP).

Acreditou-se, àquela época, que a doença era ocasionada por uma estirpe severa do mosaico das nervuras, daí decorre a primeira denominação da doença. Ainda não se sabe ao certo se a doença azul ou o mosaico das nervuras forma Ribeirão Bonito representam a mesma doença, pois até o momento o agente causal de ambas não foi plenamente caracterizado. Entretanto a relação estreita entre os sintomas e a forma de transmissão das mesmas, leva a crer que se trata da mesma enfermidade.

ORIGEM DO NOME

O nome “doença azul” está associado a uma doença relatada em alguns países africanos tais como Chade, República dos Camarões, Zaire, Benin, e, principalmente, com maiores danos, na República Centro Africana e denominada de “blue disease”. Doença com sintomas semelhantes foi descrita nas Filipinas em 1963, bem como na Tailândia. Em 1977 foi relatada no Paraguai uma doença que apresentava as mesmas características da hoje bem conhecida doença azul, verificada no Brasil.

Na verdade foi a semelhança entre os principais sintomas das referidas doenças que, forçosamente, levou produtores e técnicos a acreditarem que mosaico das nervuras forma Ribeirão Bonito e doença azul constituem o mesmo problema, assim como acredita-se que doenças viróticas com aspectos semelhantes à doença azul podem existir em diferentes regiões produtoras de algodão do mundo. De qualquer modo, os danos ocasionados à cultura do algodoeiro é que são realmente dignos de nota.

A doença azul é de natureza virótica e tem como vetor o pulgão do algodoeiro Aphis gossypii Glov e não é transmitida através das sementes. Os principais sintomas são o clareamento das nervuras, no início, seguido de enrolamento dos bordos foliares, tomando as folhas um verde intenso que evolui para uma coloração arroxeada. Verifica-se, ainda, redução intensa do porte da planta em até 80% e, quando não ocasiona completa esterilidade da planta, torna a fibra produzida imprestável para uso comercial. Os danos ocasionados à cultura do algodoeiro podem ser verificados de maneira mais clara através dos dados apresentados, onde foram avaliadas plantas de uma cultivar suscetível com diferentes graus de infecção. Verifica-se que a produção por planta, o peso do capulho e a percentagem de fibra sofrem drástica redução, à medida em que se eleva a severidade da doença.

A doença azul já é bastante familiar ao produtor de algodão do cerrado brasileiro, embora não haja quem goste de ver sua plantação afetada. O Brasil tomou conhecimento dos graves prejuízos que esta doença causou à cotonicultura goiana na safra 1997/98 em função de problemas relacionados ao controle do vetor na cultivar Deltapine Acala 90. Para manejar a doença o produtor deve estar atento às características do material genético utilizado, pois a resistência ou suscetibilidade à virose é que determinarão o modo como o produtor deverá enfrentar a doença azul.

CULTIVARES RESISTENTES

Para que se possa ter uma idéia mais precisa das diferenças observadas no comportamento de cultivares resistentes e suscetíveis em relação à doença azul na presença de alta infestação do vetor, apresentamos na tabela 2 alguns dados que ilustram bem a reação à virose em três períodos distintos.

Vê-se, portanto, que em uma cultivar suscetível, como a CNPA ITA 90, já aos 10 dias após 100% de infestação de pulgões, tem-se quase 35% de plantas com virose, ao passo que em uma cultivar resistente como a BRS Antares tem-se apenas 1,67% de plantas infectadas. Portanto, o manejo da doença deverá ser diferenciado para as duas variedades. Para a cultivar resistente tem sido recomendado fazer amostragem de pulgões na face inferior da folha expandida mais alta. O período crítico é de 20 a 70 dias e de 110 a 130 dias, este último para evitar a presença indesejável de pulgões no final do ciclo e reduzir a possibilidade de ocorrência do que se convenciona chamar de algodão doce. O nível de controle, neste caso dá-se quando forem detectados 20 pulgões por folha e 50 a 60% das plantas estiverem com pulgões.

No caso de cultivares suscetíveis a amostragem deverá ser realizada na face inferior de várias folhas na planta. O período crítico compreende dos 5 aos 100 dias e dos 110 aos 135 dias. O nível de controle é definido quando forem localizados 5 pulgões por folha e 5 a 10% das plantas estiverem com pulgões.

Os produtores de Mato Grosso, estado que planta mais da metade de sua área de algodão com a cultivar CNPA ITA 90, suscetível à doença azul, conhecem bem como enfrentar o problema e têm obtido produtividades recordes com esta cultivar. Entretanto tem-se verificado, ao longo das safras, um aumento expressivo nos custos de produção da lavoura, estando embutido nestes, o custo elevado de controle do pulgão. É necessário que os produtores, lado-a-lado com o esforço da pesquisa, passem a adotar gradativamente cultivares com maiores níveis de resistência à virose buscando, sobretudo, a sustentabilidade do sistema produtivo.

Uma preocupação que vem sendo levantada pelos produtores diz respeito à possibilidade de aumento da incidência da doença em cultivares suscetíveis, em função do plantio na mesma área de cultivares com resistência à virose, onde a população de pulgões seria mantida elevada. Pouco se sabe a respeito do comportamento do vírus na planta de algodoeiro. Se este se multiplicar no material resistente, embora sem haver expressão de sintomas, o que caracterizaria um fenômeno típico de tolerância, haveria certamente aumento de inóculo pelo aumento da população infectada do vetor.
Por outro lado, se o vírus não se multiplicar no material genético resistente, e ao que parece esta é uma tendência que vem sendo observada nos estudos até então realizados, o material suscetível estaria exposto apenas ao inóculo primário, constituído de pulgões infectados que chegariam ao plantio e permaneceriam sobre o material resistente. Para reduzir a possibilidade de infecção do material suscetível, poder-se-ia estabelecer uma barreira química com pulverizações na bordadura do plantio, tanto do lado do material resistente para reduzir a população do pulgão quanto do lado do material suscetível para eliminar o vetor que estiver entrando.

Alderi E. de Araújo,
Embrapa Algodão

* Este artigo foi publicado na edição número 25 da revista Cultivar Grandes Culturas, de fevereiro de 2001. ver mais artigos
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