Quando a planta daninha "engana" o herbicida II

Medidas de manejo têm sido recomendadas para enfrentar o problema da resistência de plantas daninhas a herbicidas, mas infelizmente não são muitas as alternativas disponíveis e menos ainda as práticas adequadas à situação de cada lavoura.

Desde o início é necessária uma identificação precisa das espécies daninhas que ocorrem na lavoura, bem como é indispensável conhecer sua biologia. Também se deve conhecer bem o fenômeno da resistência e saber quando está efetivamente ocorrendo ou quando há possibilidade de isso acontecer. Se um fenômeno de resistência ocorre em uma região, deve-se prestar muita atenção às espécies e herbicidas relacionados.

No Brasil, as espécies que merecem atenção especial, por já terem sido relacionadas a casos de herbicidas, são a Amaranthus sp., Bidens pilosa, Brachiaria plantaginea, Euphorbia heterophylla, Sagitaria montevidensis. No mundo já foram identificados, até 05.10.99, 219 biótipos, em 147 espécies resistentes (ver na internet www.weedscience.com). Devemos nos preocupar mais, pela ocorrência de espécies no Brasil, com Avena spp., Echinochloa spp., Eleusine indica, Lolium sp., e Setaria spp.

A existência de um biótipo resistente a determinado herbicida é no geral muito baixa inicialmente; talvez uma planta em um bilhão. Se uma planta resistente completa o ciclo, vai produzir algumas centenas ou milhares de sementes. Nas safras seguintes ocorre uma multiplicação em escala geométrica. Geralmente, quando detectado, o problema já é significativo.

É necessário tentar conter ou eliminar o problema nas lavouras. E evitar também a disseminação em outras áreas. É preciso reconhecer, contudo, que esse mesmo biótipo existe, naturalmente, em muitas outras áreas, de onde igualmente vai haver disseminação. Os focos tendem a se multiplicar. Plantas resistentes desenvolvem-se quando o controle das plantas infestantes é efetuado basicamente com herbicidas, usando-se com alta freqüência produtos com mecanismos de ação semelhantes.

Medidas preventivas

Já se conhecem medidas preventivas. Antes de tudo, por exemplo, deve-se usar sementes não contaminadas com sementes de espécies daninhas. Na legislação brasileira sobre sementes estão previstos índices máximos para certas espécies nocivas, porém essas normas não consideram o fenômeno relativamente novo da resistência.

As máquinas colheitadeiras, além disso, podem levar sementes de infestantes de uma lavoura para outra, espalhando o problema, quando colhem grãos. Sabendo-se da ocorrência de plantas resistentes na área, uma limpeza em regra é exigida após o trabalho, ou antes de passar para outra lavoura. Já estão aparecendo as primeiras colheitadeiras que, além dos grãos da cultura, colhem e separam outras sementes, como as de plantas infestantes. Alguns protótipos já operam na Austrália. Desse modo, pode-se remover grande quantidade de sementes daninhas.

O controle também envolve práticas culturais. Assim, a época de semeadura é importante, pois basta retardá-la para que maior número de plantas infestantes tenha emergido na hora da aplicação de "herbicidas de manejo". Isso ajuda a eliminar bom número de competidoras, inclusive algumas resistentes. Além disso, há a possibilidade de se alternar culturas do mesmo período (mesmas espécies infestantes), que permite trocar de métodos de controle, inclusive herbicidas com diferentes mecanismos de ação. Essa medida é muito prática para ajudar na solução do problema.

Métodos mecânicos

E há, ainda, métodos mecânicos de controle, como as capinas ou o pastoreio depois da colheita. A resistência a métodos mecânicos, como a capina, vem de um eventual rebrotamento ou um novo enraizamento a partir de partes vegetais deixadas sobre o solo. No caso de plantas como as trapoerabas o ideal é remover todo o material depois da capina. Há casos em que a capina pode eliminar plantas resistentes, mas a movimentação do solo traz à superfície novas sementes, dando-lhes condições de germinar. Exemplo disso é o picão-preto, Bidens pilosa.

Soltar o gado nas áreas colhidas pode ajudar na eliminação de plantas daninhas que venham a se estabelecer. Isso é mais significativo se o plantio da cultura á alternado com a exploração pecuária, como muitos fazem alternando cultura de arroz irrigado com pastagem. No passado isso era prática normal para o controle do capim-arroz Echinochloa spp.

Hebicidas dominam

O uso de herbicidas é a prática dominante no controle das plantas indesejadas. Novos produtos, com características sempre mais interessantes, surgem a cada temporada.

• Ação - Em princípio, herbicidas com mecanismos de ação semelhantes também tendem a falhar contra os mesmos biótipos de plantas resistentes. Isso, contudo, não é uma regra fixa. Pequenas diferenças nos sítios de atuação produzem resultados diferentes. Um biótipo resistente a um inibidor de ACCase pode ser menos resistente a outro produto ou ser suscetível a um terceiro. Um biótipo resistente a um inibidor de ALS também pode ser menos resistente ou suscetível a outro produto. Na prática, tem se observado que numa espécie com resistência não ocorre apenas um biótipo, mas diversos, os quais têm sensibilidades a diversos herbicidas com mecanismos de ação semelhantes.

• Tabelas – Estão sendo construídas tabelas agrupando produtos com mecanismos e sítios de ação semelhantes. Essas tabelas ainda não são perfeitas e continuam a ser aprimoradas. De qualquer modo, são muito úteis para a seleção de herbicidas diferentes. Deve-se considerar que entre os mecanismos de resistência também podem estar a alteração na capacidade metabólica ou a retenção, conforme explicado na primeira parte. Para esses tipos de resistência ainda não se formaram tabelas e as atuais, baseadas na atividade bioquímica dos produtos, têm pouca serventia em relação a mecanismos metabólicos ou de retenção.

• Níveis – O nível de controle necessário para invasoras em geral é aquele que evita dano econômico. Nem sempre é necessário um controle de 100%. No caso de espécies com biótipos resistentes, entretanto, deve-se visar sempre um controle próximo ao total.

• Misturas – É comum hoje o uso de dois ou mais herbicidas para uma cultura, mas geralmente para complementação do espectro. Eventualmente uma mesma espécie é suscetível aos dois ou mais produtos visados. Visando ao problema da resistência, pode-se combinar o uso de dois tipos de herbicidas, com mecanismos de ação diferentes. Quando se combinam dois herbicidas eficientes contra uma mesma espécie, geralmente se reduzem as doses, esperando o efeito somatório. Isso torna-se crítico no caso de resistências, pois se uma planta é resistente a um dos produtos, necessitará a dose plena do outro composto para ser controlada. Sabendo-se da ocorrência de uma espécie resistente a um produto, melhor que combinar é usar logo a dose plena de outro produto, sabidamente eficiente.

Na combinação de dois herbicidas de pré-emergência, ou um de pré e outro de pós, deve ser lembrado que um efeito residual diferenciado (um longo e outro curto ou inexistente) deixará espécies de plantas daninhas expostas a um só produto por certo tempo. O melhor é que ambos tenham períodos de atuação semelhantes.

• Alternância – A escolha de um herbicida depende de muitos fatores. Alternar para uma mesma cultura, de forma preventiva, pode ser interessante se na região são conhecidos casos de resistência e plantas resistentes podem estar ocorrendo na lavoura sem a percepção do agricultor. Se produzirem sementes o problema se multiplica. Sem um histórico regional de resistência e sem outros motivos significativos, a alternância pode não fazer muito sentido.

Nos últimos anos surgiram muitos herbicidas altamente eficientes, que dominaram o mercado. Alguns deles, no entanto, apresentam riscos de resistência. Para programas de manejo tende a crescer novamente o uso de velhos produtos, de menor eficiência mas sem históricos de resistência, como as dinitroanilinas ou cloroacetamidas, por exemplo.

• Biotecnologia – O advento de plantas cultivadas tornadas resistentes a herbicidas não seletivos pela manipulação genética estará modificando a forma de superar problemas de resistência. Na ocorrência de um problema com qualquer herbicida, pode-se semear culturas transgênicas e usar um herbicida total ao qual essa cultura foi tornada resistente.

Classes de herbicidas

Existem muitos critérios para agrupar herbicidas. Um deles é segundo a forma de atividade biológica dos produtos. Devemos lembrar que:

Modo de ação engloba todos os episódios, desde o contato do herbicida com as plantas até o resultado final. Classificações segundo o modo de ação são muito abertas.

Mecanismo de ação define a interferência direta na atividade bioquímica, da qual resulta o efeito herbicida. Um produto pode apresentar um mecanismo único ou vários mecanismos, dos quais um pode ser mais importante ou o resultado pode depender da soma de efeitos.

A classificação apresentada por organismos internacionais considera especialmente os mecanismos de ação que podem conduzir a resistências. Essa classificação é atualizada na medida em que novos conhecimentos surgem.

Kurt G. Kissmann
Consultor

* Este artigo foi publicado na edição número 11 da revista Cultivar Grandes Culturas, de dezembro de 1999. ver mais artigos
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