Reduzindo o neps

O algodão produzido no cerrado do centro oeste brasileiro tem apresentado alto número de neps por grama. Nas primeiras partidas de exportação de algodão do cerrado do Mato Grosso para a Europa em 1999, os importadores reclamaram do elevado número de neps medido nas fibras, apesar da excelente qualidade do produto. Existe a perspectiva de, na safra 2002/2003, o Brasil atingir a auto-suficiência no abastecimento interno de algodão, passando a exportar volumes elevados do produto.

Para exportar produtos de alta qualidade, os produtores do cerrado demandaram informações sobre as causas e soluções para o problema do alto número de neps no algodão oriundo do cerrado. Foram levantadas dúvidas sobre qual a etapa do sistema de produção ou da cadeia produtiva, que estaria provocando a elevação do número de neps.

Análises efetuadas pela Fundação Blumenauense de Estudos Têxteis com algodões importados comprovaram neps elevados nos algodões procedentes da Bolívia (393 neps/g), Israel, Espanha e Argentina, todos com valores acima de 306 neps/g. Os algodões importados de valores de neps mais baixos foram encontrados nos algodões procedentes do Egito (150 neps/g) e África (182 neps/g). Entre os algodões produzidos no Brasil os de neps mais elevados foram os oriundos dos Estados de Goiás (280 neps/g), São Paulo (268 neps/g), Minas Gerais (264 neps/g), Mato Grosso do Sul (249 neps/g) e Mato Grosso (222 neps/g). Os Estados da Bahia e Paraná apresentaram valores mais baixos com 218 neps/g. Considerando que os algodões procedentes dos Estados Unidos apresentaram 255 neps/g em média, os algodões brasileiros em sua maioria apresentam valores bastante aproximados.

BUSCANDO A SOLUÇÃO

Para identificar as etapas do sistema de produção e da cadeia onde ocorria elevação do número de neps foram programados uma série de ensaios, onde procurou-se avaliar os efeitos sobre os neps dos seguintes fatores:

• Cultivares – foram avaliadas as cultivares CNPA ITA 90, BRS Antares, BRS ITA 96, CS 50, Acala SM 3, BRS 197 e Goianinha;

• Desfolhamento vs. sem desfolha em várias partes da planta (baixeiro, meio e ponteiro);

• Tipos de colheita – avaliou-se colheita manual, colheitadeiras Case e Jonh Deere e algodão transportado a granel e em fardões prensados;

• Processos de descaroçamento – avaliou-se o descaroçamento em máquinas de rolo, descaroçadores de 90 serras e de 142 serras, com e sem uso de umidificadores e com e sem uso de limpa plumas (Costelation);

• Combinações dos fatores cultivares, tipos de colheitas e processos de descaroçamento sobre o aumento dos números de neps.

Verificou-se que todas as cultivares, quando colhidas manualmente e beneficiadas em descaroçadores de rolo, tinham baixos números de neps, variando de 74 na BRS 197 a 165 na Acala SM 3. O beneficiamento em descaroçadores de serras em média duplicou o número de neps, quando comparado com o beneficiamento em descaroçadores de rolo. O uso de limpa plumas do tipo costelation provocou aumento no número de neps, especialmente no algodão beneficiado sem umidificação.

CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES

• Todas as cultivares avaliadas apresentaram baixo número de neps, quando colhidas manualmente e descaroçadas em máquina de rolo;

• O modelo de colheitadeira utilizada não elevou o número de neps;

• O processo de desfolha do algodão não afetou o numero de neps;

• O processo de descaroçamento em máquinas de serras elevou o número de neps;

• O uso de limpa-plumas (costelation) elevou em até 42% o número de neps;

• O processo de umidificação do algodão, durante o descaroçamento reduziu a formação dos neps;

• Existem diferenças marcantes entre as algodoeiras, quanto aos valores de neps obtidos.

Eleusio Curvêlo Freire e Francisco José Correia Farias,
Embrapa Algodão
Paulo Hugo Aguiar,
Fundação MT

* Este artigo foi publicado na edição número 27 da revista Cultivar Grandes Culturas, de abril de 2001. ver mais artigos
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