Reflexões sobre invasoras

Havendo limitações nos fatores luz, água, nutrientes e espaço, haverá competição entre a cultura explorada comercialmente e as invasoras. O resultado indica, sempre, prejuízo na qualidade e na quantidade do produto desejado. As perdas variam conforme a espécie invasora, sua densidade, o local e as condições da competição. Essas afirmativas são feitas com freqüência desde que se iniciou o cultivo da soja no Brasil, e continuam válidas até hoje, muito embora se saiba que o conhecimento sobre o problema “Plantas Daninhas” evoluiu significativamente nos últimos 20 anos.

Além da interferência direta, algumas espécies prejudicam o agricultor de forma variada, seja por redução no coeficiente técnico da colheita ou aumento da impureza, com o implacável desconto no momento da entrega, seja por causar danos às colhedeiras, a exemplo do que ocorre em áreas infestadas por Desmódio.

Enfim, todos sabem que a presença das invasoras deve ser evitada. Como fazê-lo? As alternativas de controle, na prática, são relativamente poucas. Há o método químico, como o principal meio, e o controle cultural, como uma alternativa que deve ser mais bem compreendida e utilizada. O conceito básico do controle cultural pressupõe o manejo das culturas e da propriedade, como forma de promover o controle das plantas daninhas. É um método abrangente que inclui várias práticas agrícolas. O planejamento e a rotação das culturas, a tecnologia adotada, o sistema e a época de semeadura, as coberturas, a nutrição mineral e as culturas são exemplos de alternativas que podem ser trabalhadas visando promover o rápido e o vigoroso desenvolvimento da cultura, criando-lhe condições para competir com as invasoras.

CONTROLE FÍSICO

Não se pode esquecer do controle físico, mas é sabido que sua utilização tem diminuído. Como controle físico, incluem-se as capinas manual e mecânica. A capina manual assume uma função social importante e tecnicamente pode-se afirmar que é eficiente e útil, especialmente nos casos de produção de sementes, em áreas com resistência de plantas daninhas.

A erradição é uma alternativa cara e provavelmente inviável nas áreas extensas. Mas a prevenção, sem nenhuma dúvida, tem efeitos altamente positivos e compensadores. Apesar disso, não é valorizada como deve. A disseminação de novas invasoras está intimamente ligada às atividades do homem. Máquinas e implementos são os principais meios, mas o homem é o agente causal. Quando do processo de introdução da soja no Brasil Central, perdeu-se a grande oportunidade de colocar em prática as alternativas para prevenir a entrada de novas espécies daninhas naquela área. Talvez não fosse possível impedir a disseminação das plantas daninhas, mas certamente seria fácil retardar o problema. Agora, vive-se uma nova fase na qual a prevenção pode ser valorizada. Com a identificação de áreas com plantas daninhas resistentes aos herbicidas é de se esperar que as máquinas sejam novamente os veículos de disseminação. Além disso, a prevenção da resistência por si só também pode ser adotada sem maiores dificuldades. Afinal, manejar herbicidas com mecanismo de ação diferenciado não é tão difícil assim.

CONTROLE QUÍMICO

Mas é, sem dúvida, o método químico o principal meio utilizado para controlar as plantas daninhas. Nesse segmento, a evolução foi surpreendente. Novos produtos e família de produtos foram colocados à disposição no mercado. Atualmente, são utilizadas doses reduzidíssimas, impactando menos o ambiente. É possível, mas isso depende de cada um. Tal qual um remédio para o homem, o herbicida pode ajudar ou prejudicar. Depende da forma como é utilizado. Dizem que a diferença entre o remédio e o veneno, é a dose, em alusão à necessidade do uso adequado. O uso adequado é necessário não só por razões da segurança do homem e do ambiente, mas também porque é necessário o retorno do investimento: a compra do produto e o controle efetivo das plantas daninhas.

A decisão sobre que herbicida, como e quando utilizar é muito mais séria do que simplesmente pensar no controle. Cada produto possui as suas especificações. O conhecimento e o mapeamento dos problemas específicos de cada área são fundamentais para se tirar o máximo proveito do produto. Na realidade, esse é o primeiro passo a ser dado: o mapeamento da área. Tão importante quanto a escolha do produto é a sua aplicação, e tão importante como conhecer os produtos é conhecer as pontas de pulverização. Da mesma forma que os herbicidas, existem várias alternativas de bicos de pulverização no mercado. E cada um possui características próprias, que são adequadas a uma ou outra situação. Dentre os problemas encontrados, a tecnologia de aplicação é um dos mais sérios e que precisa evoluir ainda mais. Mas não basta apenas um bom pulverizador. A experiência do aplicador também é fundamental, pois cabe a ele parte importante da responsabilidade na aplicação.

O controle das plantas daninhas na cultura da soja não envolve apenas a compra e a aplicação do produto. Para gerenciar um problema como esse é preciso conhecimento e planejamento. Com base nisso, foi proposto o manejo integrado. Na realidade, trata-se de uma filosofia de trabalho e não apenas de uma prática. Baseia-se na análise de cada problema individualmente, sem levar em conta as receitas prontas, e na adoção de um conjunto de práticas e ações.

Se o homem não ocupar o solo, as plantas daninhas certamente o farão. Portanto, o controle das plantas daninhas para a cultura da soja não deve ser pensado apenas na soja, mas durante o ano todo. Permitir o aumento do banco de sementes nos períodos de entressafra ou nas culturas de sucessão certamente significará dificuldades de controle na soja.

A capacidade de produção de sementes é uma das armas importantes que as invasoras dispõem. Algumas, como o picão-preto, que produzem comparativamente poucas sementes, mas usam o artifício do elevado poder de germinação para sua garantia, enquanto outras, como o caruru, utilizam a quantidade como artifício. Uma única planta pode produzir 120 mil sementes.

A natureza dotou as plantas daninhas com mecanismos hábeis na luta pela sobrevivência. Nessa competição, cabe ao homem aprender a conviver com elas, manejando-as adequadamente.

Dionísio L. P. Gazziero, Alexandre M. Brighenti, Elemar Voll e Fernando S. Adegas,
Embrapa Soja;
Cassio E. Prete,
UEL

* Este artigo foi publicado na edição número 34 da revista Cultivar Grandes Culturas, de novembro de 2001. ver mais artigos
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