Refúgio do inimigo

A mosca-branca, Bemisia argentifolii Bellows & Perring, 1994 (Homoptera: Aleyrodidae), caracteriza-se por apresentar um grande número de plantas hospedeiras de interesse econômico, como hortaliças (tomate, pimentão, repolho, melão, abóbora), feijão, algodão, soja e plantas ornamentais (poinsétia). Dentre as plantas hospedeiras da mosca-branca destacam-se também várias espécies de plantas daninhas, o que significa que, na entressafra, esses insetos sobrevivem muitas vezes em alta população nas áreas de cultivo. Desta forma, não há interrupção no ciclo de vida da praga e, em um próximo cultivo, a pressão de mosca-branca sobre as plantas pode ser ainda maior que no cultivo anterior.

Para que seja possível realizar um manejo adequado desta praga, é importante conhecer as espécies de plantas daninhas que são preferidas para alimentação, oviposição e abrigo desses insetos.

Neste sentido, foi realizado um estudo preliminar na Embrapa Hortaliças, em Brasília - DF, em 2003, em que foram avaliadas 107 espécies de plantas daninhas. As plantas foram distribuídas ao acaso, em casa de vegetação, onde foram expostas a uma elevada população de mosca-branca. As avaliações foram realizadas após 30 dias de convívio entre as plantas e adultos do inseto, por meio da atribuição de notas relativas à infestação da planta por ninfas e adultos de mosca-branca (de 1 a 4, sendo 1 = sem infestação e 4 = alta infestação). É importante comentar que a simples presença de insetos adultos em uma determinada planta não indica que esta planta seja boa hospedeira. A avaliação da planta como hospedeira implica na análise conjunta da presença de adultos e ninfas, taxa de oviposição e de sobrevivência, indicando que a planta permite que o inseto complete todo o seu ciclo (de ovo a adulto).

Entre as 107 espécies de plantas daninhas avaliadas, as que receberam nota quatro de infestação, tanto para adultos como para ninfas, indicando grande preferência, foram amendoim bravo, erva-de-Santa-Maria, fedegoso, guanxuma-rasteira, maria-pretinha, mentruz, perpétua-brava e poaia-do-cerrado (Tabela 1 - veja no final do texto como visualizar este artigo, com fotos e tabelas, em PDF).

As seguintes espécies receberam nota quatro para ninfas e notas menores para adultos, o que também indica grande preferência para colonização: bucho-de-rã, carrapicho-de-carneiro, carrapicho-rasteiro, cordão-de-frade, fazendeiro-peludo, gervão-azul, quinquilho e xique-xique (Tabela 1).

Paralelamente, foi feito um estudo da relação entre a pressão do inseto e a suscetibilidade destas plantas quanto a infecção por geminivírus de tomateiro. A mosca-branca é vetora destes vírus, que causam sintomas de mosaico amarelo nas folhas, clorose, intensa rugosidade nos folíolos e deformação foliar. As geminiviroses estão entre as principais doenças do tomateiro no Brasil. Como resultado, verificou-se que não houve uma correlação direta entre nível de infestação por mosca-branca e suscetibilidade ao vírus, indicando que uma baixa densidade populacional do inseto já é suficiente para a disseminação da virose. Entre as espécies de plantas que apresentaram nota máxima de infestação por moscas-brancas, as seguintes espécies mostraram-se suscetíveis a pelo menos uma espécie de begomovírus do tomateiro: amendoim-bravo, maria-pretinha, quinquilho e xique-xique.

As espécies de plantas daninhas que se mostraram boas hospedeiras (Tabela 1) podem ocupar um papel de destaque na manutenção das populações da mosca-branca na região Centro-Oeste. Estas plantas devem ser consideradas em um plano de manejo integrado da praga, para diminuir a pressão populacional de B. argentifolii. Especial atenção deve ser dada àquelas espécies que, além de hospedeiras da mosca-branca, são também suscetíveis aos geminivírus transmitidos por esses insetos.

Geni Litvin Villas Bôas e Alice Kazuko Inoue-Nagata,
Embrapa Hortaliças

* Este artigo foi publicado na edição número 28 da revista Cultivar Hortaliças e Frutas, de outubro/novembro de 2004.

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