Resistência da ferrugem asiática à aplicação de defensivos

Favorecida pelo clima a ferrugem asiática chegou mais cedo às lavouras de soja do Sul do Brasil, com  aumento da pressão da doença e tendência de que a safra demande manejo mais intenso e muita atenção por parte dos produtores. Ao mesmo tempo, cresce a preocupação com a manutenção da eficiência dos fungicidas disponíveis no mercado e a busca pela prevenção da resistência e da menor sensibilidade dos fungos à aplicação destes defensivos.

O cenário de doenças de soja esta sendo bastante atípico na safra 2015/16 principalmente em função da distribuição irregular de chuvas nas regiões, influenciada pelo fenômeno El Niño. Do início da safra até dezembro, chuvas acima da média ocorreram na metade sul do País, prolongando a semeadura e dificultando os tratos culturais. Já nas regiões Centro-Oeste e Norte, o baixo índice de chuvas até dezembro dificultou o estabelecimento e desenvolvimento das lavouras, com necessidade de replantios em algumas regiões. A ocorrência de doenças está diretamente ligada a fatores climáticos, especialmente umidade, necessária para a infecção da maioria dos fungos.

Na região Sul, o excesso de chuvas teve como consequência a ocorrência de morte de plântulas na fase de estabelecimento da lavoura, algumas vezes em decorrência da morte de radicelas pelo excesso de umidade e ambiente anaeróbico do solo, com posterior colonização de tecidos mortos por fungos, e também diretamente por patógenos como a Phytophthora sojae, causador da podridão radicular de Phytophthora. Mas o destaque na região Sul ficou por conta da incidência precoce da ferrugem-asiática, causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi. O inverno pouco rigoroso de 2015, também sob influência do El Niño, aliado ao aumento do cultivo de soja safrinha (semeaduras de janeiro), favoreceu a sobrevivência de plantas de soja voluntárias (guaxas ou tigueras) no sul do Brasil (Figura 1). No mapa do Consórcio Antiferrugem, foram cadastradas ocorrências de soja voluntária nos estados do Rio Grande de Sul e de Santa Catarina durante os meses de julho e agosto. Esses dois estados não adotam o vazio sanitário porque as geadas no inverno geralmente matam a soja tiguera, o que não ocorreu esse ano. O primeiro registro de ferrugem em lavoura comercial ocorreu em 6 de novembro, em Tibagi, Paraná, pela Fundação ABC, integrante do Consórcio Antiferrugem. Relatos subsequentes ocorreram em diversos municípios do estado e também no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul (Figura 1).

Figura 1. Mapas com relatos de ferrugem-asiática cadastrados no site do Consórcio Antiferrugem (www.consorcioantiferrugem.net), 2015/16. Círculos amarelos - soja voluntária; círculos vermelhos – lavouras comerciais.
Figura 1. Mapas com relatos de ferrugem-asiática cadastrados no site do Consórcio Antiferrugem (www.consorcioantiferrugem.net), 2015/16. Círculos amarelos - soja voluntária; círculos vermelhos – lavouras comerciais.

Mesmo com clima mais favorável à ocorrência da ferrugem na região Sul, as lavouras semeadas logo após o final do vazio sanitário tiveram baixa incidência, mostrando que essa ainda é uma das principais estratégias  para escapar da doença. Apesar de o produtor ter se preparado para fazer o controle da ferrugem com fungicidas, em alguns casos houve atrasos nas aplicações e nas reaplicações em função das chuvas. Em algumas lavouras, semeadas após a segunda quinzena de outubro, o atraso nas primeiras aplicações comprometeu o controle, mesmo com os fungicidas mais eficientes.

O Estado do Mato Grosso, que normalmente tem maior pressão de ferrugem em função das chuvas mais regulares, esse ano teve seu primeiro relato em lavoura comercial somente em 4 de janeiro, em Primavera do Leste, pela Ceres Consultoria, em lavoura em estádio R7, já próxima a colheita. A partir daí novos focos foram detectados quase que diariamente, devido principalmente à volta das chuvas no mês de janeiro, ocasionando um aumento na pressão de ferrugem. Outro fator que contribuiu para o incremento da doença foi a intensificação da colheita das primeiras lavouras, espalhando esporos nessa operação. Próximo à maturação há um aumento na produção de esporos do fungo devido à perda de residual dos fungicidas. Todos esses fatores, aliados ao atraso na semeadura, causado pela irregularidade das chuvas no início da safra, caracterizam atualmente um cenário bastante sério quanto ao potencial de perdas que a ferrugem tem nessa safra no Mato Grosso, visto que a maioria das áreas foi semeada a partir de novembro. Pelos levantamentos que se têm, as lavouras semeadas depois de 31 de outubro têm maior risco de perdas pela ferrugem. Isto por si só demanda uma maior atenção às recomendações para um controle eficiente.

No Oeste da Bahia a semeadura da soja em áreas de sequeiro que tem início no final de outubro/início de novembro também foi prejudicada nesta safra pelos veranicos ocorridos na região nesse período, e quando associados às pragas iniciais, principalmente a lagarta elasmo, comprometeram seu estabelecimento, resultando em replantios e atrasos na instalação das lavouras. Essa situação climática se prolongou pelo mês de dezembro e assim, não foi observada alta pressão das doenças comuns na região. As doenças somente foram observadas com maior frequência e intensidade no mês de janeiro, que foi chuvoso na região, dificultando o manejo e contribuindo para o seu aparecimento. A ferrugem foi detectada pela primeira vez no dia 25 de janeiro, no município de Barreiras, sendo confirmada pela Agência Estadual de Defesa Agropecuária da Bahia (ADAB) em soja no estádio R6. A partir dessa data, a ferrugem pôde ser encontrada nas lavouras com soja, mas a evolução cessou com a redução das chuvas em fevereiro. A presença de esporos na região, mantidos pelo orvalho, ainda ameaça a cultura que está fenologicamente mais nova, necessitando atenção dos produtores com o retorno das chuvas, o que pode demandar um manejo mais intenso dessa doença.

Os fungicidas são uma ferramenta importante de controle e tem evitado perdas com a ferrugem. No entanto, apesar de haver 119 fungicidas registrados no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) para o controle da ferrugem, esses vem perdendo sua eficiência nos últimos anos em decorrência da seleção de isolados do fungo P. pachyrhizi menos sensíveis aos mesmos. Os principais fungicidas sítio-específicos registrados para o controle da ferrugem pertencem a três grupos químicos, atuando na biossíntese de ergosterol, importante componente da membrana celular dos fungos (IDM, triazois) e na respiração mitocondrial, como os inibidores da quinona oxidase (IQo, estrobilurinas) e da succinato desidrogenase (ISDH, carboxamidas).  Desde 2003/04, os fungicidas vêm sendo avaliados em uma rede de ensaios cooperativos, coordenados pela Embrapa Soja, pela empresa de Tecnologia Agropecuária (Tagro) e pela Universidade de Rio Verde/GO (UniRV). Dos 14 fungicidas avaliados pela rede de ensaios em 2014/15, somente cinco registrados apresentaram eficiência acima de 50% de controle (Tabela 1; tratamentos 6 a 10). As misturas triplas (triazol-estrobilurina-carboxamida; tratamentos 14 e 15), ainda em fase de registro, também apresentaram boa eficiência de controle, mas são combinações dos modos de ação já em uso no campo. Os ensaios em rede da safra 2015/16 estão no campo, mas não há nenhum modo de ação novo em teste. Os fungicidas em teste são novas combinações ou misturas prontas com fungicidas multissítios.

Entre os fungicidas sítio-específicos, o único modo de ação que ainda não teve sua eficiência reduzida foram as carboxamidas, em razão da recente entrada no mercado no Brasil (2013). No entanto, casos de resistência a carboxamidas já foram relatados para 14 patógenos no mundo, incluindo fungos como Corynespora cassiicola (em pepino) e Sclerotinia sclerotiorum (em canola), que também são patógenos da soja. Em função da sua maior eficiência, esses produtos tendem a ser mais utilizados, resultando em maior pressão de seleção para resistência a esses fungicidas.

Os fungicidas mutissítios ou protetores tinham sido avaliados quando a ferrugem entrou no Brasil. No entanto, em função da menor eficiência de controle comparado aos triazois no início dos testes, foram descartados para o controle da ferrugem. Com a redução de eficiência dos triazois e das misturas de triazois e estrobilurinas, fungicidas multissítios têm sido registrados para o controle de doenças na soja e sua utilização aumentou na última safra em associação aos fungicidas sistêmicos.

Na safra 2014/15, a rede de ensaios avaliou pelo primeiro ano a eficiência de fungicidas multissítios. Esses fungicidas são antigos, alguns com mais de 60 anos de mercado, e vêm sendo reavaliados para aumentar as opções no manejo de doenças. Nos ensaios em rede, foram realizadas cinco aplicações de fungicidas multissítios isolados, com intervalo médio de 10 dias entre reaplicação. A eficiência dos melhores fungicidas multissítios variou de 59% a 69% (Circular Técnica 113), bastante superior a triazois e estrobilurinas isolados. Os fungicidas multissítios têm sido vistos como uma ferramenta importante em programas de manejo da ferrugem na soja, aumentando a eficiência de controle dos fungicidas já com problemas de resistência e podendo atrasar o aparecimento nos que ainda não apresentam.

Resistência de fungos a fungicidas é uma resposta evolutiva natural. Aplicações sequenciais de fungicidas com um mesmo modo de ação podem selecionar indivíduos resistentes/ menos sensíveis, a exemplo do que ocorreu com os triazois.  Uma das formas de reduzir a pressão de seleção para resistência é limitar o número de aplicações de fungicidas na cultura. Como o aumento na necessidade de utilização de fungicidas ocorre com o avanço na época de semeadura, a definição de datas-limites de semeadura pode contribuir para a redução do número de aplicações. Situações de soja semeada próximas a lavouras em maturação com alta infestação de ferrugem podem ser observadas nesta safra (Figura 2). Com a alta quantidade de inóculo do fungo e incidência precoce da ferrugem, essas áreas acabam demandando até sete aplicações de fungicidas, impondo alta pressão de seleção para resistência do fungo que vem de lavouras semeadas mais cedo, onde já ocorreram em torno de três aplicações. 

Figura 2. Lavoura com alta infestação de ferrugem ao lado de lavoura de soja em estádio vegetativo no Rio Grande do Sul, em fevereiro de 2016 (foto da direita, detalhe da lavoura de soja ao fundo).  Fotos: Lucas Navarini.
Figura 2. Lavoura com alta infestação de ferrugem ao lado de lavoura de soja em estádio vegetativo no Rio Grande do Sul, em fevereiro de 2016 (foto da direita, detalhe da lavoura de soja ao fundo). Fotos: Lucas Navarini.

Instruções normativas têm sido propostas limitando a data de semeadura para reduzir a pressão de seleção para resistência. Os estados de Goiás e de Mato Grosso limitaram a semeadura da soja até 31 de dezembro e a mesma restrição entra em vigor no Paraná no final de 2016. O objetivo é reduzir as semeaduras que necessitam de maior número de aplicações para atrasar a resistência às carboxamidas. Essas semeaduras após janeiro representaram menos de 1% da área de soja no Brasil em 2014/15 (Figura 3), no entanto, o uso intensivo de fungicidas nessas áreas pode acelerar a perda de eficiência dos fungicidas. Essa medida só será efetiva se adotada por todas as regiões produtoras, uma vez que o fungo se dissemina de forma eficiente pelo vento de uma região para outra.

Figura 3.  Distribuição temporal da semeadura de soja no Brasil, na safra 2014/15. Fonte: Conab.
Figura 3. Distribuição temporal da semeadura de soja no Brasil, na safra 2014/15. Fonte: Conab.

Outra forma de atrasar o aparecimento da resistência é adotando as estratégias antirresistência em todas as semeaduras. As estratégias gerais antirresistência para fungos incluem rotacionar e empregar misturas comerciais de fungicidas com diferentes modos de ação e sem resistência cruzada; utilizar dose e intervalo de aplicação recomendados pelo fabricante, ajustados para a epidemia da doença, evitando extenso intervalo entre as aplicações; aplicar preventivamente, monitorando a lavoura e acompanhando a situação de inóculo na região, aplicando próximo ao fechamento das entrelinhas da soja quando a ferrugem já foi relatada na região. Quanto aos produtos com carboxamidas, não devem ser utilizados em mais que duas aplicações por cultivo.

O grande risco de perder os fungicidas atualmente disponíveis reside no fato de que não há nenhum modo de ação novo para entrar no mercado nos próximos anos. Em função de ser um processo natural, é quase certo que a resistência à maioria dos novos fungicidas vai ocorrer. No entanto, a vida útil pode ser prolongada com o uso racional e a adoção de boas práticas culturais. Para ferrugem, essas boas práticas devem incluir todas as estratégias disponíveis como a adoção do vazio sanitário, a utilização de cultivares de ciclo precoce e semeaduras no início da época recomendada, a redução da janela de semeadura, o monitoramento da lavoura desde o início do desenvolvimento da cultura, a utilização de fungicidas no aparecimento dos sintomas ou preventivamente e o uso de cultivares resistentes.

 Cultivares com genes de resistência vêm sendo lançadas no mercado. Essas cultivares apresentam lesões com menor quantidade de esporos e não dispensam a utilização de fungicidas. São ferramentas importantes de manejo e podem ajudar a reduzir a pressão de resistência aos fungicidas, mas, como apresentam um ou no máximo dois genes de resistência, o fungo pode vencer essa resistência de forma semelhante ao que ocorre com os fungicidas.

Apesar da ferrugem parecer estar sob controle nos últimos anos, falhas devido à baixa eficiência curativa dos fungicidas em áreas onde ocorreram atrasos de aplicações foram observadas esse ano no Sul. Essas situações tendem a se repetir no Cerrado em anos com distribuição regular de chuvas. A sustentabilidade da soja brasileira pode ser ameaçada se os fungicidas continuarem a ter eficiência reduzida por causa da resistência e menor sensibilidade do fungo a esses produtos. 

Aplicativo do Consórcio Antiferrugem está disponível na Apple store e no Google play.
Aplicativo do Consórcio Antiferrugem está disponível na Apple store e no Google play.


Cláudia Vieira Godoy, Embrapa Soja; Maurício Conrado Meyer, Embrapa Soja; Fabiano Siqueri, Fundação Mato Grosso; Lucas Navarini, Instituto Federal do Rio Grande do Sul; Mônica C. Martins, Faculdade Arnaldo Horácio Ferreira/Círculo Verde Assessoria Agronômica e Pesquisa


Artigo publicado na edição 202 da Cultivar Grandes Culturas.

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