Resistência e finura, as novas características do algodão

O setor de fiação e tecelagem é, dentro da indústria têxtil brasileira, um dos que mais responderam, nos últimos anos, em termos de modernização de equipamentos, visando ao aumento da sua competitividade. É claro que, quando da tomada da decisão de se investir em novos equipamentos, a indústria têxtil espera que o melhoramento genético apresente variedades com qualidade de fibra compatível ao da matéria-prima importada, que no curto prazo foi uma alternativa para o aumento dos lucros, mas que no médio e longo prazos pode comprometer o suprimento desta indústria.

Para termos idéia dos avanços tecnológicos deste setor nos últimos anos, SANTANA et al. (1998) citam que, em uma fiação convencional a anel consegue-se uma velocidade máxima de 19,0 a 25,0 metros de fio por minuto. No sistema "open end" a velocidade máxima alcançada é de 130,0 m de fio por minuto. Já no sistema "air jet", ou jato de ar, a velocidade sobe para 180,0 m/minuto e na fiação por fricção é possível obter-se velocidades da ordem de 300,0 metros de fio por minuto!

Características desejáveis

Devemos ressaltar que estes resultados só podem ser alcançados quando a variedade de algodão apresenta características intrínsecas apropriadas, e que as características podem sofrer um processo de mudança acentuada em sua ordem de importância. Por exemplo, no sistema tradicional de fiação a anel as características mais importantes são: comprimento, uniformidade de comprimento, resistência e finura. Para sistemas de fiação mais inovadores como o "open end" a ordem de importância é totalmente diferente: resistência, finura, comprimento e pureza. Para a fiação a jato de ar as exigências passam a ser: finura, pureza, resistência, comprimento e fricção. Pelo que podemos ver das citações acima, resistência e finura serão as características mais relevantes dos novos "algodões" em detrimento do comprimento de fibra.

A Coodetec é uma empresa de biotecnologia e pesquisa de sementes que desde o início do seu programa de melhoramento genético tem se preocupado não só com as características agronômicas, como com o potencial industrial de suas variedades de algodão. A cultivar CD-401, primeiro lançamento deste trabalho, através de convênio firmado com o Cirad CA, instituição francesa de renome mundial, representa um grande avanço na tentativa de potencializar a matéria-prima para a indústria têxtil, em relação aos materiais disponíveis no Brasil na época. O rendimento de fibra no descaroçamento, por exemplo, é uma característica que interessa tanto à indústria quanto aos produtores, pois significa maiores lucros com o mesmo custo de produção. Por ser uma característica varietal fortemente influenciada pelo ambiente, pode variar de ano para ano, apresentando uma média de 39,4 a 42,2 no período de 1993 a 1997 contra 36,7 da variedade mais plantada no período (IAC 20). A resistência de fibra no período foi em média de 30,5 g/tex
contra 26,2 de IAC 20. A finura e maturidade têm alcançado valores médios de 187 e 82% contra 223 e 80,1 da variedade mais plantada.

A busca constante dos trabalhos de melhoramento levou a Coodetec em convênio com o Cirad e Cooperativa dos produtores de algodão do sudeste de MT (Unicotton) com apoio do Facual (Fundo de Apoio à Cultura de Algodão do Mato Grosso) a instalar uma ampla base de pesquisas em Mato Grosso, maior produtor nacional de algodão da atualidade, para incorporar novas características importantes aos seus materiais genéticos. Em uma base central com 40 ha localizada em Primavera do Leste MT e outras duas bases regionais em Sapezal MT e Nova Mutum MT, o programa de melhoramento genético tem se dedicado exaustivamente à busca de novas variedades de algodoeiro.

Resultados do trabalho

Como fruto deste trabalho, iniciado na base de pesquisas de Palotina - PR - foram lançadas três novas variedades: CD 402 , CD 403 e CD 404. Estas variedades incorporam características agronômicas desejadas pelos agricultores, como maior tolerância a doenças e pragas, sendo CD 402 e CD 403 variedades de ciclo normal e sistema radicular agressivo, o que lhes confere melhor exploração do ambiente com menores perdas em caso de condições climáticas adversas. Já a variedade CD 404 tem elevado potencial produtivo quando se adota alta tecnologia de produção. No entanto, o maior ganho foi obtido nas características de fibra, que excede as variedades em recomendação atualmente nos itens resistência (cerca de 31 g/tex para CD 404), finura (entre 208 e 214 Mtex) e maturidade (acima de 80 %).

Com isso, a Coodetec tem alcançado um fio mais fino com valores próximos à 200 Mtex - que é a exigência da indústria têxtil - de maior resistência, permitindo aos teares trabalharem em altas velocidades.

Na Austrália, considerado país modelo na produção de fibras, os produtores que alcançam valores de qualidade acima da média são premiados com um ágio no preço final de seu algodão ou penalizados com deságio se a sua fibra não atingir os índices requeridos pela indústria de fiação. Isso ainda não ocorre no Brasil, mas a tendência é de uma conscientização por parte da indústria dos benefícios que a qualidade do fio proporciona a todo o processo têxtil, sendo uma questão de tempo para que a prática de bonificar os produtores de fibras excelentes seja adotada.

Com estes avanços, a Coodetec espera estar dando sua contribuição para que nosso país volte a ser auto-suficiente e também um grande exportador mundial de fibras, competindo em igualdade no mercado globalizado.

Delano M. C. Gondim
Coodetec

* Este artigo foi publicado na edição número 03 da revista Cultivar Grandes Culturas, de abril de 2000. ver mais artigos
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