Retomada com toda a força

A agricultura Brasileira conheceu o céu e o inferno nos últimos 5 anos. Tivemos lindos dias de mais de R$ 50 o saco de soja, sob a benção de um Real superdesvalorizado, e a ilusão que poderíamos fazer todos os investimentos e assumir todas as dívidas; e tivemos muitas noites sem dormir quando compramos insumos com dólar bem mais alto que o da hora da venda da produção, a ferrugem e a seca judiaram das lavouras, e se demos conta que não dava nem para pagar o custeio do ano, que dirá as parcelas dos financiamento de investimentos....


Porém, quando a coisa parecia totalmente feia e sem solução, eis que
nova e poderosa luz surge no horizonte, trazendo renovadas esperanças,
e prometendo grande transformações, no setor agrícola Brasileiro:
dessa vez, o que está por trás de tudo são dois grandes problemas
atuais da nossa civilização, e que trarão conseqüências diretas para o
agronegócio brasileiro: 1) a instabilidade política das regiões de
maiores reservas de petróleo do mundo, especialmente Oriente Médio e
Venezuela, e 2) o assustador crescimento do aquecimento global.

Esses
dois aspectos levam a uma inevitável e duradoura aposta, que o mundo
todo está fazendo na utilização cada vez maior de biocombustíveis,
como o álcool da cana no Brasil, etanol de milho nos USA, e biodiesel.
a base de soja, canola, mamona, etc..; Outra área que avança em
paralelo é a dos biomateriais, onde a idéia é produzir a partir do
refino desses biocombustíveis, produtos que hoje são feitos a partir
do refino do petróleo... Lembrem, essas mudanças não se devem somente
ao atual ou futuro preço do petróleo, mas principalmente a necessidade
de usar combustíveis "limpos", ambientalmente mais seguros, que não
contribuam com o aquecimento global. Essa necessidade é irreversível...

É
por conseqüência desses fatos que os preços de milho dispararam no
mercado mundial, puxados pela demanda de milho para álcool nos USA. Na
semana que escrevo essa matéria, o preço de milho em Chicago alcançou o
maior nível dos últimos 10 anos, tendo o USA acabado de colher a sua 2ª
maior safra da história! Já são mais de 100 usinas no centrooeste
americano que deverão consumir ano que vem o equivalente a toda safra
Brasileira de milho! Some-se a isso o contínuo crescimento da população
mundial, notadamente na Ásia, e o crescimento econômicos de países como
China e Índia, que permitem uma parcela cada vez maior dessas
populações se alimentarem de proteína animal, o que em última análise
também aumenta o consumo de milho.

Quando o aumento de preços de
uma commodity vem de um aumento de demanda sustentável, como é o caso
do milho no momento, e não por uma quebra de safra em algum país
importante produtor, esses preços tendem a se manter fortalecidos por
bem mais tempo. Esse quadro está levando os USA a plantar em 2007 área
de milho 10% maior que ano passado, tirando áreas do algodão, trigo e
soja; essa última deve perder de 2,0 a 3,0 milhões de ha. Essa
diminuição da área de soja no USA em 2007, mais a pressão de demanda,
pelo menos psicológica, gerada pelas perspectivas do biodiesel, também
ajudaram a fortalecer os preços de soja em Chicago que se encontram
hoje em patamares bem mais altos que há um ano atrás!

Pelas
mesmas razões expostas acima, a cultura da cana de açúcar tende a
dobrar de área no Brasil nos próximos 10 anos! As usinas, tradicionais
e novas, com capital nacional e estrangeiro, embaladas pelo preço e
perspectivas de demanda de alcool e açúcar, se espalham a todo vapor
pelo Brasil central.Já são quase 100 usinas em construção ou em
planejamento. Regiões como oeste paulista, partes do MS e MT, sudoeste
goiano e partes do triangulo mineiro, alem de algumas áreas do Centro
norte, estão todas na mira das usinas...

O que podemos concluir de tudo isso?
A
primeira conclusão é que a coisa melhorou para a agricultura de grãos,
mas ainda temos alguns riscos próximos no horizonte; notadamente uma
possível maior valorização do Real durante 2007, e os possíveis
"apagões logísticos" localizados. No médio prazo temos 3 grandes
assuntos a resolver: A situação das dívidas pendentes com fundos
públicos e privados; a necessidade urgente de institucionalizarmos um
seguro agrícola amplo e acessível, até para diminuir essa continua
acumulação de dívidas não pagas devido a quebra climáticas; e a
liberação mais acelerada dos transgênicos, notadamente o caso do milho
Bt, pois não faz sentido produtores americanos e argentinos terem
acesso a essa tecnologia a mais de 5 anos e nós ainda sermos obrigados
a gastar mais de R$ 120/ha a cada safra, fazendo 2 ou 3 aplicações de
inseticidas para lagarta do cartucho e ainda termos alguma perda de
produtividade ou qualidade de grão....

Segunda conclusão, deve
aumentar muito a demanda internacional pelo milho brasileiro; veremos
as grandes traders se envolverem cada vez mais com compras e exportação
de milho no Brasil, e isso pode trazer maiores oportunidades de hedge e
fixação de preços, assim como acontece com a soja; isso deve também
criar maior interesse das industrias consumidoras de milho no Brasil de
tentar organizar de vez o mercado de milho local.

A terceira
grande conclusão é que pode estar vir por aí uma grande reorganização
geográfica da agricultura brasileira! Ela será liderada pelo avanço da
cana, cujo retorno econômico é muito maior que as culturas de grãos,
mesmo valorizadas, e envolverá a soja o milho e a pecuária de corte. A
perspectiva é que 5 a 6 milhões de há no Brasil central deva virar cana
nos próximos 10 anos, notadamente áreas hoje ocupadas por lavouras de
grãos e por pastagens. O milho, com o contínuo aumento de
produtividade, e alavancado pelo provável aumento das exportações,
deverá buscar lugar em áreas de altas produtividades do sul do Brasil,
em áreas mais próximas dos portos, nas áreas irrigadas fora de época,
e na safrinha. A soja, que também deverá ceder espaço para cana,
deverá continuar abrindo fronteiras ao norte, desde que fora da bacia
amazonica, entrará em áreas de pastagens não levadas pela cana, e
também terá mais chances de se manter onde a safrinha seja viável. Caso
a soja e o milho não consigam recuperar as áreas que deverão perder
para cana, essa diminuição de área com certeza será mais um reforço
nos preços desses cereais. A pecuária de corte ou vai buscar abrigo em
área mais distantes, mas também que não inclua a bacia amazônica, ou
intensificar ao máximo o manejo para poder se manter em áreas que serão
procuradas para cana e para soja/milho.

Concluímos lembrando a
todos que por mais que as perspectivas sejam positivas, fatos não
previstos podem sempre vir estragar a festa e ainda temos sérios
problemas não resolvidos do passado. Por isso devemos continuar
combinando cada vez mais as praticas avançadas de manejo que visem
maximizar a rentabilidade, com a precaução e conservadorismo nas
análises financeiras na hora de novos investimentos, e trabalhar
sempre com um olho na lavoura e outro no mercado.

Daniel Glat
Diretor Pioneer América Latina
ver mais artigos
CADASTRO DE NEWS
  • Receba por e-mail as últimas notícias sobre agricultura