Rhizoctonia solani: Tratamento protetor para o algodoeiro

A cultura do algodoeiro é atacada por grande número de doenças fúngicas. Com o incremento da área de plantio de algodão no Brasil, tem-se observado aumento significativo dos problemas fitossanitários, principalmente aqueles relacionados à ocorrência de doenças na fase inicial de desenvolvimento da cultura.

As perdas em rendimento provocadas pela incidência de doenças nas plantas variam, entre outros fatores, conforme a cultura, o tipo de patógeno, a localidade, as condições ambientais, a suscetibilidade da cultivar e as medidas de controle empregadas. Considerando-se estes aspectos, é difícil dizer em que medida uma planta poderia tolerar uma doença, sem sofrer perdas significativas na produtividade. A intensidade da perda na produção é determinada, geralmente, pela época em que ocorre a infecção e pelo órgão afetado na planta.

Se por um lado a cotonicultura vem garantindo lucro a seus produtores, por outro, muitos ainda precisam pesar os riscos desta atividade antes de se aventurarem no plantio. A incidência de doenças está entre os fatores que mais causam prejuízos aos produtores mais desavisados e, se não controladas eficientemente, pode resultar em perdas incalculáveis na lavoura.

As doenças iniciais do algodoeiro, principalmente aquelas causadas por Rhizoctonia solani, como o tombamento de plântulas e a mela, estão amplamente disseminadas no Brasil, principalmente nas regiões dos cerrados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Goiás e Bahia, causando danos significativos na fase inicial de estabelecimento da lavoura, pela redução da população de plantas e, às vezes, pela necessidade de ressemeadura – que sempre é muito cara, representando 6,44% do custo de produção. Os níveis de danos causados por estas doenças são dependentes de diversos fatores; porém, nas condições do Brasil, o que mais tem favorecido a sua ocorrência é a monocultura do algodoeiro associada ao preparo intensivo do solo (que facilita a dispersão do fungo), o que frequentemente favorece situações de alagamento e encharcamento, contribuindo para o aumento do potencial de inóculo do patógeno na área. A utilização de sementes com baixo vigor, associada ao plantio em épocas favoráveis à ocorrência desta enfermidade, é também fator que predispõe ao ataque de R. solani que deve ser considerado.

De todas as doenças que atacam o algodoeiro, o “tombamento" é considerado uma das principais, podendo causar grandes prejuízos, relacionados principalmente a falhas no estande, o que pode levar à necessidade de ressemeadura.

Esta doença é causada por um complexo de fungos do solo e da semente, cujas espécies podem variar grandemente de um lugar para outro. Entretanto, o principal agente causal do tombamento de plântulas no Brasil é Rhizoctonia solani Kuhn, grupo de anastomose (AG)-4 (teleomorfo: Thanatephorus cucumeris (A.B. Frank) Donk), pela frequência que ocorre (mais de 95% dos casos) e pelos danos que causa na fase inicial de estabelecimento da lavoura.

Esta doença está amplamente disseminada no Brasil, principalmente nas regiões dos cerrados (onde se encontra 85% do algodão cultivado no Brasil) dos estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Goiás e Bahia. Ocorre na fase de plântula (tombamento de pós-emergência) e ataca as sementes por ocasião da germinação (tombamento de pré-emergência).

Para se ter ideia da importância que esta doença assume nesse contexto, alguns dados levantados sobre perdas devido a sua ocorrência surpreendem. Na Califórnia, segundo dados oficiais, foram perdidos anualmente, no período de 1991 a 1993, em torno de 12.733 toneladas de algodão, devido ao tombamento. Nos EUA, em 1995, estimou-se redução na produtividade do algodoeiro devido às doenças iniciais da ordem de 180 mil toneladas. Na Califórnia, neste mesmo ano, estas perdas foram estimadas em 17.850 toneladas, maiores que aquelas registradas em anos anteriores. Nos últimos dez anos, nos EUA, estimativas de perdas têm revelado valores médios de 2,8% por ano. Até o momento, não foram levantados dados desta natureza no Brasil.

O fungo Rhizoctonia solani

R. solani é um parasita necrotrófico, habitante natural do solo. É um fungo polífago, pois ataca diversas espécies vegetais. R. solani pode ser transmitido pelas sementes, porém, raramente isto ocorre, motivo pelo qual a semente não é considerada a principal fonte de inóculo desse patógeno. Esse fungo, estando presente no solo e/ou nas sementes, além de ocasionar perdas significativas na fase de plântulas (falha no estande), pode servir ainda como inóculo para culturas subsequentes.

Os sintomas caracterizam-se inicialmente pelo murchamento das folhas com posterior tombamento das plântulas. Este fungo provoca lesões deprimidas e de coloração marrom-avermelhada no colo e nas raízes das plântulas de algodão.

De todas as práticas recomendadas para o controle das doenças iniciais do algodoeiro, o tratamento das sementes com fungicidas eficientes assume papel primordial, sendo considerado, até o momento, a principal medida a ser adotada e a opção mais segura e econômica (representa apenas 0,17% do custo total de produção) para minimizar os efeitos negativos destas doenças.

Trata-se de prática indispensável quando se reduz a quantidade de sementes na semeadura, com vistas a eliminar a operação de desbaste, sendo reconhecida em todo o mundo como uma medida das mais eficazes e convenientes, tornando-se cada vez mais difundida e adotada em esquemas de controle integrado de doenças do algodoeiro.

Fungicidas e tratamento de sementes

A cada ano, diversos fungicidas são testados com o objetivo de verificar sua eficiência no controle destas doenças. A performance desses produtos depende da população desses fungos no solo, ou seja, é influenciada pela pressão de inóculo do patógeno no solo e também pelas interações com outros fungos, o que pode evidenciar um controle biológico. Igualmente, a suscetibilidade das cultivares também poderá influenciar nos benefícios do tratamento de sementes com fungicidas.

Por outro lado, os benefícios do tratamento de sementes de algodão com fungicidas são menos evidentes em áreas onde a densidade de inóculo do patógeno é relativamente baixa ou quando as condições de umidade e temperatura do solo são ideais a uma rápida germinação e emergência. Entretanto, deve-se considerar que, até o momento, não se tem evidências de que o uso de fungicidas em tratamento de sementes com ação específica contra R. solani possa ser dispensado em áreas com histórico de ocorrência deste patógeno.

Deve-se ressaltar que o efeito principal do tratamento de sementes com fungicidas é observado na fase inicial do desenvolvimento da cultura, ou seja, no máximo entre dez e 12 dias após a emergência. Nesse período, ocorre eficiente proteção do algodoeiro, obtendo-se populações adequadas de plantas em função da uniformidade na germinação e emergência. Entretanto, é necessário destacar também que, caso as condições climáticas sejam favoráveis após este período de proteção, alguns fungos poderão se instalar nas plântulas de algodoeiro – o que é normal – em decorrência da perda do poder residual dos fungicidas, não significando que o tratamento foi ineficiente.

O tratamento de sementes com fungicidas tem por objetivos principais erradicar ou reduzir, aos mais baixos níveis possíveis, os fungos presentes nas sementes; proporcionar a proteção das sementes e plântulas contra fungos do solo; evitar o desenvolvimento de epidemias no campo; promover uniformidade na germinação e emergência; proporcionar maior sustentabilidade à cultura pela redução de riscos na fase de implantação da lavoura e promover o estabelecimento inicial da lavoura com uma população ideal de plantas.

A ação combinada de fungicidas sistêmicos com protetores tem sido uma estratégia das mais eficazes no controle de patógenos das sementes e do solo, uma vez que o espectro de ação da mistura é ampliado pela ação de dois ou mais produtos. Desse modo, verificam-se melhores emergências de plântulas no campo e melhores índices de controle do tombamento com a utilização de misturas disponíveis, em comparação ao uso isolado de um determinado fungicida. Ressalta-se, ainda, que, com o uso das misturas, evita-se, em grande parte, o surgimento de populações resistentes entre os patógenos.

Até recentemente, o uso de fungicidas tinha por objetivo exclusivamente o controle de fitopatógenos. Com o lançamento das estrobilurinas e com a evolução deste grupo de produtos químicos, o conceito de controle ganhou novas perspectivas, devido à comprovação de influências diretas advindas da utilização desses produtos em processos fisiológicos de plantas não infectadas. A essa atividade, denominou-se “efeito fisiológico", conhecido nas fases vegetativa e reprodutiva, saindo do conceito puro e simples do tratamento de sementes para um conceito de robustez da planta.

O tratamento químico de sementes com fungicidas, do ponto de vista de manejo integrado de doenças, é um dos métodos mais simples, de baixo custo e resulta em reflexos altamente positivos para o aumento da produtividade da cultura.

Quando a questão ambiental é analisada, há, ainda, vantagem de não alterar a biologia do solo, pois a quantidade por hectare é mínima, sendo rapidamente diluída e degradada no solo. Além disso, dentre os demais defensivos, os fungicidas são os que apresentam o menor impacto negativo no ambiente. Quando comparado com as demais práticas de controle (pulverização foliar = distribuição do produto em 10.000m2/ha e granulados no sulco de plantio = aplicação em 500m2/ha), o tratamento das sementes com fungicidas apresenta a vantagem de a quantidade de produto utilizado corresponder à aplicação em apenas 55m2/ha (o que significa uma aplicação localizada de baixas doses/ha).

Na Tabela 1 pode-se observar a eficiência de diferentes fungicidas no controle do tombamento de plântulas causado por R. solani. O ensaio foi conduzido na casa de vegetação da Embrapa Agropecuária Oeste, em Dourados, Mato Grosso do Sul. Sementes não tratadas e tratadas com os fungicidas foram semeadas em areia contida em bandejas plásticas, dispostas em orifícios individuais, equidistantes e a 3cm de profundidade. A inoculação com R. solani AG‑4 foi feita utilizando-se 5g do inóculo do fungo/bandeja, distribuídos de forma homogênea na superfície do substrato. O fungo foi cultivado por 35 dias em sementes de aveia preta autoclavadas e trituradas em moinho (1mm). Foi observado efeito significativo do tratamento fungicida na emergência inicial e final de plântulas, bem como no controle do tombamento de pré e pós-emergência do algodoeiro, com os melhores resultados sendo obtidos pelos tratamentos tolylfluanid + pencycuron + triadimenol e azoxystrobin + fludioxonil + mefenoxan, seguidos de carboxin + thiram, PCNB e pencycuron. O fungicida menos eficiente foi o carbendazim + thiram. O fungo R. solani pode causar tombamento de pré e pós-emergência, o que foi observado nas condições do presente ensaio. A avaliação da porcentagem de emergência final de plântulas (26 DAS), reflete a eficiência dos fungicidas na proteção contra o ataque de R. solani, bem como a capacidade de manutenção do estande, no sentido de evitar o tombamento de pós-emergência causado por este patógeno. O efeito drástico do patógeno pode ser observado quando se comparam os resultados obtidos nas testemunhas com e sem inoculação. Os melhores resultados com relação às variáveis estudadas foram obtidos com a utilização de misturas de fungicidas (à exceção do tratamento carbendazim + thiram) em comparação ao uso isolado de um determinado produto, o que também pode ser observado na Tabela 1. Os resultados observados demonstraram a fitocompatibilidade com o algodoeiro de todos os fungicidas utilizados, não sendo observados quaisquer tipos de sintomas nas plântulas que revelassem a presença de efeitos fitotóxicos advindos da utilização desses produtos, tais como aparecimento de plântulas com folhas deformadas e retorcidas ou até mesmo atraso na emergência. Relacionado a esse último aspecto, deve-se considerar que a semeadura foi realizada em condições ideais de temperatura e umidade do solo e também em profundidade adequada (3cm a 5cm).

Tabela 1 - Emergência inicial e final e tombamento de pré e pós-emergência causado por Rhizoctonia solani em função dos diferentes tratamentos fungicidas aplicados às sementes de algodoeiro. Embrapa Agropecuária Oeste. Dourados, MS

Tratamentos

Dose i.a./100kg

Emergência de plântulas (%)

Tombamento de plântulas (%)

de

sementes

Inicial

Final

Pré-emergência

Pós-emergência

Tolylfluanid+pencycuron+triadimenol

100+75+40

90,0 a

88,5 b

2,2 e

1,7 d

Azoxystrobin+fludioxonil+mefenoxan

30+5+15

90,0 a

88,0 b

2,2 e

2,2 d

Carboxin+thiram

140+140

89,0 a

83,0 c

3,4 d

6,7 c

PCNB

250

89,0 a

82,5 c

3,4 d

7,3 c

Pencycuron

75

88,0 a

82,0 c

4,3 c

6,8 c

Carbendazim+thiram

90+210

75,0 b

66,5 d

18,9 b

11,3 b

Testemunha não inoculada

-

92,0 a

92,0 a

0,0 f

0,0 e

Testemunha inoculada

-

47,0 c

29,5 e

49,2 a

37,2 a

Média

-

82,50

76,50

10,42

9,15

C.V. (%)

-

10,31

9,08

15,82

16,40

Médias seguidas de mesma letra na coluna não diferem significativamente entre si. (Duncan, 5%).

Clique aqui para ler o artigo na edição 179 da Cultivar Grandes Culturas.

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Augusto César Pereira Goulart

Embrapa Agropecuária Oeste

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