Riscos e prejuízos causados pelo ataque da mosca-das-cucurbitáceas

Na maioria das regiões produtoras de cucurbitáceas ocorre a mosca-das-cucurbitáceas sul-americana Anastrepha grandis (Diptera: Tephritidae), conhecida por ser uma das principais pragas que ataca frutos de cucurbitáceas nativas ou introduzidas. De origem neotropical, este inseto está presente nas américas do Sul e Central sendo relatado na Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Panamá, Paraguai, Peru e Venezuela. No Brasil, este inseto ocorre principalmente nas regiões Sul, Sudeste e Centro-oeste. A injúria é sempre nos frutos de cucurbitáceas, ocasionado por larvas e fêmeas que depositam ovos logo abaixo da epiderme. Há casos em que em uma única punctura as fêmeas podem depositar até 100 ovos. Após a eclosão, as larvas se alimentam da polpa, formando galerias e, devido à abertura realizada pelo ovipositor, ocorre a entrada de microrganismos causadores de podridão e os frutos apodrecem (Figura 1). A presença de apenas uma larva é suficiente para tornar os frutos impróprios para o consumo, comercialização e industrialização. Após completar o desenvolvimento larval, os insetos abandonam o fruto e pupam no solo ou entre o material em decomposição, quando após alguns dias emergirão os adultos.

Foto: Anderson Bolzan

Figura 1 - Danos causados por Anastrepha grandis em abóbora de tronco. A – Abóbora de coloração amarela, devido ao desenvolviemnto larval no seu interior; B – Abóbora seccionada ao meio. O círculo evidencia uma larva de A. grandis e as setas demonstram as galerias feitas pelas larvas

A. grandis possui o desenvolvimento holometabólico, passando pelos estágios de ovo, larva, pupa e adulto (Figura 2). O desenvolvimento do período de ovo-adulto de A. grandis em abóbora a 25ºC ocorre em aproximadamente 41 dias, sendo esta duração dividida em 3,93 dias para o período embrionário, 17,7 dias para as larvas e 19,7 dias para o estágio de pupa. Os machos vivem em média 148 dias e as fêmeas 52 dias, quando avaliados individualmente (Silva & Malavasi, 1996).

Atualmente, no Laboratório de Entomologia da Embrapa Clima Temperado em Pelotas, no Rio Grande do Sul, estão sendo realizados experimentos com a finalidade de avaliar o desenvolvimento de A. grandis em diferentes hospedeiros e temperaturas, onde tem se comprovado que este inseto se desenvolve em diferentes gêneros de cucurbitáceas. Porém, seu melhor desenvolvimento é notado em hospedeiros do gênero Cucurbita, como abóbora de tronco, abóbora e abóbora híbrida “Tetsukabuto". Com relação às temperaturas, o melhor desenvolvimento para os estágios imaturos ocorre nas temperaturas próximas de 25°C, embora o desenvolvimento também se dê na faixa térmica de 15ºC a 30°C.


Fotos: Paulo Lanzetta

Montagem: Fernando Jackson

Figura 2 - Ciclo biológico de Anastrepha grandis com medidas médias de comprimento para cada estágio de desenvolvimento

A presença deste inseto em áreas de produção de cucurbitáceas destinadas à exportação pode representar restrições quarentenárias, o que provoca danos econômicos. Estes prejuízos podem variar muito de acordo com a relevância do cultivo em cada país ou região. Assim, diversas regiões do Brasil com interesse na exportação de cucurbitáceas implementaram áreas livres de pragas (ALP) e as áreas de mitigação de risco (SMR), na busca por atender às exigências dos países importadores, quanto à ausência ou à baixa população da praga, respectivamente.

Área livre de pragas e Sistemas de Mitigação de Risco

A ameaça à exportação de cucurbitáceas em decorrência da presença da A. grandis em regiões produtoras incentivou incialmente o projeto de monitoramento de A. grandis no ano de 1985 no estado do Rio Grande do Norte (RN). Após oito anos foi demonstrada a ausência desta praga, por meio de monitoramento no campo e corte de frutos. A partir daí o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos liberou as exportações brasileiras de melões produzidos na Área Livre de A. grandis do estado do Rio Grande do Norte. Desde 2003, vinte municípios são reconhecidos pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) como ALP de A. grandis, sendo 13 no estado do Rio Grande do Norte e sete no estado do Ceará. Além desta área onde a mosca não ocorre, existe ao redor destes munícipios uma “área tampão" com aproximadamente 15.000km2, onde também se dá o monitoramento e o estabelecimento de barreiras fitossanitárias para impedir a entrada de frutos infestados com o inseto.

O SMR é adotado por produtores que desejam exportar sua produção para países que estabelecem exigências de que os frutos não apresentem risco quarentenário devido à presença de pragas, permitindo-se a presença da praga em baixa população e com a adoção de um manejo diferenciado da praga. O monitoramento é composto por diversos procedimentos que têm por objetivo a certificação e rastreabilidade, como, por exemplo, o uso de armadilhas durante todo ciclo da cultura e enquanto existirem restos culturais. Atualmente, há algumas regiões de sete estados da Federação que adotaram o SMR para A. grandis, sendo o caso de Minas Gerais (oito municípios), São Paulo (oito municípios), Goiás (11 municípios), Rio Grande do Sul (três municípios), Bahia (um município), Paraná (um município) e Rio Grande do Norte (dois municípios).

É necessário que o produtor busque assistência com o Órgão Estadual de Defesa Sanitária Vegetal para que unidades de produção possam exportar seus frutos. No caso do estabelecimento das áreas de mitigação, é fundamental realizar monitoramentos por meio da determinação do índice MAD (moscas/armadilhas/dia) por seis meses, e para o estabelecimento de área livre o monitoramento deve ser por dois anos.

Para que os frutos de cucurbitáceas, oriundos de SMR, possam ser exportados o índice MAD deve ser menor que 0,1. Se o índice for maior que 0,1 e menor ou igual a 0,4 as exportações são proibidas e se inicia o plano de controle. Porém, se a unidade produtiva apresentar um plano de controle de forma satisfatória e o índice for inferior a 0,1 a produção poderá ser certificada novamente (Brasil, 2006). Se o índice MAD for superior a 0,4, a produção, proveniente da respectiva unidade de produção (UP), ficará impedida de ser certificada para exportação na corrente safra.

Uma vez confirmada a detecção da praga, haverá a suspensão da condição de Área Livre e o consequente impedimento da certificação de partidas para exportação (Brasil, 2006).

Para a erradicação da mosca-das-cucurbitáceas sul-americana, na ALP, há um plano de contingência que consiste em, após a detecção do primeiro exemplar, instalar 30 armadilhas McPhail e cortar 500 frutos de cucurbitáceas na área núcleo (1km2), para a detecção de larvas. Também deverão ser instaladas 50 armadilhas McPhail em uma área de 10km2 ao redor do núcleo inicial. No caso de uma nova detecção, todos os frutos desta área deverão ser coletados, destruídos ou enterrados a 50cm de profundidade. No ponto em que foram coletados, deverá ser realizado tratamento químico do solo e aplicações de iscas tóxicas na área à base de atrativo alimentar (proteína hidrolisada - 3%) e inseticida. O departamento de sanidade vegetal da região deverá avaliar as armadilhas das áreas adjacentes e das rotas de trânsito com hospedeiros potenciais que dão acesso ao foco da praga. Após estes procedimentos, se não for encontrado um segundo exemplar e nenhuma larva for detectada, as armadilhas do núcleo e da área de delimitação serão reduzidas para dez e 20, respectivamente, as quais serão inspecionadas semanalmente por um período de 160 dias ou dois ciclos de vida do inseto (Brasil, 2006).

O plano de controle para A. grandis, em SMR, requer que sempre que o índice MAD da unidade de produção atingir valor superior a 0,1 e menor ou igual a 0,4, durante o período semanal de monitoramento, o produtor deverá implementar ações emergenciais para controle da praga, passando a utilizar uma densidade de uma armadilha para cada dois hectares e iniciar o controle químico com produtos registrados, até que o índice MAD retorne a valor inferior a 0,1.

Portanto, os produtores que já exportam frutos de sua UP devem ficar atentos a qualquer indício da ocorrência desta praga em sua lavoura ou em áreas adjacentes. Já os produtores que desejam exportar sua produção devem procurar o Órgão Estadual de Vigilância Sanitária a fim de verificar se sua propriedade pertence a alguma ALP. Novos produtores interessados em participar do SMR deverão, mesmo estando suas propriedades localizadas em municípios já monitorados, realizar os levantamentos oficiais de detecção e verificação em cultivos de cucurbitáceas por período mínimo e ininterrupto de seis meses. Caso contrário o produtor pode requerer ao estado a implantação de uma ALP ou SMR em sua região, com o intuito de detectar e manejar o risco da mosca-das-cucurbitáceas sul-americana, além de mantê-la em níveis populacionais exigidos para a exportação.

Cucurbitáceas no Brasil

As cucurbitáceas constituem uma importante família de plantas utilizadas na alimentação humana. Existem aproximadamente 26 espécies cultivadas, sendo as principais culturas: melancia (Citrullus lanatus), melão (Cucumis melo), pepino (Cucumis sativus) e abóboras (Cucurbita spp.). No Brasil, estas culturas adquirem importância ainda maior, pois são produzidas por pequenos agricultores, que utilizam mão de obra familiar e assim são importantes fontes para o desenvolvimento social e econômico de uma região.

Dentre as principais cucurbitáceas produzidas no Brasil, a região Nordeste destaca-se pela produção de melancia (740 mil toneladas (t) e melão (380 mil t). A região Sul é a segunda maior produtora de melancia (590 mil t) e melão (20 mil t) (Agrianual, 2012). Na produção de espécies do gênero Cucurbita spp. (abóboras, abobrinhas, abóboras-morangas) a principal região produtora é o Sudeste (204 mil t), seguido da região Nordeste (92 mil t). A região Sudeste também se sobressai na produção de pepino (113 mil t) e chuchu (147 mil t) (IBGE, 2006). O estado do Rio Grande do Sul é o maior produtor de melancias do Brasil e também produz praticamente todas as cucurbitáceas que são comercializadas para o consumo local.

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Anderson Bolzan, Giovani Smaniotto, Flavio Roberto Mello Garcia, UFPel e Claudini Vieira Deboni Caixeta, Mapa e Dori Edson Nava

Embrapa Clima Temperado

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