Safra da soja 2018-2019 – para ser esquecida ou aprendermos com ela?

Mais uma safra brasileira de soja chega ao final e novamente apresenta casos de sucesso e de fracasso. Muito dos problemas estão sendo creditados às condições meteorológicas que foram bastante atípicas em grande parte das áreas produtoras das regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Norte-Nordeste, com chuvas irregulares e altas temperaturas. Esse cenário fez com que diversas áreas enfrentassem veranicos sucessivos em dezembro/2018, janeiro e fevereiro/2019.

Entre dezembro de 2018 e fevereiro de 2019, houveram quadros críticos na questão de disponibilidade de água no solo no Brasil. Isso ocorreu justamente em momentos em que as lavouras de soja se encontravam em fase reprodutiva.

As condições de seca foram mais críticas na região Centro-Sul do Brasil, especialmente nos Estados do Paraná, Mato Grosso do Sul e em parte dos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Mato Grosso, São Paulo, Goiás e Minas Gerais. Mesmo na região conhecida como MATOPIBA (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), onde as condições não foram tão críticas, houve períodos de estiagem, especialmente no oeste da Bahia em dezembro, e em algumas regiões do Piauí.

De um modo geral, tais condições meteorológicas e de disponibilidade de água no solo provocaram quebras generalizadas de produtividade. De acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e a Associação dos Produtores de Soja e Milho (Aprosoja), essas perdas deverão oscilar entre 5 e 30%, sendo as maiores delas observadas no Paraná (30%), no Mato Grosso do Sul (15 a 20%) e no oeste da Bahia e do Piauí (20%). No último boletim da Conab, a expectativa era de uma redução da produtividade média brasileira em de cerca de 7%, caindo de 56,6 sacas por hectare na safra passada para 52,8 sacas por hectare nesta safra.

Apesar das condições climáticas desfavoráveis e das frustações da safra de soja em grande parte do Brasil, muitos produtores conseguiram, mesmo com os veranicos, manter suas produtividades acima de patamares considerados muito altos em relação à média nacional. Alguns conseguiram chegar na média das propriedades, entre 60 a 65 sacas por hectare. Esses são os casos de sucesso, que com certeza não ocorreram por acaso.  Nessas áreas, há vários anos os produtores vêm investindo pesado principalmente na formação de perfil de solo, por meio de ações de ordem química (correção do solo, controle de nematoides, uso de adubos que estimulam a tolerância à seca, etc.) e biológica (rotação e consorciação de culturas, ativação da microbiota do solo, ajuste de cultivares).

Independentemente do nível tecnológico adotado nas fazendas e das produtividades alcançadas, esta última safra foi, portanto, mais uma daquelas que jamais deveremos esquecer, pois ela nos mostrou que investir nos patrimônios físico  (perfil de solo) e genético (cultivares mais tolerantes à seca) e no manejo é garantir melhores níveis de produtividade, melhor rentabilidade ao produtor e, consequentemente, na sustentabilidade da produção.

 

*Paulo Cesar Sentelhas é responsável pelas análises agroclimáticas das áreas dos campeões do Desafio de Máxima Produtividade, organizado pelo CESB. Ele é professor da USP e da FGV e engenheiro agrônomo com mestrado em Agrometeorologia e doutorado em Irrigação e Drenagem. É também pesquisador do CNPq – Nível 1A e editor-chefe da Scientia Agrícola.

 

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Dr. Paulo C. Sentelhas, engenheiro agrônomo e membro efetivo do Comitê Estratégico Soja Brasil (CESB)

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