Safrinha de milho

O plantio do milho safrinha 2009 já está sendo concluído nos principais estados produtores. Segundo a Conab, está estimada uma pequena redução da área plantada, sobretudo no estado de Mato Grosso do Sul. No total, estima-se uma redução de 2,3% na área plantada de milho segunda safra em relação ao ano de 2008.

Entretanto, dados de São Paulo de 27/03/09 publicados no CIMilho (Centro de Inteligência do Milho; disponível aqui) mostram que o bom volume de exportações do grão neste início de ano, os fertilizantes mais baratos e a perspectiva de alta de preço criam um cenário favorável para o plantio de milho na safrinha no estado. No Sudoeste paulista, onde o plantio começa mais cedo, a área cultivada cresceu 20% em comparação com a safrinha anterior, de acordo com informações das Casas da Agricultura. Esta situação favorável pode também ter ocorrido em outras regiões. Em termos médios, os dados mostram que no estado de São Paulo a área ocupada pela safrinha deverá ser a mesma da safrinha passada ou apresentar ligeiro acréscimo.

Com relação à estimativa de produção, é importante ressaltar que a cultura encontra-se, em sua maioria, nas fases de germinação e desenvolvimento vegetativo. O clima, nas regiões produtoras, está se comportando dentro dos padrões normais, podendo haver alterações nas estimativas de áreas e de produtividade nos levantamentos posteriores.

Na última safra (2007/08), o Brasil produziu 58.664.400 toneladas de grãos, sendo que a safrinha representou 32,29% da área plantada e 30,79% da produção. Na região Centro-Oeste, a safrinha representou, em 2008, 74,86% da área plantada e 67,29% da produção colhida, sendo que no estado de Mato Grosso, segundo maior produtor de milho no Brasil, 89,87% do milho colhido vem da safrinha.

HISTÓRICO – Há cerca de 25 anos, a safrinha praticamente não existia. Esse sistema de plantio extemporâneo, sem irrigação, teve seu inicio por volta de 1978/79. O milho safrinha era plantado principalmente após a colheita da soja precoce (situação que prevalece até a atualidade), após a colheita do feijão “das águas” e até mesmo nas entrelinhas da cultura do milho da safra normal, depois que este atingia a maturação fisiológica, quando então o milho era “dobrado” (uma prática utilizada no passado). O grande incremento da safrinha, verificado no início dos anos 80 no Paraná, foi atribuído principalmente à necessidade de uso do produto na propriedade, especialmente por suinocultores e avicultores, às frustrações com as culturas do trigo e do girassol, únicas opções economicamente viáveis para semeadura no período outono/inverno na ocasião, e à perspectiva de colheita e comercialização do produto em época afastada de sua maior oferta. É lógico que o sucesso dos pioneiros da safrinha foi responsável pelo aparecimento de muitos seguidores, particularmente os interessados na comercialização do produto. A partir dessas experiências pioneiras, esse sistema de plantio cresceu tanto e estendeu-se a outras regiões que se tornou componente fundamental das cadeias produtivas que têm na produção e no consumo do milho um item importante.

Com a expectativa de plantio de cerca de 4,74 milhões de hectares, os programas de melhoramento, tanto da iniciativa pública como da privada, responderam com o desenvolvimento de cultivares adaptadas a esse sistema. Os agricultores, comprovando as vantagem da utilização de sementes híbridas melhoradas, mudaram totalmente o quadro de baixo nível tecnológico em vigor. Para se ter ideia da evolução tecnológica da safrinha e do nível de investimento de produtores, técnicos, pesquisadores e da indústria de insumos, dados recentes da Abrasem (Associação Brasileira de Sementes e Mudas) mostram que cerca de 56% das sementes plantadas na segunda safra de milho correspondem a híbridos simples, que exigem melhores condições para expressarem maior potencial produtivo.

Além do desenvolvimento de cultivares, os programas de pesquisa dos setores público e privado apoiaram a produção da segunda safra de milho com recomendações de manejo das lavouras; na definição de riscos em função de épocas de plantio – o que permite indicar as regiões adequadas e estabelecer a cobertura do seguro agrícola; com a realização de avaliações comparativas de rendimento de diferentes materiais em cada região; no estabelecimento das melhores épocas de plantio ou de épocas limites para o plantio do milho safrinha; no monitoramento de pragas, doenças e plantas daninhas e no ajuste de adubação e da densidade de plantio do milho, levando em consideração a grande probabilidade de ocorrência de deficiência hídrica.

Os resultados obtidos permitiram recomendar cultivares mais aptas, indicar a melhor época para o plantio e definir a densidade mais adequada para os melhores materiais disponíveis. Ao mesmo tempo, os próprios produtores agrícolas realizavam ajustes nos sistemas de produção, adaptando-os às condições prevalecentes nas microrregiões em que atuavam.

O cultivo do milho safrinha também foi beneficiado por avanços promovidos pela pesquisa em outras culturas, em especial o desenvolvimento de cultivares de soja mais precoces, que permitem implantar mais cedo as lavouras de milho segunda safra. O aprimoramento e a difusão de tecnologias que ensejaram a expansão do sistema de plantio direto também favoreceram o aumento da produtividade da segunda safra de milho, além de incrementar sua rentabilidade econômica, especialmente na região Centro-Oeste.

Hoje, a maioria dos problemas já foram contornados e, à semelhança do que ocorre com a safra normal, os agricultores já dispõem do Zoneamento Agrícola de Risco Climático, coordenado pelo Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento). Esta ferramenta estabelece, para cada município, as épocas de plantio de menor risco de frustração de safra.

RECOMENDAÇÕES

Pontos-chave para a condução de uma boa lavoura de milho safrinha são a escolha da cultivar de soja a ser plantada no verão, principalmente no que diz respeito ao seu ciclo (geralmente superprecoce), na época de plantio, que deve ser o mais cedo possível, e o tipo de solo (geralmente o que apresenta maior retenção de água disponível para as plantas).

Embora os problemas com o manejo de pragas e doenças sejam semelhantes ou mesmo mais agravantes na safrinha, o controle de plantas daninhas neste período é geralmente mais fácil porque o período de desenvolvimento das principais plantas daninhas já ocorreu. Por outro lado, existem os riscos de fitotoxidade no milho safrinha provocados por resíduos dos herbicidas aplicados na soja na safra normal.

Com a implantação do milho segunda safra no final do período chuvoso, a probabilidade de ocorrência de deficiência hídrica durante o desenvolvimento da cultura é grande. Assim, toda estratégia de manejo deve levar em consideração propiciar maior quantidade de água disponível para as plantas. Neste aspecto, o sistema de plantio direto oferece maior rapidez nas operações, principalmente no plantio realizado simultaneamente à colheita da safra de verão, permitindo o plantio o mais cedo possível. Além disso, propicia maior disponibilidade de água para o milho safrinha, resultado do efeito da cobertura adequada da superfície do solo, que possibilita o aumento da infiltração da água e a redução da evaporação. Por outro lado, o milho safrinha, além da produção de grãos, irá produzir a palhada necessária para uma maior efetividade do sistema de plantio direto, oferecendo maior sustentabilidade.

José Carlos Cruz e João Carlos Garcia
Pesquisadores das áreas de Fitotecnia e Economia Agrícola da Embrapa Milho e Sorgo
www.cnpms.embrapa.br

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