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O conceito de pontualidade não é novo. Ele está presente em todas as etapas de um sistema de produção. Uma operação agrícola, para ser efetiva, deve ser concluída num prazo agronomicamente ótimo (ou janela agronômica), e a isso se denomina pontualidade. No planejamento tradicional, a seleção do equipamento objetiva concluir a operação no menor prazo possível, de modo a evitar perdas por atraso, sobretudo devido ao risco climático e quebra de máquinas. Todavia, isso pode exigir um grande número de equipamentos o que resulta na elevação dos custos fixos. Por outro lado, uma quantidade pequena pode ser incapaz de concluir a operação no prazo, resultando em perdas quantitativas e qualitativas da safra. Em ambos os casos, há redução da rentabilidade do empreendimento, o que se denomina de custo de pontualidade (ou de oportunidade). Assim, o problema consiste em estabelecer um equilíbrio entre o custo extra de capital investido na capacidade da maquinaria, como um seguro para garantir a pontualidade e o custo das reduções de rendimento da safra por falta desta, ou ainda da redução de tempo para a conclusão de uma operação crítica como semear, cultivar e colher para dar lugar à operação seguinte.

USANDO A PONTUALIDADE

Foi com o objetivo de buscar este equilíbrio que se desenvolveu, em um trabalho de tese de doutorado na Faculdade de Engenharia Agrícola da UNICAMP, um programa computacional para seleção de colhedoras baseado na pontualidade e tendo como indicador a receita líquida da operação. Por renda líquida entende-se a diferença entre a renda potencial da área trabalhada e a soma do custo das perdas por atraso com o custo do serviço mecanizado (custo de colheita). A hipótese fundamental é que, se a lavoura tolerar algum atraso na colheita, sem que haja perda considerável, então será possível utilizar uma quantidade menor de colhedoras reduzindo o custo da operação e aumentando a rentabilidade da safra. O programa leva em conta esta característica e o risco climático usando funções de perdas e um critério simples de identificação de dia útil de campo para a operação de colheita numa série histórica de chuva da região agroclimática.

Como o modelo foi testado na cultura da soja, a primeira parte da pesquisa consistiu de um ensaio de campo conduzido em lavoura comercial, na região de Ponta Grossa (PR), para avaliar o comportamento de quatro variedades de soja quando submetidas ao atraso na colheita. Foram utilizadas as cultivares FT Cometa e M-Soy 5942, ambas do grupo de maturação precoce e de hábito de crescimento indeterminado. Também foram testados a cultivar BRS 133, de ciclo semiprecoce, e FT Abyara, de ciclo médio, ambas de hábito de crescimento determinado. O resultado (Figura 1 -
veja no final do texto como visualizar este artigo, com fotos e tabelas, em PDF) foi que as variedades apresentaram diferentes tolerâncias ao atraso. Até 15 dias, as variedades FT Cometa e M-Soy 5942 mantiveram 100% do rendimento inicial, enquanto que neste mesmo prazo as variedades BRS 133 e FT Abyara reduziram o rendimento para 90%. E depois de 45 dias, variedade FT Cometa ainda apresentava 80% do rendimento inicial, a variedade M-Soy 5942 46%, e as variedades FT Abyara e BRS 133 tinham caído para 19% e 26%, respectivamente.

QUAL A MELHOR OPÇÃO

A segunda parte da pesquisa foi a simulação de cenários de colheita combinando variedades e máquinas. Observando a Figura 2 observa-se que antes do ponto de inflexão (capacidade ótima) predominam os custos fixos do equipamento usado na colheita (por excesso de capacidade). Após este ponto, predominam os custos por atraso na colheita (por falta de capacidade). Assim, uma colhedora de 125,1 kW com plataforma de corte de 4,8m atingiria a sua capacidade ótima colhendo 500 ha compostos por FT Cometa + M-Soy 5942. Entretanto, se a composição for FT Cometa e FT Abyara ou FT Abyara e BRS 133, a capacidade ótima seria de 400ha e 300 ha, respectivamente, porém com renda líquida inferior à primeira composição. Ainda, se a área fosse cultivada com uma variedade apenas, a renda líquida seria maximizada para 300 ha de FT Cometa ou 200 ha de FT Abyara. Ambas as variedades apresentaram uma queda acentuada da renda líquida com o aumento da área por causa das perdas mas, a FT Abyara teria uma renda superior, ao redor de US$ 150,00 a mais do que a FT Cometa.

Um cenário real composto por uma frota de colhedoras (duas de 121,5 kW, plataforma de 4,8 e uma de 165,6 kW, plataforma de 7,0m) e uma área de 500 ha cultivada com FT Cometa + M-Soy 5942 serviu como referência para comparar os resultados obtidos no modelo (Figura 3). A frota precisaria colher uma área de 1.900 ha para maximizar a renda líquida da operação, a unidade de 165,6 kW, 900 ha, a unidade de 132,5 kW, 600 ha e a unidade de 125,1 kW, apenas 500ha. Logo, a utilização da frota nesta área apresentaria um custo adicional de aproximadamente de US$ 90.ha-1 se comparada com a unidade de 125,1 kW.

RESULTADOS

O resultado das simulações mostraram que, dependendo da composição de variedades utilizada, a capacidade da colhedora e a renda líquida podem mudar significativamente. Áreas cultivadas com variedades tolerantes apresentam custo de colheita menor, porque as perdas por atraso sendo potencialmente menores, a demanda de colhedoras diminui. Ao contrário, áreas cultivadas com variedades pouco tolerantes possuem um custo de colheita maior, porque para reduzir as perdas potencialmente maiores com atrasos, a demanda de colhedoras aumenta. Em ambos os casos, porém, o custo da operação pode ser reduzido com a colheita escalonada mediante a semeadura em talhões e o uso de cultivares de ciclos diferentes. Aliás, esta recomendação técnica muito antiga foi de alguma forma esquecida em favor de máquinas cada vez maiores e mais caras. Assim também, o melhoramento das culturas que privilegiou características ligadas ao aumento do potencial produtivo. Os melhoristas poderiam abrir uma nova linha de pesquisa dotando as culturas, particularmente a soja, de uma boa tolerância ao atraso na colheita.

A tabela abaixo fornece a quantidade de colhedoras de 125,1 kW com plataforma de 4,8m necessárias para trabalhar uma área de 500 ha. A quantidade de máquinas diminui na medida em que o prazo aumenta. Embora as perdas também aumentem, observe-se que a redução do custo do serviço mecanizado compensa de modo que a renda líquida da operação aumenta com o prazo. Isto, porém, tem um limite, que depende da composição de variedades, usada na área, a partir do qual as perdas passam a ser maiores que a redução do custo mecanizado. Assim, se a área for cultivada com FT Cometa e M-Soy 5942, uma máquina seria suficiente completando o serviço em 35 dias com renda líquida máxima. Mas se a área for de FT Abyara e BRS 133, seriam necessárias duas máquinas e concluir o serviço em 17 dias. Aumentar o prazo para diminuir o número de colhedoras, seria contraproducente porque isso causaria aumento excessivo das perdas. Certamente, a redução da área cultivada seria mais razoável para adequar a capacidade da máquina, sobretudo quando se cultiva apenas uma variedade como acontece no exemplo abaixo com FT Cometa ou FT Abyara. O mesmo raciocínio é válido para as demais composições de variedades e tamanhos de colhedoras.

Iackson de Oliveira Borges,
UFPR
Antonio José da Silva Maciel,
FEAGRI/UNICAMP
Marcos Milan,
ESALQ/USP

* Este artigo foi publicado na edição número 29 da revista Cultivar Máquinas, de abril de 2004.

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