Manejo ideal de fungicidas

A cultura da soja ocupa posição de destaque no Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio brasileiro e mais uma vez se reafirmou como o principal cultivo praticado no país na safra 2013/14.

Com o advento de novas tecnologias associado aos avanços nas áreas de biotecnologia e melhoramento genético, ano a ano são incorporadas novas fronteiras agrícolas com esta oleaginosa ao passo que nas áreas já cultivadas, incrementos de produtividade têm sido uma realidade, porém, um desafio incansável.

De acordo com o sexto levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) realizado em março de 2014, na safra 2013/14 foram cultivados aproximadamente 29,79 milhões de hectares de soja no Brasil, resultando em crescimento médio de 6,9% comparado à safra anterior (2012/13), onde foram cultivados 27,73 milhões de hectares com esta cultura. A produtividade média (kg/ha) naquele ano situou-se próximo a 2.938kg/ha e para o cenário atual projeta-se uma média de 2.867kg/ha, ou seja, queda de 2,4% (Conab). Apesar deste menor número, houve incrementos na produção quando comparadas as duas safras, mesmo porque nesta última ocorreu aumento na área plantada. Desse modo, a produção saltou de 81,49 milhões de toneladas (safra 12/13) para aproximadamente 85,44 milhões de toneladas (safra 13/14), embora as estimativas sinalizassem números próximos a 90,02 milhões de toneladas no levantamento realizado pela Conab em dezembro de 2013.

Diversos fatores influíram nessa trajetória, desde o plantio até a colheita e consequente comercialização do grão como produto final. Destacam-se os “redutores" da produtividade representados pelas pragas, doenças e as plantas daninhas que em conjunto concorrem com a cultura dentro do mesmo ambiente, alterando de alguma forma seu desenvolvimento normal e a expressão do potencial genético produtivo.

Integrando esses fatores, as doenças enquadram-se como de extrema importância e difícil solução. Como reflexo, provocam perdas significativas ao longo das safras, em maior ou menor grau, resultando em aumento do custo de produção e menor rentabilidade por parte da classe produtora.

Essa expansão da cultura da soja para novas áreas, associada à monocultura, à adoção de práticas inadequadas de manejo e à mudança no quadro de cultivares, tem aumentado o número e a intensidade das doenças, além de outras anormalidades de causas desconhecidas.

As decisões e estratégias a serem tomadas para o controle de doenças dependem do conhecimento dos agentes causais, da epidemiologia (fatores que favorecem o seu desenvolvimento), do estádio de desenvolvimento (fenologia) em que a cultura é mais vulnerável e das reações das cultivares a cada doença. Estes conhecimentos são fundamentais para a definição e adoção de técnicas mais adequadas de manejo.

Algumas doenças podem ser evitadas com a simples troca de cultivares suscetíveis por resistentes ou, então, pela alteração da época de semeadura. Entretanto, outras exigem a combinação de práticas culturais com métodos mecânicos e/ou químicos por meio de fungicidas.

Estes últimos oferecem algumas vantagens sobre os anteriores, como praticidade, relação custo-benefício, eficácia etc. No entanto, deve-se ter em mente que se trata de uma ferramenta complementar no manejo e não como a “única" opção, como é vista por muitos.

Praticamente em todas as áreas produtoras de soja na atualidade são utilizados fungicidas no manejo de doenças, principalmente daquelas de difícil controle como no caso da ferrugem asiática (Phakopsora pachyrhizi). Como exemplo, no ano de 2012 a quase totalidade da área cultivada (25 milhões de hectares) com soja foi tratada com fungicidas para controle da ferrugem, perfazendo um total de 93% da área (Figura 1). Já na safra seguinte (2012/13), a área tratada foi superior a 26 milhões de hectares, com média de três aplicações/ha. (Kleffmann, 2013).

Fontes: Área tratada – Kleffman; área plantada – Conab

Figura 1 - Evolução da área (x 1.000) de soja tratada com fungicidas visando o controle da ferrugem

O grande “vilão" referente ao manejo químico tem sido o uso indiscriminado e massivo de certos produtos (moléculas) no controle das doenças. Em outras palavras, seria a utilização dos mesmos mecanismos de ação de forma intensa e pouco planejada ao longo dos anos (safras), resultando em perda de eficácia sobre determinados patógenos-alvo. A situação é mais preocupante quando da utilização de produtos específicos que atuam em um único sítio específico dos fungos (single-site). Nessas condições, a pressão de seleção imposta sobre os patógenos e o risco de surgimento de populações resistentes/tolerantes são maiores. (Frac, 2010).

Em tese, maior será o risco de surgimento de resistência quanto menor o número de genes envolvidos. Essa informação é extremamente relevante, uma vez que fungicidas que atuam sobre vários sítios (multissítio) do fungo interagem com um número maior de genes e, como consequência, o risco de surgimento da resistência é menor. Já fungicidas que apresentam um único sítio de ação tendem a apresentar maior risco de desenvolvimento da resistência.

O desenvolvimento da resistência a fungicidas pode ser entendido como uma adaptação genética dos fungos, estável e hereditária, que resulta na diminuição da sua sensibilidade a uma determinada molécula fungicida (Reis et al, 2011). Em geral, a redução da sensibilidade surge em resposta ao uso repetido de um fungicida, com o mesmo mecanismo de ação, numa grande área e com várias aplicações no ciclo da cultura. As principais consequências são controle ineficiente de doenças e casos de insucesso no campo.

Essa redução de sensibilidade ou resistência pode ser cruzada, múltipla, qualitativa ou quantitativa. A primeira refere-se à resistência de um fungo a dois ou mais fungicidas, com o mesmo mecanismo de ação ou similaridade química conferida pelo mesmo fator genético. Já a segunda ocorre quando linhagens patogênicas apresentam mecanismos de resistência separados para fungicidas de grupo químico distinto ou mecanismo de ação diferente.

Na resistência qualitativa, tem-se a perda de efetividade do fungicida de modo repentino e marcante pela presença bem definida de populações de patógenos que apresentam suscetibilidade e resistência com respostas que variam amplamente. Finalmente, na resistência quantitativa, tanto o declínio no controle da doença como a diminuição da suscetibilidade das populações do patógeno, demonstradas por teste de monitoramento, se manifestam gradualmente, são parciais e ocorrem em graus variáveis.

Notadamente, é preocupante que a performance dos fungicidas possa declinar em decorrência do desenvolvimento de resistência nos fungos-alvo.

Exemplo disso foi a queda acentuada na eficácia dos triazóis (inibidores da desmetilação) utilizados no controle da ferrugem asiática (Phakopsora pachyrhizi) quando comparados os primeiros anos de entrada da doença no Brasil (2001/2002) com as últimas safras (Figura 2). O grande fator propulsor foi as aplicações de forma isolada, em grandes áreas e com várias aplicações no ciclo da soja.

Fonte: Ensaios cooperativos de fungicidas

Figura 2 - Evolução da redução do controle da ferrugem pelo tebuconazol ao longo de sete safras

Assim como os triazóis, outro grupo químico bastante utilizado, as estrobilurinas (inibidores da quinona externa) apresentaram redução na performance de controle quando aplicadas de forma isolada por diferentes safras e ciclos de cultivo para controlar tal doença. Pesquisas conduzidas em campos experimentais e laboratório confirmaram essa redução da sensibilidade da ferrugem a este grupo químico na safra 2012/13. Concomitantemente fungicidas do grupo dos benzimidazóis demonstraram redução de eficácia sobre algumas doenças, dentre elas a mancha alvo (Corynespora cassiicola) (Figura 3).

Figura 3 - Controle ineficiente de mancha alvo devido à perda de eficácia dos benzimidazóis (ensaios comparativos Fundação MT)

Aliado a estes problemas, somam-se as dificuldades e restrições (legais e/ou envolvendo aspectos toxicológicos) impostas para o lançamento e desenvolvimento de novas moléculas (novos registros), que contemplem diferentes grupos químicos e mecanismos de ação. Como consequência, há o desafio constantede manejar doenças de forma integrada utilizando as moléculas presentes no mercado e que de fato estão disponíveis ao uso. Neste sentido, é pertinente que estratégias antirresistência sejam adotadas para uma maior sobrevida destes fungicidas.

Tendo em vista a necessidade de controlar de forma efetiva o complexo de doenças nas culturas, associado à redução na performance de controle por parte de alguns grupos químicos, o produtor deve adotar algumas estratégias integradas que contribuam para um manejo antirresistência. Destacam-se não usar fungicidas com sítios específicos isolados (triazóis, estrobilurinas, carboxamidas). Empregar sempre a dose correta recomendada pelo fabricante, utilizar adjuvante/surfactante correto para melhorar a qualidade da aplicação e consequentemente a deposição de gotas no dossel da cultura, limitar o número de aplicações com o mesmo produto no ciclo da cultura (rotacionar ingredientes ativos e mecanismos de ação). Recomenda-se, ainda, usar mistura de tanque (“tankmix") com diferentes modos de ação para alcançar maiores patamares de controle, adicionar às misturas de fungicidas de sítios específicos um fungicida protetor de largo espectro (multissítio), monitorar a eficácia dos produtos ano a ano, realizar aplicações preventivas, utilizar tecnologia de aplicação adequada, adotar cultivares resistentes, realizar adubações equilibradas, rotação de culturas, semeadura na época adequada, dentre outras.

A adoção destas estratégias em conjunto, de maneira criteriosa, certamente contribuirá para a manutenção da eficácia dos produtos (“sobrevida"), maiores patamares de controle das doenças e consequentemente maiores ganhos em produtividade. Isso reflete em uma maior sustentabilidade do sistema e na preservação das tecnologias utilizadas.

Este artigo foi publicado na edição 182 da revista Cultivar Grandes Culturas. Clique aqui para ler a edição.

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Ivan Pedro

Fundação MT

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